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.JOSÉ EDUARDO FRANCO
O CRISTIANISMO E O PROGRESSO
A Resposta de D. António da Costa a Antero de Quental
 
Conclusões
 

Encetar o diálogo e a fundamentação teórica da relação intrínseca entre o cristianismo e o progresso era uma necessidade urgente e justa que se imponha no controverso século XIX. De facto, era injusta e incipiente a acusação que importantes sectores da cultura oitocentista faziam ao cristianismo de ser o símbolo do antiprogresso. A mensagem evangélica tinha lançado as bases para que a humanidade beneficiasse paulatinamente de um efectivo progresso aos mais diversos níveis da existência humana.

D. António da Costa foi um dos mais empenhados teorizadores de uma relação processual de causa-efeito entre o cristianismo e o progresso. Ele elaborou uma espécie de tratado com profundidade teológica e beleza literária no desenvolvimento das matéria em questão. Conforme acentua D. Manuel Clemente, "para ele, o Cristianismo é a maior afirmação da liberdade, da igualdade e da fraternidade. E num tempo em que todos o entendiam assim, ou por serem cristãos autoritários, ou por serem liberais incrédulos, dedicou um livro à demonstração do seu credo de Evangelho e liberdade: O Cristianismo e o progresso" (1). A religião fundada por Cristo era a raiz de um novo mundo fundado na fraternidade universal, ecuménica e inter-rácica. No fundo, António da Costa operou a justa valorização cristã da aspiração do seu século à liberdade.

A obra deste que foi o primeiro ministro da educação em Portugal, reflecte bem o melhor da reflexão do movimento católico português em dramática querela com a sociedade liberal. Na sua intervenção escrita, este autor revela a consciência cada vez mais patente dos católicos acerca da necessidade de ser de outro modo e de se relacionar de maneira diferente com a sociedade, com os novos dinamismos ideológicos e as novas formas de organização política e social. Ele contribuiu para a teorização de um novo paradigma pastoral que então emergia, uma paradigma dinâmico, de acção que se coadunasse com a ideia de progresso. Um paradigma de transformação social e cultural que levasse ao seio do século os valores do Evangelho.

Os liberais acreditavam piamente no cientismo reinante e a sociedade dita católica esforçava-se por manter a fidelidade aos valores tradicionais da sociedade de cristandade. O progresso surgia, no pensar de muitos católicos, como uma ameaça a estes valores que se queriam invioláveis. D. António da Costa soube quebrar este receio de ir ao encontro do progresso, de reconhecê-lo nas suas vantagens e facetas positivas, assim como teve a sabedoria de criticá-lo nos seus aspectos menos bons, reivindicando a importância do contributo do cristianismo para a assunção desta noção na cultura ocidental. Ele foi um exemplo de um verdadeiro crente que, de forma inteligente e crítica, não teve medo de efectuar o diálogo entre a fé e as realidades novas que a humanidade experimentava na sua caminhada histórica.

Este foi um dos mais valiosos contributos de D. António da Costa para as gerações vindouras. Por tudo isto, ele foi mais do que um intelectual bem pensante, foi um profeta do Vaticano II e da chamada teorização dos sinais do tempos e da valorização das realidades temporais ou terrestres.

 
(1) Manuel Clemente, "D. António da Costa e a trilogia da Revolução Francesa", in Igreja e Sociedade Portuguesa do Liberalismo à República, Lisboa, 2002, pp. 285-290.
   

 

 

 


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