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José A. Ferrer Benimeli
O MITO DO MARQUÊS DE POMBAL
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JOSÉ EDUARDO FRANCO & ANNABELA RITA
O mito do Marquês de Pombal:
A Mitificação do Ministro de D. José I pela Maçonaria

Lisboa, Prefácio, 2004

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Há pouco mais de um ano, José Eduardo Franco e Christine Vogel descreviam-nos com precisão e mestria a génese, difusão e impacto de Os Monita Secreta ou Instruções Secretas dos Jesuítas, que tinha como subtítulo História de um Manual Conspiracionista (Lisboa, 2002). Ali estabeleciam criticamente a trajectória editorial de um livro que teve uma influência decisiva nas polémicas antijesuíticas internacionais que vão do século XVII até aos nossos dias. Na altura, foi um livro que serviu aos autores para nos introduzir com mão hábil no pensamento e técnica conspiracionista.

Hoje, o mesmo autor com a colaboração, desta vez, da professora Annabela Rita, serve-se de uma personagem igualmente polémica, para desentranhar a construção e a manipulação do mito que, em volta do Marquês de Pombal, construiu, em especial, a maçonaria portuguesa do séc. XIX por ocasião do primeiro centenário da sua morte. Em ambas as obras há um denominador comum: o antijesuitismo visceral e obsessivo de uma época, hoje já bastante, apesar de não totalmente, superado.

A imaginação algo obsessiva de alguns mações portugueses do período liberal, na sua luta contra o "jesuitismo", serviu-se da figura do Marquês de Pombal, da mesma forma que em Espanha o fizeram com o Conde de Aranda, em Nápoles, com Tanicci e em França, embora menos, com Choiseul. Nos quatro casos, tentou-se sem êxito, fazer destes respectivos protagonistas mações a posteriori - e inclusive Grão-Mestres -, apenas pela sua participação na expulsão dos Jesuítas um século antes. Esta vinculação - mais fictícia do que real - só se conseguiu fazer pela ignorância da transformação histórica do século XVIII, tanto maçónico como profano, e da transposição ideológico-política, muito habitual em certa literatura panfletária maçónica e antimaçónica de Oitocentos.

No entanto, à exaltação do mito heróico e histórico do Marquês de Pombal (o mesmo poderíamos dizer de Aranda, Choiseul ou Tanicci) subjaz outro mito subsidiário, tão falso como o anterior: o mito do "complot" jesuítico, em que José Eduardo Franco é um excelente especialista. Mito que renasceu e deu frutos rapidamente no contexto dos movimentos liberais e livre-pensadores de inspiração maçónica do séc. XIX. Porém, o mais paradigmático - como sublinham os autores - é a paradoxal adopção e exaltação de um déspota ilustrado convertido em paladino da liberdade por uma instituição promotora dos valores democráticos, como era ou queria ser a maçonaria da época. O protagonismo de Pombal na expulsão dos Padres da Companhia de Jesus era suficiente timbre de glória, tanto mais que a maçonaria quis apropriar-se também desse protagonismo. Desde então, não há historiador que se preze que reconheça o menor valor à acção directa ou indirecta da maçonaria do século das Luzes na expulsão dos Jesuítas, apesar de muitos mações anticlericais e antimações clericais terem usado uma mesma bandeira para justificar posições e fanatismos de sinal contrário. Da mesma forma que também não tem consistência, nesta lógica da mitomania conspiracionista, a suposta infiltração dos jesuítas na maçonaria para a manipularem e destruírem por dentro, como, no entanto, alguns continuam a pensar.

Por outro lado, como assinala José Eduardo Franco, na exaltação oitocentista de Pombal, assistimos a um processo de projecção anacrónica da figura idealizada de Pombal a quem se atribuem ideias e princípios de acção que lhe eram muito alheios - como a tolerância religiosa e a liberdade social -, mas que, um século depois, estariam muito difundidos na Europa, especialmente nas lojas maçónicas da chamada área latina.

A virulência e agressividade dominantes no discurso antijesuítico nas comemorações centenárias do marquês de Pombal são confrontadas pelos autores com a frieza e serenidade que caracteriza a mera exposição de uns feitos e ditos, por seu turno, muito bem documentados. E a conclusão evidente é que a imagem mítica e centenária de Pombal está desenraizada do seu contexto histórico, sendo projectada como um modelo precursor das lutas e ideologias liberais, em que a questão do "jesuitismo" adquiriu um protagonismo essencial. E assim chegamos ao que os autores designam pela dupla mitificação em que se implicam mutuamente o mito humano de Pombal feito precisamente à custa da mitificação negativa dos Jesuítas. Como assinala certeiramente José Eduardo Franco, o grande paradoxo do liberalismo e do próprio ideário da maçonaria radica no facto de terem adoptado como patrono e inspirador dos seus ideais de liberdade um ministro absolutista e anti-liberal. Ou, se se preferir - como observa a professora Annabela Rita, utilizando o perfil que de Pombal faz Camilo Castelo Branco -, a visão liberal e supostamente maçónica de Pombal, como paladino das ideologias socio-políticas mais avançadas do presente, fica brutalmente desmitificada por essa outra imagem do "déspota" Pombal "mestre do terror, da tirania e da opressão".

Este aspecto, especialmente polémico, é evidenciado pela professora Annabela Rita na segunda parte da obra, em que analisa a recente obra de Castelo Branco como ponto de partida para uma desconstrução sistemática da vida e méritos atribuídos a Pombal, para concluir com a apresentação de exemplos cuja dureza e realismo nos põem em contacto com a psicopatologia pombalina, que, no fundo, e nas palavras de Annabela Rita é o reflexo de "uma controvérsia emocional e emocionada entre uma nação, e o seu imaginário".

Em síntese, estamos perante um livro polémico e corajoso que analisa e desentranha a formação de um mito a que subjazem muitos outros, que hoje se podem abordar com um respeito e serenidade difíceis ou impossíveis no séc. XIX, face ao que então se disse e escreveu. Um livro que vem enriquecer a já rica bibliografia crítica que se começou a produzir em torno da figura de Pombal por ocasião do bicentenário da sua morte e daquele magno Congresso Internacional, "Pombal revisitado", coordenado por Maria Helena Carvalho dos Santos, e em que tive o privilégio de poder participar e aproximar-me da rica personalidade, sempre sugestiva e sedutora, de um Pombal que paradoxalmente se quis ver e enaltecer só através de uma das suas faces, precisamente a mais controversa e negativa à luz da História.

José A. Ferrer Benimeli
Universidade de Saragoça
Director do Centro de Estudos Históricos da Maçonaria Espanhola

 

   

 

 

 


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