::::::::::::::::::::Érico Veríssimo:::
NO CENTENÁRIO DE ÉRICO VERÍSSIMO
ANTOLOGIA

Incidente em Antares

Olhai os Lírios do Campo

O TEMPO E O VENTO:
Continente
O Retrato
O Arquipélago

O Arquipélago

Floriano entrou em casa depois da meia-noite, quando já haviam cessado nas ruas os ruídos das comemorações, e a noite se preparava para ser madrugada. No silêncio do casarão só ouviu o tique-taque do relógio de pêndulo e, vindo do andar superior, o surdo bater da cadeira de balanço de Maria Valéria.

"O Sobrado está vivo" - pensou, sorrindo. Entrou na sala de visitas, acendeu uma das lâmpadas menores e ficou por algum tempo a olhar afetuosamente o retrato de corpo inteiro do pai. Depois subiu para a água-furtada. Acendeu a luz, fechou a porta e olhou em torno, como que já a despedir-se daquele ambiente. Na véspera havia feito várias tentativas para iniciar o romance. Para ele o mais difícil fora sempre começar, escrever o primeiro parágrafo. O papel já estava na máquina, mas ainda completamente em branco.

Tirou o casaco, aproximou-se da janela, sentou-se no peitoril e ali se deixou ficar, como a pedir o conselho da noite. Viu o cata-vento da torre da igreja, nitidamente recortado contra o céu, e pensou nas muitas histórias que ouvira, desde menino, sobre a Revolução de 93. Uma havia segundo a qual, durante o cerco do Sobrado pelos federalistas, na noite de São João de 1895, o Liroca tinha ficado atocaiado na torre da igreja, pronto a atirar no primeiro republicano que saísse do casarão para buscar água ao poço. Por que não começar o romance com essa cena e nessa noite?

Sentou-se à máquina, ficou por alguns segundos a olhar para o papel, como que hipnotizado, e depois escreveu dum jato: Era uma noite fria de lua cheia. As estrelas cintilavam sobre a cidade de Santa Fé, que de tão quieta e deserta parecia um cemitério abandonado.

 

 




 



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