JOAQUIM SIMÕES

A cretinada dos dez mil –
pequena visita autobiográfica sem guia

O meu avô materno era moleiro. Fez a quarta classe aos dez anos, coisa raríssima no ano final do século XIX entre gente camponesa e pobre, pelo que o convidaram a entrar num Seminário para poder prosseguir os estudos. Avesso por temperamento a tudo o que lhe cheirasse a religião, recusou e apenas acedeu a casar pela Igreja aos 73 anos, a pedido da minha avó, moribunda. Quando ainda muito jovem, acenara-lhe uma futura herdeira rica, mas ele preferiu “aqueles olhos bonitos” à promessa de vida desafogada.

Foi moleiro por descender de outra família que não a sua. A frase parece enigmática, mas explica-se com facilidade. O avô materno deste meu avô era filho de um casal abastado, que assaltaram. Mataram-lhe a mãe, e o pai, que fugiu com o filho para os campos, acabou por ter destino igual. A criança conseguiu escapar e, errando pelas terras, chegou a um moinho, onde um casal o recolheu. Esse casal, de idade um pouco avançada, não tivera filhos e, tempos mais tarde, decidiu adoptá-lo.

Como era habitual, deram-lhe como herança a profissão e os dois moinhos – um, de água e o outro, de vento – que possuíam, tal ele fez depois com os seus descendentes. O meu avô e alguns dos meus tios, que ainda lá trabalharam antes de se dedicarem a outros modos de ganhar a vida, sofreram também umas quantas tentativas de assalto quando pernoitavam neles.

Ao meu avô materno, que manteve uma paixão particular pela História ao longo da vida, fico a dever, além de lha herdar, a inesquecível experiência de fingir deixar-me guiar a parelha de machos – o Pardal era o macho mais irrequieto – que atrelava à carroça em que transportava os sacos de farinha. E também a de ir orgulhosamente montado e a guiar o burro, carregado de alforges… Para um puto da cidade, que coisa mais enriquecedora haverá na infância do que a sensação de trabalho físico conjunto entre nós, os mais inteligentes, e a restante natureza?

O meu avô paterno, que não cheguei a conhecer, esse morreu com cinquenta e poucos anos, devido a problemas cardíacos, provocados por excesso de trabalho. Fora, na juventude, trabalhador rural – trabalhador de enxada, como era uso dizer-se – mas possuía uma boa intuição para o comércio e, apesar de analfabeto, conseguiu amealhar e aplicar as poupanças em pequenos negócios, que o tornaram num comerciante de dimensão média para o nível de desenvolvimento local.

Era um entusiasta do “progresso”, como se dizia na altura, e foi dele a oferta à colectividade do primeiro aparelho de rádio que a vila teve. Desassombrado e frontal nas atitudes e relações, sempre se declarou nos documentos como trabalhador rural. A propósito dessa frontalidade e desse desassombramento, contavam-me o que relato em seguida.

Havia, ao tempo, uma quadrilha centrada na povoação, com ramificações até uns 20km em redor (30km, se contado a partir da capital do distrito), roubando toda a sorte de bens, dos produtos agrícolas aos bens pessoais. Valiam-se de cópias das chaves dos armazéns e residências, conseguidas pelos mais diversos meios. Não foi fácil desmantelar o grupo nem prender o chefe, a polícia só o conseguiu mediante promessa de imunidade a um dos elementos do bando, caso denunciasse os restantes.

E na memória da vila, entre outras coisas, ficou a pergunta que, um dia, o meu avô fizera ao chefe do bando, em público, com esse tal desassombro tranquilo: “Então quando é que vais à minha casa?”; bem como a resposta displicente que recebeu: “Não… tu ainda és dos pequenos…”.

Ao meu avô paterno não devo nada directamente. Devo-lhe, no entanto, a experiência do que podia ser uma casa de maior desafogo, fruto da iniciativa própria, do trabalho e da inteligência aplicada a uma visão mais alargada da vida, e da permanente procura de recursos inventados e por inventar que a enriqueçam e facilitem. Devo-lhe o gosto pela leitura adquirido pelo meu pai – já que o meu avô, embora analfabeto, participava com mais uns quantos numa espécie de clube informal, onde um seu cunhado lia em voz alta o jornal diário e até romances (o De Profundis, versão abreviada da Carta a Lord Douglas escrita na Prisão de Reading, de Oscar Wilde, foi um desses romances). E devo-lhe a sensação, importantíssima para uma criança, de ouvir falar dele sempre com respeito e alguma emoção a todos, mesmo aos que não faziam parte da minha família.

Gente honrada e acolhedora em geral, mas agressiva entre si e para os que lá fossem catrapiscar as raparigas (disso falavam-me os meus pais) era a que havia numa aldeia contígua. Não havia marido ou filho que saísse de casa sem ouvir da boca da mulher ou da mãe: “Levas a faca?”. As rixas resolvidas à facada por dá cá aquela palha exasperavam, pela frequência e pelo absurdo, o médico da região que, na tentativa de os refrear, lhes cosia as feridas a sangue-frio. Debalde. Uma célebre rixa entre dois deles, em que um aplicou a outro 18 golpes e este outro, em retaliação, 21 ao primeiro, acabou com ambos em perigo de vida no hospital, em camas deliberadamente colocadas lado a lado.

Alguns dos que viviam na vila dos meus pais, diziam-me eles também, engrossaram o número dos deportados para Angola pelos governos de Salazar. O motivo? O do costume: assassínio. E um dos que voltaram, cumprida a pena, chegava a dizer que, se tivesse a certeza de que o mandariam de volta para África, mataria mais um. Outros, que nunca chegaram a ser oficialmente acusados de nada de muito especial, embora conhecidos por maus motivos, havia-os por lá igualmente.

Como aqueles três jovens irmãos delinquentes, recordava a minha mãe, que foram condenados a aprender um ofício e a certificarem-no perante um juiz, como forma de disciplinarem o carácter e possuirem uma habilitação profissional. Um velho carpinteiro ofereceu-se para essa tarefa; finda a aprendizagem, disseram-lhe eles que, como reconhecimento, lhe deixariam uma lembrança. E deixaram: partiram-lhe os braços, impossibilitando-o de voltar a trabalhar como antes. Mais a respectiva ameaça de morte, se se atrevesse a dizer como na verdade eles se haviam partido.

Quando eu tinha 15 anos, chegaram-me às mãos, por mero acaso (embora eu hoje tenha dúvidas sobre o que “acaso” significa), três livros que mudaram a minha percepção da raiz do querer – ou precisar (mas é a mesma coisa) – de escrever: A queda, de Albert Camus; Deus lhe pague, de Joracy Camargo; e A Casa de Bernarda Alba, de García Lorca. O primeiro (de que, na altura deverei ter compreendido para aí uma décima parte) despertou-me para a estranheza de mim mesmo; o segundo deu-me os rudimentos para iniciar a reflexão sobre as relações entre o individual e o social; o último, porém, mostrou-me a que ponto a revolta contra a mentira que nos sufoca o ser é vital – e que a escrita pode ser libertação no sentido em que os pulmões se abrem à vida quando alguém, quase a afogar-se, consegue voltar à tona d’água.

Lorca foi quem me abriu o caminho para que eu começasse, mais tarde, a pôr por escrito o que sentia ser-me imperioso dizer. Naquela peça tive a certeza de que, pela primeira vez, encontrara um amigo íntimo, alguém em quem, tal como em mim mesmo, crescera uma náusea cinzenta face à aceitação – aparentemente inquestionável por referente a uma qualquer transcendência opressiva – bem como ao silêncio conveniente que rodeava tanto do que acções, gestos, expressões, olhares… me deixavam aperceber-me, por vezes apenas subliminarmente. Coisas que, no meio de afectos e lealdades em contradição e conflito, me surgiam confusas mas profundamente (oh! profundamente! como apenas em adolescente isso é possível!), insustentavelmente, inadmissivelmente traidoras e destruidoras de um sentido digno para a vida.

Embora, na minha família como na grande maioria das restantes com quem convivia quando ia de visita à terra dos meus pais (eu era o neto, o sobrinho, o primo lisboeta, por já cá ter nascido), não me desse conta de casos ou ambientes do que agora se chama pomposamente “violência doméstica” e “abusos de natureza sexual”, o certo é que ouvia falar deles à surrelfa. Digamos, pelas contas que agora faço, que tais murmúrios cúmplices abrangeriam uma parte significativa daquela gente.

O que já não seria pouco. Mas aquilo que me aproximava de Lorca era a percepção agudamente dolorosa das relações intestinas de poder em quase todas as famílias, inquinando-as até à náusea, até à deformação do carácter, até à insanidade psíquica; que traíam, emporcalhando-as, entre ressentimentos e vinganças, as relações que, por mais íntimas, deveriam ser as mais fortes, puras e livres. Tudo ao som da voz de Bernarda Alba, soturnamente histérica, que eu ouvia repetida por quase todo o lado, dizendo que não lhe interessavam os problemas de ninguém, que queria era “boa cara e harmonia na família” (cito de memória). Como eu reconheci essa frase, que ecoava em mim, amarfanhando-me o espírito, vinda até do interior de uma parte da minha própria família…!

Sim, e dentro daquele inferno ateado por eles mesmos, já não como pessoas mas como títeres movidos pela continuidade e avolumar de um seu impulso inicial que se transformara em vertigem, o suicídio surgia como o trágico vórtice final aceite com a aparência de certa naturalidade. Um desfecho que assumia legitimidade triste perante as agruras ou os desgostos da vida ou a dimensão de enigma íntimo, cujos motivos a ninguém caberia o despudor de investigar, quando muito a  comentar meio em surdina.

O meu bisavô paterno, também ele com a quarta classe feita em criança, ferreiro de profissão e que escreveu dois livros sobre doenças que afectavam o gado equino e respectivas formas de tratamento, respeitado pelos veterinários da região, nunca mandou para a escola qualquer dos filhos e, quando velho, queimou os livros e suicidou-se. Três primos, não muito afastados do meu pai, por enforcamento ou por disparos sobre si próprios, seguiram-lhe o exemplo, anos mais tarde.

E, como eles, tantos outros. Se o livro de Unamuno, Portugal, país de suicidas, consistisse no resultado de uma investigação sociológica, em vez de constituir um testemunho atónito da tendência dos nossos escritores do século XIX para se suicidarem, sê-lo-ia sobre o Alentejo. Coisa que, aliás, tais investigações demonstram, sem qualquer dúvida. E nem é preciso relembrar, no que respeita a escritores, a tão mal-amada pelos seus conterrâneos Florbela Espanca. Ou o primo dela, Túlio Espanca, que recusou levar a sua doença até ao desfecho final. Tal como o meu muito saudoso sr. Manuel, que me tratava das árvores, o fez por idênticos motivos, dois anos atrás…

Porque é do Alentejo que tenho falado até agora.

Ah, claro que eu gostava do Alentejo, que gostava muito, muito do Alentejo! Parecia-me, naqueles campos, belíssimos!, não haver limites que me tolhessem a imaginação e a vontade. E gostava das pessoas, claro que sim, apesar de tudo, em especial quando eles cantavam como se no fim de contas lhes fosse possível (finalmente!) libertarem-se do peso que lhes ia nas almas. E eu cantava com eles – “cabrão do moço, se canta bem…!”, diziam uns; “deviam pô-lo no canto lírico…”, sentenciavam outros, os de maiores posses, os que viviam quase todo o ano no andar que haviam comprado em Lisboa, no Bairro de Alvalade, como os parentes do lado rico da família da minha avó materna.

Este Alentejo ainda existe? Não – ou, pelo menos, estou convencido disso. A paisagem mudou em boa parte, há bastante menos oliveiras adultas já que mudaram os métodos da exploração agrícola, em especial as do azeite, hoje feita maioritariamente por agricultores espanhóis. E mudaram e vão mudando, em boa medida e para melhor, as relações dentro das famílias. A começar nas que foram constituídas pelos da minha geração, obrigada a abrir-se à realidade e à extensão do mundo através da guerra colonial. E, em seguida, pelas mudanças no país bem como pelo acréscimo das condições de deslocação e de comunicação. Tudo concorreu para que nas mentes acabasse por se gerar o espaço necessário a que nelas se fosse esfumando a névoa tétrica e letal que envolvia e aprisionava as mentes e os espíritos de tantos. Mas ainda não de todos, como é natural, que o tempo tudo refoga em lume brando para que fique apurado e devidamente consolidado o petisco.

E como aconteceu e acontece, aliás, em todo o país, ocupado demasiadas vezes em regionalismos bacocos. Sobre este assunto, nunca resisto a contar um episódio passado com a minha enérgica tia materna, de 90 anos, também ela vinda meio século atrás para a capital. Instada a pronunciar-se, no meio de um encontro casual entre mulheres naturais de diferentes regiões do país, por uma dessas mulheres sobre a superioridade ou a inferioridade das alentejanas em relação às outras, saiu-se com esta:

“– Respondo-lhe, se a senhora me responder primeiro a três perguntas que lhe vou fazer.

– Então, diga lá… – assentiu a outra.

– Na sua terra há prisões?

– Há, sim… Mas não têm quase ninguém.

– Também não lhe perguntei se estavam a abarrotar… E posto da GNR e tribunal, há?

– Há, sim.

– Na minha só há GNR, porque o tribunal fica na capital do distrito. E responda-me agora a mais esta: na sua terra há filhos de pais incógnitos?

– Há, sim, pois…

– Na minha, também. Como pode ver, somos todos iguais.”

Apeteceu-me de falar de tudo isto porque, dias atrás, jornais, televisão, rádio e “redes sociais” ficaram, de súbito, cheios de uma suposta afronta feita aos alentejanos em livro e em programa televisivo, por Henrique Raposo, jornalista do Expresso, também ele filho de alentejanos vindos para Lisboa. Era, pelo menos, o que diziam alguns e… Mas não valerá a pena relembrar o que toda a gente ouviu e presenciou.

Só quis deixar aqui aos dez mil cretinos (alguns, alentejanos, certamente; muitos, certamente, idiotas úteis, para usar o termo de Lenine) que exigiram, através da sua “rede social”, o silenciamento de Henrique Raposo por se ter atrevido a dizer o que disse (e eu nem sequer concordo com algumas das coisas que Henrique Raposo disse, oralmente e por escrito) e até de quem lhe proporcionou dizê-lo publicamente, uma certeza. A certeza de que há gente – como eu, que não cheguei a ir para o canto lírico e raras oportunidades tenho hoje de cantar em coro com alentejanos – que não partilha da devoção (da simples estupidez ou da conveniência inconfessável) a imagens “politicamente retocadas” porque ama a sério, com seriedade, o Alentejo.

 

Joaquim Simões nasceu em Paço d’Arcos, em 1950.

Licenciou-se em Filosofia, na Universidade Católica Portuguesa. Frequentou o mestrado em Cultura Clássica da Universidade de Lisboa, sob orientação do Professor Victor Jabouille, tendo sido investigador da Linha de Acção 1 do Departamento de Línguas e Cultura Clássicas da mesma Universidade, abandonando, porém, ambas as actividades por motivo de doença.

Foi professor do Ensino Secundário em diversas escolas da área de Lisboa e, para além da actividade docente, exerceu funções de orientador de estágio profissionalizante e de representante de uma delas em alguns encontros, nacionais e internacionais, sobre multiculturalidade.

Em 1979, publicou um livro de poemas em edição de autor, com prefácio de Manuel Grangeio Crespo.

Entre 1980 e 1983 participou no projecto de teatro para a infância e juventude do Teatro do Nosso Tempo, em Lisboa. Em 1982, em parceria com o músico Francisco (Xico Zé) Henriques, constrói um espectáculo, “Astrolábio”, composto por canções feitas a partir de poemas seus.

Entre 1989 e 2010, colaborou permanentemente com Manuel Almeida e Sousa e a Mandrágora em diferentes realizações na área da performance teatral.

Em 2010, colabora com Maria Morbey Henriques no espectáculo “Banjazz – Um bichinho esquisito”, levado à cena, em Fevereiro, no Centro Cultural de Belém.

 

 

 

 




 



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