Branca Maria de Paula

Porcos

            Ficamos vigiando o homem. E era difícil vigiar o homem.

            Ficamos vigiando os porcos. E era difícil vigiar os porcos, que tentavam romper nosso frágil bloqueio.

            Ficamos vigiando a estrada. E era difícil vigiar a estrada, com os carros que apareciam e desapareciam num piscar de olhos na curva fechada.

            Tínhamos de cuidar para que o homem não dormisse.

            Tínhamos de cuidar para que os porcos, sedentos e famintos, não bebessem o sangue que ainda minava, empapando a roupa em frangalhos e o capim ralo. Cuidar para que não fuçassem as tripas do motorista, que escapavam da barriga e se derramavam para fora de forma grotesca, num arremedo de cena, ensaio ou simulacro.

            Os porcos. Que revirassem a terra macerada, os destroços, os pedaços soltos ao redor. Mas que mantivessem a devida distância.

            Alguns deles morreram logo. Outros, agonizantes, grunhiam alto e exasperavam  o resto da manada. Mas o homem, este raramente gemia. E era um ai dolorido, longe, como um queixume que errasse entre as moitas rasteiras e não soubéssemos de onde vinha.

            Mantinha os olhos vazios de imagens e nenhuma lembrança por eles passava, creio. A  cabeça pendia frouxa, como se ele fosse mais um crucificado.

            Jazia prensado na lataria, metade dentro, metade fora.

            De vez em quando parecia que ia pegar no sono e se dormisse era morte certa, então tínhamos de forçá-lo a falar. Ele arfava, engasgava e vomitava frases que recompúnhamos e devolvíamos a ele: não era de hoje que cortava essas estradas, estradas assassinas, ah, o que já tinha visto, parecia que tinha nascido em boléia de caminhão, até estranhava a cama quando chegava em casa; ia com o ajudante, sim senhor, conversando, bom rapaz...

            (E do corpo do ajudante só se via um tufo de cabelo emplastrado.)

            ...iam entregar a carga e voltar no dia seguinte; sabia não o que tinha acontecido; foi como um cavalo brabo que desembesta de repente, curva enganosa aquela, das pior.

            Temos de ficar de olho na estrada, senão o socorro passa direto. Periga a ambulância não dar fé da carcaça do caminhão, lá no buraco.

            Temos de vigiar o sol, para que a noite não se abata de chofre sobre nós.

            Nossos braços, exaustos de segurar as varas e tocar os bichos, pendem frouxos.

            Os olhos do homem se fecham e uma espuma escura escorre agora pelo canto da boca.  Os porcos fazem um ruído estranho, como se estivessem revoltados com a sorte dos companheiros, sei lá se choram, quase uivam, e fuçam, irados, os corpos espalhados ao redor.

            Um cheiro de merda vai crescendo na tarde e se misturando à brisa fresca.

            Os porcos vão apertando o cerco.

            Temos de vigiar a noite. E mais não podemos fazer.

do livro Segunda Pele - inédito

Branca Maria de Paula, escritora, fotógrafa e roteirista. Nasceu em Aimorés, Minas Gerais, Brasil. Tem 16 livros publicados. Entre eles, Fundo Infinito, contos eróticos, lançado na Itália em 2007. Participa da antologia Intimidades (Dez Contos Eróticos de Escritoras Portuguesas e Brasileiras). É autora do roteiro Amor Barroco, ficção longa-metragem. Recebeu vários prêmios literários. Vive em Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil.

www.paginadacultura.com.br

 

 

 

 




 



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