Bruno Resende..

Descravidade

não-dramatis ex-personae: cravo agus tia; pomba gira tória; gato preto vadio; gay votta; lince de lux; raposa azul; são escritos; corva inácia; pica-pau francês; pato sinóptico; estátua da balança invertida e da espada maior que si própria; são fanicos; são tromás; transeunte, o primeiro; transeunte, o segundo; transeunte, o terceiro; transeunte, o quarto; transeunte, o quinto; peixinhos dourados; grão mestre dos sonidos e iluminuras

(Levantamento de panos.) 

cravo agus tia: Odeio as barras! Odeio o código! Odeio o plástico! (Enforca-se numa corda roxa com vite e cinco nós. Em volta dançam todos ao som da dança macabra de saint-saens.) 

(Caimento de panos.) 

pomba gira tória: Atirarei janelas pela parede! São as ansiedades nos estilhaços graníticos que reconstroem a estatuária da genética implodida. E perdidas, as hélices sacodem o vento da lua. Os pinheiros eclodidos no aborto de uma fábrica de folhas de eucalipto falham aterragens na asa do milhafre. E a chuva que deriva para as plasmoses? Chove seca. Já não crescem ervas daninhas pelas palmas dos pés. Pois era uma plateia que as batia. Mas a outra asa não voa. Nem aterra. Circulatória sem o suspenso. (É apanhada e morta por um gato preto vadio que lhe tira um papel enrolado de uma pata e o engole. Depois de beber água de uma torneira segue ao infinito sussurrando as palavras ditas pelo cravo agus tia.) 

(Levantamento de panos.) 

gay votta: Ora a suspensão nada mais é que a sublimação da hermética dos cardumes de latas de atum. As fendas na ventosidade trespassam-me de espaços em tempos que não circulam. O plano erótico interno plana. Sobre mim. 

lince de lux: Então... E onde é que os baixios se congratulam à afroditização?  

gay votta: Nas vagas após vagas. São os sítios metafísicos que não nos deixam deixar de ser. Complumadas ondas à descravidade das fronteiras. 

lince de lux: Mas... Graciosa brancura... Porque não descreves o oblíquo patafísico? 

gay votta: Pela apóstrofe. Porque as afectividades estão nas tangentes. (Executa tangente às orelhas do lince de lux e segue ao infinito.) 

raposa azul: No rumo aos caminhos felizes... Sempre. Porque o que nunca existe é uma foz. Os rios suicidam-se no mar. Riusídios! (Ri satânicamente.) 

são escritos: Ámen! Ámen! Ámen! (Despe-se e baila violentamente enquando segue ao infinito ao som da suite mascarada de khachaturian.) 

lince de lux: Então plano na areia. A pequena concha azul que me liga à espuma de afrodite é uma propriedade momentânea extrapolada pela vassoura mística. Nem a grandiosidade dos grãos lhe irrompe sombras. Um sol de costas providencia dádivas de luz grávida que também dá à luz. Azul místico sem assassinos. Um outro. 

corva inácia: Todavia repara nas cartas caídas das formigas que pairam no tecto celeste. Dali. Ora daqui profetizo a noite em alguns pedaços de tempo. Para o futuro. Sempre para o futuro. E uma lua que se pendura pelo pé. E uma roda em turbilhão que gira e gira infindavelmente. (Fuma haxixe.) 

lince de lux: É ela que gira ou o universo perante o estático redondo? 

corva inácia: Não visualizei a luz negra entre os diabos. Só se emancipam certas profecias após ocorrência. A mística mais nublada corresponde à leitura diagonal das borras de cinza. Claro está, as trajectórias por elas descritas marcam o espaço em caligrafias ondulatórias. São como os peixes que possuem um olho maior que outro. E outros ainda que possuem um olho menor que um outro.  

lince de lux: Mas... E a técnica da circunstância? 

corva inácia: Está na escolha mais provável em abstracto. Sempre para o abstracto. E nos pedaços de tempo em frente está a caveira que nos olha do passado. Expressivamente às profundezas das orbitas cosmogónicas. 

raposa azul: Mas o terceiro olho é ciclópico.  

lince de lux: Ah... A belíssima fenda craniana... 

raposa azul: Pois entre os olhos diabólicos imaculados contornados ao vermelho emerge um pico no ciclo. Ponteiros de relógio que expandem o seu tempo ao cosmos. Os outros são colapso. Dissolvem-se como o ego de vários nenhures. E eu que terei a areia da ampulheta universal a escorrer-me sem gravidade... 

pica-pau francês: Je ritmarai la pulsion de la faim du matin avec ma gueule! (Afia o bico com pedra-pomes.) 

lince de lux: Sublime! E o universo que gira à minha volta! (Rodopia no mesmo sítio até tombar entre tonturas.) 

pato sinóptico: O gravítico é um conta-gotas entupido. 

lince de lux: Sinto-me no imperceptível... 

pato sinóptico: Mas as odes marítimas rasgam os céus quando as conchas azuis desovam! Pequenas, pululam nos areais em busca do inconcrecto. Do inconcluido. Das danças intraduzíveis de marés apinhadas em sísifos. Levam as madeiras. Voltam. (Espanca o lince de lux com uma cana de açúcar até ele se verticalizar.) 

corva inácia: E novamente levam as madeiras? E novamente voltam? 

pato sinóptico: Sempre. 

corva inácia: É profético pois claro... 

lince de lux: Tal como a vistura do indicador estatuário à escuteirice. (Lambe e chupa avidamente a cana de açúcar.) 

corva inácia: E não se agudizam os timbres oxidados da violação? 

lince de lux: Também, pois tais cardumes vão e voltam de forca em riste, o saudoso que berra por uma análise mais aprofundada às entranhas do nada. 

raposa azul: E como desconstruíste? 

lince de lux: Gotejei um seio mariano à última gota e uma profecia ia-se cumprindo. Dali. Daqui. Por toda a escala do cinzento. Pois os aglomerados que deslizam na gosma acabam empalados no cajado da ordinarice. 

raposa azul: E que dizia a errata taínica? Diagonizei-a... 

lince de lux: Que extraordinárias são as fendas na paralelipipedocracia! Que nem os redondos realmente o são!  

pica-pau francês: Mais je me sentais tellement arrondis en face de l'arbre de la vie... 

lince de lux: Platão e os asteriscos. Somente. 

raposa azul: Mas... E as sementes? 

lince de lux: Quais sementes? 

raposa azul: As quimeras queimadas na ardência da água! As raízes e frutos de uma afectividade que brota das irrealidades de poderem existir ostras sem rodas. Embora algumas as possuam. As estrelas que embalam as intermitências roxas mais se resplandecem após pausa dramática, inauguram por vezes o museológico sanitário de entes rupestres. 

lince de lux: Urinam-se? 

raposa azul: Não. Assim nunca alguém as urinará. É necessária a primordial rupestricidade da osculação em ondas friccionadas às areias. A partir dai tudo o resto o poderá então ser. 

lince de lux: Pois... Esse sol que prescinde das visturas do indicador estatuário... Tão lindo... 

raposa azul: Pois que a sublimação da alma está em todos os lugares que não sejam não-lugares. 

corva inácia: Tal como a cartificação do geológico impõe. A criação afinal. 

pato sinóptico: Soube do que se tratava quando nomeei uma criatura de conceição. Mas afinal seria o rumo do inominável. 

corva inácia: É profético pois claro... 

pato sinóptico: A cria são abortou quando os sinos tocaram em repique. 

corva inácia: E os outros? 

pato sinóptico: Aproveitaram a vibração para a diarreia do divino. Então volta-se à aquática consciência, tentando transpor a barreira linguística com os sísifos. Quase impenetrável. 

lince de lux: A linguística é o renovar neológico. Penetra o terreno fértil e brade frutos feitos sumo. As intermitências são salivas aguardando o limão. É a beleza da dispersão em conjunto. Uma epistemologia em contínua lavra da terra. (Desenterra um limão, tira os caroços e engole-os. Troveja.) 

corva inácia: Cuidado! Pressinto a pausa dos tempos! 

lince de lux: Estou inocente! (Enterra os restos do limão.) 

corva inácia: A galinácea está em impasses... (Pausa.) 

(Caimento de panos e de relógios avariados com horas diferentes.) 

estátua da balança invertida e da espada maior que si própria: Coc... Coc... Coc... (Cacareja intermitentemente ao som do amanhecer de also sprach zarathustra de richard strauss.) 

(Levantamento de panos.) 

pato sinóptico: As artes masturbatórias derivam ao tédio! São a desregulação externa dos fusos horários. Ejacular pela boca! Isso sim. É o núncio da mística semiótica intermediária entre objectos e percepções. Através do fluido viscoso dos arbítrios livres. (Amordaça a estátua da balança invertida e da espada maior que si própria. Cospe-lhe nos olhos. Tomba-a. Leva-a seguindo ao infinito com uma faca do talho ensanguentada em riste ao som de midsummer night's dream de felix mendelssohn.) 

(Levantamento de relógios com horas diferentes.) 

raposa azul: O devir do faniquestério! (Ergue os braços.) 

são fanicos: Ámen! Ámen! Ámen! (Despe-se e baila violentamente enquando segue ao infinito ao som de rugidos de dinossauros excessivamente carnívoros.) 

corva inácia: Faniquestérios gratuitos para qualquer transeunte! Que chovam as cartas da medicina legal! (Ergue os braços perante chuva de cartas roxas.) 

lince de lux: O legado do traumatório! (Olha para cima maravilhado.) 

são tromás: Ámen! Ámen! Ámen! (Despe-se e baila violentamente executando os seguintes traumatórios ao som da rapsódia em azul de george gershwin. A raposa azul dança em cima de areia vermelha.) 

transeunte, o primeiro: Faniquestério para mim! (Salta em alegria.) 

corva inácia: (Pega numa carta arbitrariamente.) Ora... Esmagamento de testículos com um pica miolos pneumático. 

são tromás: Ámen! (Executa.) 

corva inácia: (Outra.) Hum... Arrancamento de mamilos à dentada por uma dentadura postiça que acabou de comer caldo verde. 

são tromás: Ámen! (Executa.) 

corva inácia: (Outra.) Sublime! Empalamento com ferro em brasa! 

são tromás: Ámen! (Executa.) 

transeunte, o primeiro: Ui. (Morre.) 

corva inácia: Seguinte! 

transeunte, o segundo: Faniquestério para mim! (Salta em alegria.)

corva inácia: (Outra.) Ena... Baldada de água com pétalas de rosas e posterior electrocução. 

são tromás: Ámen! (Execução.) 

transeunte, o segundo: Ui. (Morre.) 

corva inácia: Seguinte! 

transeunte, o terceiro: Faniquestério para mim! (Salta em alegria.) 

corva inácia: (Outra.) Fenomenal! Esfolamento com um pedaço de vidro acabado de partir de um vitral eclesiástico. 

pica-pau francês: S'il vous plaît. Il a été dardé par moi récement et il est diablement aiguisé. Je n´ai fais qu'une fois, le rasage avec elle et je me suis presque castré. (Dá o pedaço de vidro colorido ao são tromás.) 

são tromás: Ámen! (Execução.) 

corva inácia: (Outra.) Básico... Ácido sulfúrico pela cabeça abaixo... 

são tromás: Ámen! (Execução.) 

transeunte, o terceiro: Ui. (Morre.) 

corva inácia: Seguinte! 

transeunte, o quarto: Faniquestério para mim! (Salta em alegria.) 

corva inácia: (Outra.) Ah... Levar com um piano na cabeça! 

são tromás: Ámen! (Pausa.) Como assim? 

corva inácia: Piano na cabeça. 

são tromás: Poderá ser cabeça no piano? 

corva inácia: Pois claro. Meras perspectivas. 

são tromás: Ámen! (Execução.) 

transeunte, o quarto: Ui. (Morre.) 

corva inácia: Seguinte! 

transeunte, o quinto: Faniquestério para mim! (Salta em alegria.) 

corva inácia: (Outra.) Genial... Afogamento em urina de sapos... 

são tromás: Ámen! (Pausa.) Ora... E a urina dos sapos? 

lince de lux: Colecta. 

são tromás: E onde? 

raposa azul: Silêncio! Ouço o coaxamento sinestésico... 

são tromás: De onde? 

raposa azul: Dali! 

são tromás: De além? 

raposa azul: Não. De além! 

lince de lux: Dali? 

corva inácia: Daqui? (Confere a secura das roupas interiores.) 

raposa azul: Claro que não! De além! 

são tromás: Ah! Agora sim! Sinto-lhes a urina nas entranhas! Ámen! Ámen! Ámen! (Agarra no transeunte, o quinto, e segue ao infinito.) 

corva inácia: (Outra.) E a minha profecia... Ah... Belo! Afogamento em ribeirinho ladeado por laranjeiras traumatorizadas... Evoé! Evoé! Evoé! (Salta em alegria enquanto segue ao infinito.) 

(Caimento de panos.) 

peixinhos dourados: Trincar! Trincar! Sorver a libido pelo caroço! Afiar os dentes na casca raspada! Trespassar palhas até aos fios de sumo! Penetrar a virilidade! (Comem laranjas enquanto dançam ao som da gobbledigook de sigur rós.) 

(Levantamento de panos.) 

raposa azul: E agora, finalmente... Podemos comer o pica-pau? (Dirige-se ao pica-pau francês com uma espada de fogo.)  

lince de lux: Belíssimo! (Prepara temperos dentro de uma panela de barro. Mexe a poção com uma colher de pau partida.) 

raposa azul: Evoé! Evoé! Evoé! (Correndo atrás do pica-pau francês.)

pica-pau francês: Merdre! Merdre! Merdre! (Fugindo.) 

(Caimento de panos.) 

grão mestre dos sonidos e iluminuras: As iluminações espontâneas são os aglomerados sibilantes que rumam às livrações. Mapeiam-se nas pontas dos dedos. Os archotes encaixilhados revestem-se aos horizontes fendidos. Ondulantes. Extravasam da panificação medieval ao som dos guizos. Descidas que nunca sobem Para a luz. Sempre para a luz. (Pausa.) Luz aqui. Luz ali. Luz acolá. Dali. E agora daqui. De além. (Acende velas e incensos entre os transeuntes. Ouvem-se sussurros e gemidos ao som da tashweesh pelo kronus quartet.)

Bruno Resende. Escritor, webdesigner, designer gráfico, DJ, fotógrafo, performer. Chamado Bruno Miguel Resende, nasce a 1 de Março de 1981, no Porto, Portugal, Universo. Inspirado pela evolução e revolução inspira a mesma, formando-se e informando-se sobre si próprio nas áreas de hedonismo, anarquismo, ateologia, revivalismo arcaico, surrealismo, e outras potências de existência que se adequam a cada momento de cada contexto. Lança em 2007 o livro “Subterfúgios” pela Corpos Editora, em 2009 “Khaos Poeticum” pela Temas Originais e em 2010 “Esquilia Divinorum” pelas “Edições Extrapolar”. Participou em diversas antologias literárias das editoras Andross, CBJE, Editora de Leon, Celeiro de Escritores, Nova Coletânea e Lugar da Palavra em títulos como o “Livro Negro dos Vampiros” e “Noctâmbulos”. Nas artes gráficas concebeu as galerias Revolta das Palavras, Abysmo Humano e Transmorphosys. É colaborador da revista Infernus incluindo-se também na Incomunidade e Associação Extrapolar entre outros escritos, artes, acções e reacções.

 

 

 

 




 



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