Foto em: http://olhaioliriodocampo.blogspot.pt/2009/08/um-poema-de-julio-roberto.html
POEMA ECOLÓGICO de Júlio Roberto, 1978, uma deliciosa lição-análise sobre este nosso cada vez mais agredido Ambiente, pela ganância ilimitada do mundo dos cifrões está a conduzir para a destruição.

Júlio Roberto (1929-2013) foi meu contemporâneo no Liceu. Na fase em que partilhei com ele e outros adolescentes com interesses intelectuais, ele era um curioso na biologia e na filosofia.

Professor, escritor, poeta, ecologista e editor (ITAU), foi conferencista em Portugal e no Estrangeiro, dissertando sobre a natureza, a qualidade de vida e o homem.

Convidado pelo Conselho da Europa para escrever um livro sobre os Direitos Humanos, aceitou o desafio, dando à estampa “Reconstruir o nosso mundo”, com ilustrações de Teresa Soller (ITAU, 1976), tido por um dos primeiros livros a alertar-nos para a destruição da biodiversidade pelo chamado progresso.

A.M. Galopim de Carvalho
Amigo Chefe Seattle
Amigo Chefe Seattle

Li a tua carta escrita em 1854 ao grande Chefe Branco de Washington.

Sou um homem de 1978 que vive, como tu previste, num mundo em decadência e destruição. Já não ouço o sussurrar do vento nem o diálogo nocturno das rãs nos charcos da selva. Já nem temos selva.

As flores murcham, as árvores agonizam, os pássaros fogem e os insectos deixam de zumbir. Sei que sou um homem enjaulado numa cidade, enquanto outrora tu vivias nas pradarias, lá onde bisontes e búfalos te alimentavam o corpo e a alma.

Os rios, para ti sagrados, são hoje para mim apenas uma miragem de infância. Neles, em vez de peixes a fazerem corridas e acrobacias, eu vejo o lixo da nossa civilização, os detritos deste mundo, as opulências mortas de uma humanidade que se afunda vertiginosamente na era do plástico.

Olho para as estrelas e o luar. Parecem mais distantes do que são, e os meus olhos, desabituados já de os observar, cansam-se facilmente. Não tenho, como tu tinhas, esse poder de olhar de frente o sol, de receber – sem me cegar – a sua luz e o seu calor.

As águias, vi uma ou outra, como se fossem já animais pré-históricos, aturdidos e se calhar confusos, sem perceberem o que fizemos desta Terra.

E o mar, esse, sobretudo o que vinha dantes banhar as nossas praias e namorar a areia branca, vem agora sujá-las, com o lixo que lhe deitaram dentro. Tem um ar triste, de um mendigo que, às vezes, se revolta e destrói as grandes construções dos nossos engenheiros.

Ah! Meu querido amigo selvagem! Como eu, que não vivi no teu tempo, nem nas tuas pradarias, tenho saudades da tua Terra sagrada!

Sabes, agora temos frutos maiores, calibrados, estudados, enxertados, fertilizados e envenenados. Não sabem a nada, nem à frescura do néctar da flor que os gerou, nem ao perfume de que tu falas.

A nossa sabedoria é outra. Transformámos tudo, progredimos, inventámos, criámos coisas que tu nem imaginas. Olha, substituímos o vento e o sol por uma coisa que se chama energia nuclear.

Sabes, é que nós precisamos de mais energia. Criámos tantas coisas, somos seres tão exigentes, que a energia da Natureza não chega para os semideuses que nós somos.

Desviámos rios, irrigámos as terras, morreram muitos peixes, passámos fome; porém, temos coisas que tu nem sequer podias imaginar.

Sabes o que é um arranha-céus com ar condicionado, elevadores que nos levam para cima e para baixo? Claro, não sabes. Tu não precisavas de morar para cima de ti próprio. Tinhas espaço e moravas para os lados.

Nós vivemos a correr; tu contemplavas. Contentavas-te com pouco. Não admira, tu eras selvagem. Nós, não, temos necessidade de mais, cada vez mais, cada vez mais!

É que nós não nos pertencemos. Pertencemos ao todo. Cada um é uma pequena peça que gira e roda sem saber porquê, e sem ter tempo para saber.

Tu tinhas espaço, tinhas tempo e tinhas-te a ti.

Como tu disseste, «Vocês morrerão afogados nos vossos próprios resíduos.

 

 

 

 

   
   
   




 



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