Francisco José
Craveiro de Carvalho

«Antimatéria» e mais poemas de Russell Edson
Traduções
de Francisco Craveiro

Antimatéria 

No outro lado de um espelho há um mundo ao contrário,

onde os loucos se curam; onde os ossos saem da

terra e recuam até ao sedimento inicial do amor.

 

E à noitinha o sol está a nascer.

 

Os amantes choram porque estão um dia mais novos, e em breve

a infância lhes roubará o prazer.

 

Nesse mundo há muita tristeza que, claro, é alegria.

 ***

Consideremos 

Consideremos o lavrador que faz do chapéu de palha  a sua

namorada; ou a mulher que  de  um candeeiro de pé faz o filho;

ou a jovem que se impôs a tarefa de  raspar

a sombra da parede...

 

Consideremos a velha que  usou línguas de vaca fumadas

como sapatos e que foi por um campo fora a apanhar excrementos de vaca

para o avental; ou um espelho escurecido pelo tempo dado

a um cego que passou as noites contemplando-o fixamente, o que

entristecia a mãe, que o filho se entregasse tanto à vaidade...

 

Consideremos o homem que fritou rosas para o jantar,

cuja  cozinha cheirava como um jardim de rosas em chamas; ou o homem

que se disfarçou de mariposa e comeu o sobretudo, e que para

sobremesa serviu a si próprio um chapéu de feltro gelado...

 
 

Anjos 

São de pouca utilidade. São melhores como objectos de tortura.

   Nenhum governo se importa com o que fazer deles.

 

   Como aves, e contudo tão humanos...

   Acasalam olhando rapidamente para o outro.

   Os ovos são como gomas brancas.

 

   Tem-se dito por vezes que levam um homem a fazer mais da sua vida do que podia.

   Mas que há para um homem fazer da sua vida?

 

   ... Ardem maravilhosamente com uma chama azul.

 

   Quando gritam parecem o chiar de uma dobradiça minúscula; o grito de um morcego. Ninguém o ouve...

 

***

O fabricante de brinquedos 

Um fabricante de brinquedos fez uma esposa e uma criança de brincar.

Construiu uma casa e alguns anos de brincar  também. 

Um  brinquedo a envelhecer e um a morrer. 

Um céu e um deus. 

Mas, mais do que tudo, gostava de fazer cocó de brincar.

 

***

Redondo 

Onde não há forma é redondo. O que é  redondo não tem forma;  não tem mais forma do que uma gota de chuva ou uma lágrima humana... 

E embora os órgãos que fixam o mundo sejam redondos, nunca fomos felizes com a forma redonda. Pois nela não há lugar para parar, uma vez que todos os lugares são iguais. 

Daí o desejo de quadrar alguma coisa. Fazer uma caixa. Encontrar uma proporção que seja o número de ouro.

 
 

O Outono

Houve um homem que apanhou duas folhas e entrou em casa com elas na mão dizendo aos pais que era uma árvore.

Eles responderam então vai para o pátio e não cresças na sala de estar porque as raízes podem dar cabo da alcatifa.

Ele disse estava a brincar não sou nada uma árvore e deixou cair as folhas.

Mas os pais disseram olha é outono.

Russell Edson 

Russell Edson, 1935-2014, conhecido como o “godfather of the prose poem in America”, foi um escritor norte-americano, contista e cultor do poema em prosa.

Francisco José Craveiro de Carvalho  (Portugal). Licenciou-se em Matemática na Universidade de Coimbra. Doutorou-se, mais tarde, com uma tese em Topologia e  Geometria, sob a supervisão de  Stewart Alexander Robertson, Southampton University, U. K.. Assume uma posição de alguma marginalidade em relação à divulgação daquilo que escreve. Traduziu poemas de Carl Sandburg, Jane Hirshfield, Jennifer Clement, Linda Pastan, Rita Dove..., publicados em opúsculos discretos, que circularam entre  os seus amigos.

 
 

 

 

 




 



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