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CECÍLIA BARREIRA
(UNL)
ALMADA NEGREIROS E A "REVISTA PORTUGUESA" (3)
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III. O Além-Pirinéus: O Interregno entre Guerras
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O exterior. O mundo visto por uma Revista de Crítica. Para a Revista Portuguesa o espaço europeu não é um território pacificado, a coberto de invasões e deslocações de tipo bélico. O panorama, com alguma perspicácia descrito por Augusto da Costa, é o de uma Europa no interregno entre guerras. Interregno porque seria visível aos observadores minimamente atentos assinalarem o crescimento da indústria da guerra na Alemanha e a possibilidade de um novo conflito deflagrar.

Mundo inseguro, como tal. Palco de desordens, instabilidade, inquietação. No burburinho das vozes que clamavam, impotentes, perante os avanços e recuos das potências em presença, Portugal não se identificava com o paraíso. Os acontecimentos em Itália eram seguidos palpitantemente, bem como os da União Soviética: «tragédia russa», «estupenda convulsão».

Noção de imperialismos: não já de nações individualizadas, mas de grandes blocos geo-estratégicos e económicos. Noção moderna de política: política que é analisada na confluência de vectores múltiplos (ver, Correia Marques). O chamado imperialismo yankee , o dos «trusts» e dos «dollars», perspectiva-se como um entre outros: o alemão, o «moscovita» e o inglês. Muito importante se revela a opinião de Correia Marques na denúncia da política externa inglesa face a Portugal:

«A Europa latina bateu-se heroicamente, sacrificando a flor, da sua mocidade nos campos varridos pela metralha. O resultado do seu sacrifício foi, porém, tal, que parece ter-se batido apenas para que a Grã-Bretanha conserve muito seguras na sua mão as portas do Mare Nostrum, o formoso mar latino, e para que pudesse montar um posto de sentinela em Galipoli, à entrada do Mar Negro...» (1).

Para além da geo-estratégica e das movimentações de blocos políticos a visão do exterior é particularmente impressiva se atentarmos nas crónicas, saborosas e pitorescas, de Diogo de Macedo.

Eram as crónicas de Paris que, trespassadas de humor, por vezes se revelavam cáusticas e intransigentemente francófobas:

«Paris da Arte!... Mostruário geral do Grand Magasin du Monde ... Manicómio colossal de génios, ladrões e mulheres... Grande feira de ciganos, de cavalos e de saloios...» (2).

Ainda um outro trecho:

«A França, a revolucionária de 93, a que se bateu ontem em defesa da pele, deu nisto: - a boa conservadora, boa conservadora! gosta da música dos cafés, adora o cinema, arrasta-se ao domingo pelos bulevares e acha delicioso o jantar a preço fixo. Em arte... gosta muito de ir ao Louvre para ver as jóias, ao Salon para rir das mirabolâncias da Picabia» (3).

Dos breves exemplos colhidos traçamos o perfil de uma imagem: o «estrangeiro» corresponderia a uma Europa, super-civilizada mas burguesamente medíocre, de um fausto esteriotipado e inútil. No caos imenso que ameaça subverter a ordenação natural das coisas - imagem de revoluções que desgastam o já periclitante equilíbrio europeu - não se adivinha uma solução apaziguadora: ao invés, prenuncia-se o desastre. A 2.ª grande guerra?

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(1) Correia Marques, «Vida Internacional/ O que é o imperialismo - Nações Imperialistas - O problema demográfico europeu» in Revista Portuguesa, 12 de Maio de 1923, p. 16.

(2) Diogo de Macedo, «Vida Artística Parisiense/ A abertura dos salons" oficiais - O que é o novo grupo de Arte - "La Jeune Peinture Française"» in Revista Portuguesa, 28 de Abril de 1923, p. 5.

(3) Idem, op. cit., p. 9.

   
   

 

 

 


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