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.JOSÉ EDUARDO FRANCO
O CRISTIANISMO E O PROGRESSO
A Resposta de D. António da Costa a Antero de Quental
 
Compatibilidade entre o Cristianismo e o Progresso
 

Em 1868, D. António da Costa publica O Cristianismo e o Progresso no rescaldo da polémica em torno do Syllabus. Nesta obra, o nosso autor procura demonstrar apologeticamente e, ao mesmo tempo, com um assinalável requinte literário, que o cristianismo representou para a humanidade um extraordinário progresso - o maior progresso da sua história, ao contrário do que defendia Antero de Quental:

"Debaixo de dois aspectos, o homem e sociedade, pretendemos mostrar que o cristianismo foi um imenso progresso. Homem, mulher, criança, família, escravo, pobre, infeliz, criminoso, instituições sociais, receberam dele influência directa." (1)

Se colocarmos em paralelo a Defesa da Carta Encíclica de Pio IX e o Cristianismo e o Progresso , podemos observar facilmente que D. António da Costa rebate subtilmente a tese de Antero de Quental que incompatibilizava o Cristianismo com a possibilidade de evolução da humanidade. É típico, aliás, do século XIX assistir à edição de obras de refutação, ou seja, quando alguém escrevia contra a Igreja logo depois surgia algum católico a contra-argumentar e vice-versa. É preciso termos presente que estamos numa época em que o confronto e a apologia dominam o debate intelectual e social.

D. António da Costa era um escritor católico que se inseria neste contexto de grande debate ideológico. Todavia, no Cristianismo e o Progresso não aponta ninguém em particular como adversário, pelo menos directamente, mas empreende a redacção de uma espécie de tratado apologético de filosofia, teologia e de história para fundamentar o quanto a mensagem de Cristo contribuiu para o progresso da humanidade.

Cinco anos mais tarde, D. António da Costa volta a publicar outro livro intitulado Três Mundos, onde reitera novamente a sua tese de que a civilização cristã foi aquela em que a humanidade registou uma evolução autêntica de carácter totalizante. Neste livro, divide a história da humanidade em três grandes civilizações: a romana, a bárbara e a cristã. Apresenta demoradamente as características de cada uma delas e mostra que na civilização cristã o homem foi efectivamente respeitado, promovido e valorizado pelos valores da liberdade, da fraternidade e da igualdade, informados pela justiça: "O Cristianismo operou uma grande mudança na humanidade, contribuindo para o aperfeiçoamento decisivo dos mundos antigos: o Cristianismo aparecia como a grande revolução em nome da natureza mandando respeitar os poderes instituídos, atacava com a sua doutrina todas as instituições, todas as injustiças, para afirmar o direito justo... " (2)

É interessante notar que esta obra sai a lume depois das famosas Conferências do Casino , onde Antero de Quental e outros escritores e pensadores de Portugal voltaram à carga, dizendo que o cristianismo na sua versão católica era sinal inequívoco de regressão, responsável pelo atraso económico e social do nosso país. É provável que D. António tenha voltado escrever para provar precisamente o contrário e agora com um volume de história e de clareza de argumentos digno de mérito.

Nos outros escritos do nosso autor, sentimos palpitar a sua grande admiração pelo progresso da humanidade e pela promoção de valores positivos que ele acarreta. António da Costa deixa transparecer esse desejo intenso de reconciliação e de perfeita harmonia que, como cristão, entende decisivo manter com o progresso. Não obstante, na sua óptica este progresso só contribuirá para o bem da humanidade se se mantiver fiel aos valores cristãos que constituem a sua base.

 
 

(1) D. António da Costa, O Cristianismo e o Progresso, Porto , 1908, p. 147. Para efeito de citação seguimos esta edição, que foi uma das muitas que se fizeram desta obra ao longo do século XX e primeiras décadas do século XX. A última edição que se conhece desta obra foi feita em Lisboa em 1936.

(2) Idem, Três Mundos, Lisboa, 1873, p. 248.

   

 

 

 


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