ADELTO GONÇALVES
Os verdes anos de Érico Veríssimo

Parte I

Parte II

Parte III

Parte IV

Parte V

Parte VI

Bibliografia

Parte III

Em Caminhos Cruzados, Veríssimo traça 120 instantâneos de cinco dias - de sábado à quarta-feira - da vida de vários personagens: desde uma jovem pragmática e seu namorado sonhador até a prostituta meiga e a senhora que imagina ver suas obras assistenciais nas páginas dos jornais. Uma cidade inteira aparece nas páginas de um livro em que as vidas se interpenetram e as histórias se completam.

O livro pouco tem da doutrina revolucionária que caracterizaria o realismo socialista, que levaria ao sucesso Jorge Amado, por exemplo, mas, mesmo assim, depois de sua publicação, o autor foi acusado de "comunista", o que denuncia sua insuspeita intenção política. No prefácio que escreveu em 1964, o autor o considerou Caminhos Cruzados "um livro de protesto que marca a inconformidade do romancista ante as desigualdades, injustiças e absurdos da sociedade burguesa", a uma época em que a grande noite do terror descia sobre a Nação brasileira mais uma vez com a volta dos militares ao poder.

Nesse romance, Veríssimo, ao mesmo tempo, ergue um extenso painel das várias camadas que compunham a sociedade brasileira à época da ditadura de Getúlio Vargas (1930-1945), que subiu ao poder no bojo da chamada Revolução de 30, que de revolução pouco teve porque o que se viu não foi uma ruptura do sistema político, mas apenas a substituição de uma burguesia reacionária, porém mais cosmopolita, a paulista que havia enriquecido com a exportação de café e arruinando-se com o crack da Bolsa de Nova York de 1929, por outra mais atrasada ainda, que, valendo-se da anarquia que dominava as fileiras do Exército, chegou ao poder e acabou por estender para o cenário nacional ações típicas do banditismo de fronteira.

É bem provável que, a esse tempo, o jovem Érico Veríssimo estivesse influenciado pela propaganda da elite sul-riograndense que via no movimento a hora do revanchismo gaúcho, que nunca tivera a oportunidade de chegar ao posto máximo do poder, embora o senador Pinheiro Machado (1851-1915) tivesse ocupado, a partir de 1910, grandes espaços na Primeira República (1889-1930) até a sua morte violenta. Essa propaganda foi tão intensa que nem mesmo comunistas e socialistas do Sul conseguiram passar imunes aos seus efeitos, assumindo-se sempre primeiro como gaúchos e, depois, como revolucionários.

Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage - o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br
 
 

 




 



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