Cecília Barreira

Cecília Barreira é actualmente professora de Cultura Contemporânea na Universidade Nova de Lisboa. Pertence ao CHAM, onde é investigadora de periódicos. Pertence aos grupos de pesquisa AMONET e IRENNE, sobre questões de género. Licenciada em História, com Doutoramento e Agregação em Estudos Portugueses, interessa-se particularmente pela História das Mentalidades.

 Ricardo Marques, Bucólica, Não Edições, 2014

Toda  a poesia é um acto de sobrevivência  e a poesia de Ricardo Marques  exemplifica este questionamento do ser.

 Poesia filosófica, argumentando, sem clichés, a existência, as margens, o dito e o não dito,  fulgura  aqui o esplendor  da existência, desde o deslumbramento pela natureza, à extravagância  da exploração   do corpo, seja de um auto-corpo, seja de um alter/corpo.

A morte é outra das temáticas abordadas, sem  adjetivações ou  pendores místicos.

Toda a filosofia abrange as dilemáticas do ser, do sendo, do estando e da finitude.

Por vezes,  em Ricardo Marques,existe o apelo a um outro: e esse apelo é forte, é  Eros, é profundamente táctil.

Mas a sobrevivência de Eros é como a passagem das estações: do esplendor da primavera, à decadência  do outono.

A natureza envolve todos os actos humanos. Daí o título Bucólica.

Ricardo Marques é uma voz: não precisa  de arrastar influências deste ou daquele nome.  O que se pretende aqui dizer é que o autor possui voz própria…

E a memória, essa profundeza de todos os saberes, de todas as lembranças, de todo um apocalipse que nos marca a existência? Poderia o homem viver sem memória? Que feliz seria..

Em Bucólica faz-se apelo a um Amor que é, todo ele, a paixão não conseguida.

E não será isso mesmo, o Amor , a outra margem do desejo, aquela que nos escapa, na sua fugacidade, na sua interiorização de todas as entropias?

O que já não espanta, a quem vai lendo Ricardo Marques, é um pendor classicisante  d a sua obra: é natural.  O autor mora sobretudo nos terrenos de estranheza de um Mestre Maior da nossa Poesia: o grande  Nuno Júdice.

Mas, como eu já o disse, sempre com Voz própria.

Quando na página 26 nos refere esse corpo desafiante e erótico, organizamos uma situação de grandes paradoxos: a língua, a lágrima, o corpo adormecido porque o sonho manda: mais uma vez a memória, esse factor desestabilizante  de qualquer ser. A memória traz-nos o sorriso, traz-nos a morte, traz-nos os inícios e os fins.

Contrariamente à poesia vulcânica de Al Berto, encontramos em Ricardo Marques uma harmonia   que é em muito uma pseudo harmonia; um equilíbrio que está sempre a resvalar para um desequilíbrio.

E isso capta a nossa vontade de sorver esta poesia e a percepcionarmos:  após  e dentro  de cada harmonia, bucólica que seja, há um universo  de caos , de algo que se não revisita, de uma dor, também ela, clássica e não luxuriante.

Bucólica, enfim , preenche algumas das questões que mais nos emocionam e nos retiram daquelas pantufas mentais em que  nós vivemos:  a existência, nem que não seja de uma flor é a própria designação de uma não existência.

Esta complexidade da morte e da vida , este labirinto que não sabemos o que é  , nem que porta  salvífica o trava, é  ,afinal, a vida.

Eros, thanatos, a memória de algo tão vivo que nos faz doer, é a tónica de milenares narrativas  que preenchem o nosso imaginário. Desde Tristão e Isolda  a Shakespeare  que sabemos da finitude, daquele fim que não sabemos como contrariar.

Ricardo Marques não nos transpõe poesias de tristezas e contrariedades: pelo contrário, fiel ao pendor clássico, remete-nos  para a   volatibilidade de um Druída, encantatório, doido, pleno de vida

 Mas após, vem o corpo, essa visibilidade estranha  que não controlamos, esse  caos que nunca nos preenche na plenitude.

Há muito tempo que acompanho a poesia de Ricardo Marques. Estava sempre a espicaçá-lo para uma publicação. Agora sim, desde que está em Londres, Ricardo explode em força com as suas narrativas poéticas, muito próprias, em ascensão de beleza e  encantamento.

Aliás, falar do Ricardo é quase falar de um filho, que fui acompanhando anos a fio, na invisibilidade que os locais de trabalho nos permitem .

E hoje vejo no Ricardo, o Poeta , o Crítico Literário, e o ensaísta. E de certeza será este caminho que trilhará a vida.

Um outro aspecto: não é fácil questionar os grandes actos e exposições da Natureza, com este classicismo lindissimo. Mas sabemos dos seus mestres. Sabemos das interioridades que foi acumulando, nesta sua imensa juventude, mas já de sábio.

Se encontramos a Voz Maior de Nuno Júdice nas entrelinhas, reencontramos também um Ricardo Marques preenchendo vozes  que se dizem, se reencontram, se transmitem, se entre- abrem , se interligam, se refugiam num  imaginário rico e denso.

 

                                                                                Cecília Barreira/ FCSH/UNL

 

 

 

 


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