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ANA PELUSO
Igreja - fé ou poder?

Se o(s) próximo(s) papa(s) não primar(em) pela religião (religare = religação) em favor da política, a tendência é que a Igreja Católica se dissolva com o tempo. O ser humano já tem várias bases de não sustentação de políticas sociais adequadas que realmente abranjam o contingente de necessidades humanas, para suportar mais uma, e ainda por cima, com esse peso histórico. É inacreditável que em pleno 2005, a igreja ainda não tenha definido seu real papel frente à sociedade, e insista em manter o poder político como foco central de sua reflexão e ação nessa mesma sociedade. Paradoxalmente, esse fato torna-se interessante, pois as religiões orientais crescem dia após dia, justamente pela negação do poder do ponto de vista material. Parece que só a igreja não entendeu as palavras do Cristo e ainda opera na contramão da história de seu maior ícone.

Emburrecer as pessoas daqui para frente será tarefa árdua diante das tecnologias que se propagam amplamente, para o benefício de muitos. Então a médio, longo prazo, a importância da igreja diminuirá, principalmente pelos polos opostos de interesses. O ser humano busca cada vez mais a paz e a serenidade. Ele busca inconscientemente uma igreja que dê sustentação ao seu modo crístico (ou ainda místico) de pensar e sentir, e não uma igreja que centralize o poder material, como acontece (desde sempre).

Se dentro da própria igreja, a ética não é cumprida a rigor (se fosse, não haveriam inimigos dentro do clero); se não há uma unificação de interesses como acontece em outras religiões, principalmente as de cunho espiritualista farto, torna-se impossível exigir dos fiéis a prática dessa mesma ética, que por si mesma, já constitui um paradoxo. A igreja trabalha suas idéias de forma a reduzir o "próximo" a um mero aliado de interesses. Se deitarmos esse exemplo em uma pauta humanista, o paradoxo já está constituído por si mesmo, dentro das quadrantes nada ortodoxas às quais se refere o próprio evangelho, principalmente por ser traduzido de um idioma quase metafórico, que dá possibilidades a muitas interpretações.

Em tempo algum a igreja seguiu o exemplo deixado por seu mentor, Jesus Cristo. Em tempo algum ela realmente abriu mão de interesses políticos para finalmente se render ao maior mistério que já conhecemos, que é o mistério do amor: a vida (e, à vida). O que houve foi uma grande manipulação de interesses, logo em seguida à fundação da "Santa Madre", que misturados à história romana, e por motivos políticos da época, passou a agir com - senão os mesmos - semelhantes objetivos de agregação de fiéis em função do crescimento de uma forma de pensar que teima em suster o ser humano num tempo já expirado.

O porquê da divisão dos evangelhos entre canônicos e apócrifos, por exemplo, é algo que só a cúria deve saber os reais motivos e intenções, mas se o leigo se debruçar sobre as diferenças entre ambos os evangelhos, notará rapidamente que a igreja não fez outra coisa senão deturpar as palavras de Cristo em função dos interesses de manipulação das massas. Aí, não há sociedade, nem instituição que resista. Porque não há inverdade que não se enfraqueça quando as respostas se tornam escassas.

Uma pessoa pode não entender porque simpatizou com essa ou aquela religião oriental, por exemplo, mas ao aprofundar-se no estudo das religiões de todos os tempos, notará que são elas - as religiões ditas orientais - as que mais se aproximam do conforto espiritual buscado e nunca encontrado na igreja católica, e diga-se de passagem: em nenhuma das igrejas que se segmentaram nas mesmas bases.

Enquanto do outro lado do mundo, o Dalai-Lama, pede ao ocidente que "NÃO, não se torne budista", vimos acontecer justamente o oposto. Se ninguém parou para pensar nisso, a resposta é simples: onde existe coerência, existe um chamado intrínseco. Como crianças, geralmente rumamos nossos pensamentos para aquilo que não é obrigatório, que não nos julga conforme nossa percepção imediata dos fatos, mas que antes nos aceita como errantes em busca de acertos, diga-se (nunca) de passagem, totalmente pessoais; e que principalmente aguardam nossa maturação no encontro com nós mesmos, e por conseqüência, com nossa "divindade".

Se um organismo reage a um medicamento de forma diferente de outro organismo, apenas uma religião que entenda que cada ser humano é diferente do outro, também na forma da fé e exortação dela, será um religião vitoriosa. E cabe dizer aqui que a vitória não é contada pelo número de fiéis, nem pelo poder que se concentra em mãos diante de um mundo politica e socialmente esfacelado. Mesmo porque sabemos - principalmente se tratando do Brasil - que se é católico durante o dia, e "filho de santo" à noite, sem o menor constrangimento. Mesmo porque não há motivos. O ser se busca. E se busca de todas as formas. São suas tentativas por direito, e são todas válidas, desde que isso não fira seu próximo de forma alguma.

Dentro de uma concepção de religação, a pergunta que fica é: o que querem afinal as igrejas? O reencontro do ser consigo mesmo, e por consequência com seu "eu divino", posto que "somos centelhas do Deus todo poderoso", ou uma "ligação quase obrigatória" e dogmática de cada um com os interesses do poder vigente, seja ele oriundo de cúrias, cátedras ou escritórios do poder?

O que fere a razão e o senso humanista é notar que as igrejas (principalmente a católica) ainda não se deram conta que nosso inimigo comum não é satanás, muito menos pontos de vista políticos e religiosos diferentes, mas o desconhecimento de nós mesmos, enquanto efeito de uma divindade desconhecida (tal e qual). E aí entra um grande ponto filosófico em questão que deveria ser considerado fundamental para qualquer instituição que se predisponha a "religar o humano a deus", que é o fato de um ser humano ser um complexo em si mesmo, e que apesar das semelhanças, difere de outro ser humano enquanto - também - outro complexo. Semelhante, porém outro.

E só conhecendo profundamente a si mesmo, o ser humano é capaz de se amar. E só amando plenamente, é capaz de ver o próximo - talvez não exatamente como a si mesmo, mas como a um próximo, fato que já poderia ser considerado vitorioso frente ao caos que se instalou no mundo todo. Esse deveria ser o fundamento primeiro da igreja: ajudar o ser humano conhecer a si mesmo e a se religar com seu interior, com suas verdades internas.

Não se exterioriza aquilo que não está anteriormente interiorizado.

E geralmente pessoas em paz não deflagram guerras, não atentam contra o estado, não usurpam, não se corrompem, nem ao seu próximo. Mas a paz interior não é, nunca foi, nem será patrimônio de uma instituição religiosa, porque se hoje o fiel aceita um preposto, amanhã poderá mudar radicalmente de opinião de acordo com seu interesse íntimo, seu bem estar pessoal. E parece que a igreja se esquece que o ser humano raciocina sua fé: consulta seu id, ego e superego. Apenas para se certificar que encontrou um bem estar que apenas ele pode dar a si mesmo.

Se descobre isso, torna-se ateu frente aos olhos da igreja. Se isso não acontece torna-se perdido perante si mesmo.

No fundo, "contemplamos" um deus que nos tutela, aos nossos direitos e às nossas vontades.

E é dessa forma que o "povo de Israel" jamais foi livre, como supôs Jesus, seria, ao se deixar martirizar em nome da salvação de seus irmãos. Ele, o homem simples, de vestes simples, de princípios sábios, que jamais - em tempo algum - se submeteria a interesses políticos para fazer valer suas palavras (dizem as escrituras), morreu por nós. Não morreu pelo poder, nem pelos conclaves, muito menos por ações de uma igreja que hoje mal se sustenta frente aos avanços científicos e tecnológicos, mas que apenas paira como ícone da fé materializada em rituais - ainda que bonitos aos olhos de muitos - inúteis às ações mais básicas, não apenas à sobrevivência humana (quando nega ao ser humano o direito do uso de preservativos, p e.), mas ao bem estar comum, quando (também) nega aos seus discípulos o direito do livre pensamento em favor da sobrevivência de seu apostolado (vide Teologia da Libertação) cuja base ficou restrita a interesses perdidos nos tempos, e que de tanto repetir-se, se tornou o padrão de comportamento mundial. O poder como base, meio e fim.

E o poder que vinha desse homem que se chamava Jesus, e que foi o grande mentor dessa mesma igreja, era apenas a fé.

E se ela ainda não remove nossas montanhas, já abalou nossas poeiras, quando paramos para considerar as palavras de Cristo em ação e notamos que não acontecem de forma plena.

Pelo menos não dentro da igreja que Ele - sem querer - ajudou a fundar.

 

 




 



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