Procurar textos
 
 

 







JÚLIO CÉSAR 
DE 
BITTENCOURT GOMES

O Escultor Do Silêncio (fim)

 

No âmbito da literatura, a consciência da precariedade da palavra para expressar um mundo que não é verbal, exerce sobre o escritor o efeito de uma espada de Dâmocles pairando sobre sua cabeça (7). Diante do dilema de ser portador de uma ferramenta talvez insuficiente para erigir sua obra - mas da qual tem que fazer uso se quiser manter seu ofício - resta ao escritor optar entre o que Steiner chama de "a retórica suicida do silêncio" e a tentativa de transmitir, através da própria língua, a precariedade do ato comunicativo. Sem perder totalmente de vista a primeira alternativa, Graciliano opta pela segunda, buscando uma linguagem que seja a mais precisa e exata possível, não apenas em termos de léxico, como também em verossimilhança, isto é, como expressão das nuanças dos sentimentos e dos pensamentos dos personagens, até chegar a um minimalismo expressivo calcado no uso de palavras absolutamente necessárias e insubstituíveis, que sejam capazes de expressar tanto idéias e sentimentos complexos, como os de um Luís da Silva, em Angústia , por exemplo, quanto, estados de consciência rudimentares, como os de um Fabiano, em Vidas Secas.

Vidas Secas, aliás, é o emblema do processo de esvaziamento da linguagem levado a cabo por Graciliano. Escolhendo como protagonistas seres "primitivos", incapazes de resistir às determinantes da natureza, posto que ainda fundidos nela, Graciliano torna a linguagem, com sua lacônica secura, a metáfora mesma do que está sendo narrado, fazendo com que esse relato de vidas sem saída atinja o status de arte justamente através da estrutura da narrativa, que se reveste da mesma carga opressiva do universo que retrata. Os personagens de Vidas Secas , condicionados pelo contexto, entregues ao próprio destino, apesar de imersos no espaço enorme que os circunda, trafegam sob o peso de uma atmosfera psicológica claustrofóbica, opressiva, que é enfatizada, formalmente, pela incapacidade que têm de expressar seus próprios sentimentos. Estão presos às circunstâncias, mas são ainda mais prisioneiros de si mesmos, pois seu déficit lingüístico não lhes permite interagir ativamente com o mundo. Como conseqüência, Fabiano e sua família revelam-se embrutecidos, próximos à rusticidade animal. Comunicam-se basicamente por monossílabos, exclamações, onomatopéias, gritos; e das "reflexões" que Fabiano faz - como no episódio cadeia , quando "rumina" as razões de sua prisão - o leitor só toma conhecimento através do narrador que as descreve, intercalando-as com a "fala" do personagem, incapaz de expressá-las:

(...) Mas agora rangia os dentes, soprava, merecia castigo?

- An!

(...) por que vinham bulir com um homem que só queria descansar? Deviam bulir com outros.

- An!

Estava tudo errado.

- An! (8)

O mesmo processo é repetido no episódio inverno , onde o narrador explicita os temores de Sinhá Vitória frente a possibilidade de uma inundação. Esses temores são parcialmente apaziguados pelas admoestações que a personagem silenciosamente faz a si mesma; admoestações essas que, quando transpostas para o plano verbal, se materializam no mesmo monossílabo algo perplexo de Fabiano:

A água tinha subido, alcançado a ladeira, estava com vontade de chegar aos juazeiros do fim do pátio. Sinhá Vitória andava amedrontada. Seria possível que a água topasse os juazeiros? Se isto acontecesse, a casa seria invadida, os moradores teriam de subir o morro, como preás. Suspirava atiçando o fogo com o cabo da quenga de côco. Deus não permitiria que sucedesse tal desgraça.

A casa era forte.

- An!

Os esteios de aroeira estavam fincados no chão duro. Se o rio chegasse ali, derrubaria apenas os torrões que formavam o enchimento das paredes e taipa. Deus protegeria a família.

- An! (9)

O processo de embrutecimento, de animalização dessas vidas secas, atinge o paroxismo no apagamento da identidade do sujeito, do qual os grunhidos, característicos tanto de Fabiano quanto de sinhá Vitória, são apenas um exemplo. O outro é o dos filhos do casal, designados apenas como "o menino mais velho" e "o menino mais novo", e que têm, para os próprios pais, o mesmo status dos bichos: "Menino é como bicho. Não pensa." (10)

Nesse sentido, a cadela Baleia é reveladora, pelo contraste, da impossibilidade do mais humano no homem, pois ao contrário do casal retirante, bestializado, esta não somente pensa como apresenta uma sensibilidade e uma riqueza interior que em sua sutileza ultrapassam em muito as demonstradas por Fabiano e os seus. Longe, porém, de significar uma espécie de "panteísmo nordestino", onde o sopro divino tanto poderia estar no homem como no cão, a humanidade de Baleia é o artifício literário que torna nítidos os contornos sufocantes de um mundo onde a condição humana está permanentemente sob ameaça; seja do peso determinante do meio físico, seja do fantasma assustador do silêncio.

A preocupação de Graciliano em reproduzir esse mundo rudimentar, pré-verbal, faz com que ele atue como um "escultor" do silêncio que, buscando a aproximação da linguagem dos que não têm palavra, vai despindo sua própria linguagem dos excessos ou protuberâncias até atingir - paradoxalmente, através da própria palavra - a coisa mais próxima do silêncio: a linguagem mais referencial, limpa de qualquer elemento acessório ou ornamental. (11)

Como conseqüência desse processo, a escrita de Graciliano adquire contornos que, embora não explícitos no texto, vão se infiltrando quase que imperceptivelmente na sensibilidade do leitor, que vai se deixando tomar por uma sensação de desconforto e angústia que não se sabe exatamente de onde brota; sensação essa que tem muito que ver com a ausência de uma experiência do tempo, por parte dos personagens, da forma como normalmente a conhecemos, como uma experiência de início, meio e fim dos diferentes processos existenciais. Os personagens de Vidas Secas estão como que soltos num tempo que remete sempre ao mesmo ponto de partida que, a rigor, nem mesmo pode ser definido como um início, pois a sensação, onipresente, que acomete os personagens - e o leitor - é a de um eterno meio . Não há um início ou fim fechados, definidos: o que era o relato de uma fuga da seca ao abrir-se o livro, ao fechá-lo será uma nova fuga, a qual, no plano de seus efeitos práticos, será sempre a mesma. História circular, Vidas Secas constitui-se num relato em que o que já foi ainda está por vir.

Que Graciliano tenha atingido tal grau de abstração num texto aparentemente simples e através de uma linguagem seca e nua é algo digno de nota, sobretudo porque, para além da expressão, em seu romance, dos efeitos de uma crise econômica e social brasileira, ele consegue ultrapassar esses condicionamentos para abarcar, no seu todo, o próprio sentido da vida. Dessa forma, sua obra revela-se como uma síntese daquilo que Steiner identifica como "um dos atos mais originais e característicos do espírito moderno (12)", uma reavaliação do silêncio e de sua insólita capacidade de expressar - de uma forma talvez suicida, pela recusa da linguagem - tudo aquilo que escapa ao alcance da palavra.

 

7 Dâmocles, como se sabe, era um cortesão de Dionísio, o Antigo, (tirano de Siracusa de 405 a 367 a.C) de quem invejava a felicidade. Ciente disso, Dionísio ordenou que durante um banquete fosse suspensa sobre a cabeça de Dâmocles uma espada, mantida por um fio de crina de cavalo, para que o cortesão compreendesse o quão frágil é a felicidade dos tiranos. Cf. HOUAISS, Antônio (dir.). Pequeno Dicionário Enciclopédico Koogan Larousse. Rio de Janeiro, Editora Larousse do Brasil, 1979. Tal qual a espada de Dâmocles, que simboliza o perigo que pode ameaçar um homem em plena felicidade, a possibilidade do fracasso da linguagem para expressar um mundo que não é verbal constitui uma ameaça permanente para o escritor, o qual tem como ferramenta de trabalho justamente a palavra.

8 RAMOS, Graciliano. Vidas Secas . 65ª ed. Rio de Janeiro, Record, pp.33-34.

9 idem, ibidem, pp.65-66.

10 idem, ibidem, p.122.

11 É bem conhecida a "fúria supressora" de Graciliano que, segundo Otto Maria Carpeaux, seria capaz de "(...) eliminar tudo o que não é essencial, as descrições pitorescas, o lugar-comum das frases feitas, a eloqüência tendenciosa. Seria capaz de eliminar ainda páginas inteiras, capítulos inteiros, eliminar os seus romances inteiros. Eliminar o próprio mundo (...)". CARPEAUX, Otto Maria. Visão de Graciliano Ramos . In: RAMOS, Graciliano. Angustia . Op. Cit., p.239.

12 STEINER, George. O poeta e o silêncio . In:__. Op. Cit. p.68.

 
   
   

 

 

 


hospedagem
Cyberdesigner:
Magno Urbano