Francisco José
Craveiro de Carvalho

Isto para isso e outros poemas, de Ron Padgett
Trad. de Craveiro de Carvalho

Isto para isso 

Que vou comer ao pequeno almoço?

Quem me dera umas ameixas

como as do poema de Williams.

Ele pediu desculpa à mulher

por comê-las

mas o que não fez

foi pedir desculpa àqueles

que viriam a ler o poema

e que também as não puderam comer.

É por isso que gosto do poema

quando não tenho fome.

Agora mesmo não gosto dele

nem do seu poema. Isto é  apenas

para dizer isso.

 

À procura de pechinchas 

                                   para Tessie

 

Imagina que descobriste uma pechincha tão inacreditável

que ficaste ali parado estupefacto por momentos

incapaz de acreditar que aquela coisa pudesse estar

à venda por um preço tão baixo: é o que acontece

ao nascermos, e à medida que os anos passam

o preço sobe sobe até que, próximo do final

da vida, é tão alto que ficamos  ali

aturdidos para sempre.

 

O agrafador 

Quando a minha mãe morreu

deixou pouca coisa: roupas velhas,

mobiliário modesto, pratos, alguns

trocos e  foi praticamente tudo.

Exceptuando o agrafador. Encontrei-o

numa gaveta atulhada com contas antigas

e extractos bancários.  Notei logo

a facilidade com que penetrava

resmas de papel, sem deixar marca

na palma da mão.

Funcionava tão bem que o trouxe para casa

com uma caixa de agrafos, da qual

só faltavam alguns dos 5000

iniciais.  A habilidade está em lembrar

como recarregá-lo – leva alguns minutos

a descobrir de cada vez, mas eu insisto até

Pronto, já está! A minha mãe está envolvida

algures nisto tudo e a pairar

como uma neblina tão fina que não se vê,

uma aragem, o contrário do agrafador. 

 
 
Ron Padgett mostra a capa do livro com o seu
 retrato pintado por Fairfield Porter (em baixo)
 
 

Variações Goldberg 

Ao ouvir Glenn Gould falar

hoje na rádio – a voz distante no tempo –

soube que não importava quão excêntrico quão

difícil quão intratável pudesse ter sido

soube que acreditaria no que tinha para dizer

e acreditei, tão bem estruturadas eram

as suas frases, e precisas as suas palavras,

e por um momento

lamentei não o ter conhecido embora

não ache que pudesse ter estado toda a noite

com ele ao telefone mas quem sabe

talvez estivesse, sobretudo quando

era suficientemente jovem para me matar por causa da arte .

 
 
 

Ars Prosetica 

A romancista estava a escrever um capítulo de um romance

E a ter dificuldade em descrever uma rapariga haitiana.

Decidiu “atirar a toalha”*.

A rapariga haitiana apanhou a toalha

E enrolou-a à volta do corpo.

Mas estava na hora do seu banho!

Pegou na toalha e devolveu-a

À romancista, que há muito se levantara

Da sua cadeira e deixara a sala, de modo

Que o resultado final foi uma toalha amarela,

Amarrotada e desarrumada na cadeira.

 

* Throw in the towell, que significa dar-se por vencido(a), é uma expressão que vem do Boxe. Quando um lutador está a ser massacrado, o treinador lança uma toalha para o ringue, indicando que o combate acabou.

 
 

O poeta como um pássaro imortal 

Um segundo atrás o bater do meu coração desapareceu

e pensei, “Seria uma altura má

para ter um ataque de coração e morrer, no

meio de um poema”, depois a ideia

de que nunca ninguém de que alguma vez ouvi falar

morreu a meio da escrita de um poema

confortou-me, como os pássaros que nunca morrem a voar.

Acho.

Ron Padgett, 1942, poeta americano, mas também ficcionista, ensaísta e tradutor, pertencente à chamada New York School.

Aos 17 anos foi co-fundador da revista The White Dove Review que, surpreendentemente, viria a publicar Kerouac, Ginsberg e outros.

Grande amigo do artista e escritor Joe Brainard, publicaria, após a sua morte, Joe: a Memoir of Joe Brainard.

Em 2013 ganhou o Los Angeles Times Book Prize (Poetry) pelos seus Collected Poems.

Francisco José Craveiro de Carvalho  (Portugal). Licenciou-se em Matemática na Universidade de Coimbra. Doutorou-se, mais tarde, com uma tese em Topologia e  Geometria, sob a supervisão de  Stewart Alexander Robertson, Southampton University, U. K.. Assume uma posição de alguma marginalidade em relação à divulgação daquilo que escreve. Traduziu poemas de Carl Sandburg, Jane Hirshfield, Jennifer Clement, Linda Pastan, Rita Dove..., publicados em opúsculos discretos, que circularam entre  os seus amigos.

 
 

 

 

 




 



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