WILSON COELHO
EM BUSCA DO VERBO PERDIDO

Ele havia nascido entre um pacto compacto divino e a necessidade mundana do orgasmalheio da mulher do próximo mais próximo. A irmãzinha Morgana que a tudo assistia comia biscoito e pedia bis na hora do coito delírio da mãe gemebunda, enquanto o pai guerreguerreava nos campos de lírio...

- Abra, Kadabra! – vociferava o magro mago por detrás de uma longa capa e de vareta em punho.

- Abra que o fruto do futuro é meu. Quem não gozou, que gozasse, porque não goza mais.

Ainda sem pernas pra que te quero, o danadinho já alcançava a estrada em colo de nômades oraqui, orali, oraculá e, no oráculum, não havia um deus porque eram muitos, esto puesto, cada um para cada ociasião na velha mínima de um lugar para cada coisa e cada coisa para seu lugar, mesmo que não estejamos falando de coisas que hoje – na filosofia – chamamos objectum, apesar das traduções que um amigo da razão burra costuma chamar de traições que as edições não são de ouro e não estamos falando em grego, entenderam? Ou melhor, me expliquei?

Ah! se eu ainda não disse o nome do personagem do qual rastrearemos nesta aventurazinha, de agora em diante, fica registrado que não direi mesmo porque je ne suis pás seu nome porque não precisa de nome o que está vivo em cada vivo que é filho da puta angústia e tem uma puta cruz ou puta fardo para levar nas costas de algum lugar a não sei para onde. Assim caminha a humana idade e mesmo adoles-c-ente continua aborrecentemente manidado à criança e cruciculpado adulto, sabes como?

Faltava quelque chose, talvez o cálice em que Cristo habia bebebabado seu vinho sem gelo nas última e penúltima ceias. Bem, mudemos de assunto quindé cedo pra dize dessas coisas. Faz-se necessário complicar um bocadinho más.

Como eu dizia, ele não era ninguém para ser tudo e por isso busquiprocurava afoito o caminho do ócio contemplativo de ver o sol nascer dentre as pernas do amanhecer para morrer em nome da noite que anunciava a vinda doutro apesar de tudo todos os dias. Enfim, uma lengalenga dignamente digna da punhetética e masturbatória mitolorgia. Pagam-pagam! Pagam-pagam! Gemegemiam os trilhos por sob as pesadas e redondinhas ruedas Del tren-de-la-muerte, estuprando a paisagem do pântano-anal ou do caminho inevitável para quem vivia a procura de alguma coisa. Note bem que a “coisa”, neste caso, independentemente da tradução seria melhor chamada de objeto, pois facilitaria a identificação, considerando que a mesma poderia ter peso, tamanho, forma, cor e, obviamente, já teria sido vista por alguém com alguém. Mas... eu dizia do caminho inevitável para quem vivia a procura de alguma coisa e este era o caso de nosso personagem. Ele enfrentou muitas batalhas e, na maioria delas, fora derrotado, embora jamais tenha perdido aquela coragem e aquele brio que somente aos fortes é possível contar. Sem pai nem mãe e, como dizia aquele rapazinho cantante, também sem lenço e sem documento, transitou vales e montanhas desafiando os dragões da sua necessidade de se afirmar na negação de si mesmo, para não dizer que eu não falei dos predicados... brincava com fogo.

- Quem é você? – pergunta ao transeunte que perpassa a nuvem de indagações de sua floresta alheia.

- Eu sou aquele que designa um ser ou um objeto, uma ação, uma qualidade. – responde o homem pequeno e de sorriso irônico ou – para ser mais preciso – tinha na cara um estampado sorriso de mula.

Necessitava de um complemento, considerando que nem só de substantivo vive o homem. Depois de uma briga de rua, arrumou uma encrenca apaixonando-se pela linda e gostosa Guinevère, mais conhecida como la “Belle du Jour”. Bem, agora parece que aquilo a que procurava se aproxima, ou seja, encontra os adjetivos, principalmente, depois que la “Belle du Jour” conhece aquele rapazinho do lago, o tal Lancelote que botou a lanceta na mão da moça na hora do lance no lote do grão-vizinho.

Tarde demais e já me escapa pela boca o nome do desgraçado: Artus. Qualquer semelhança com o Arthur gaulês, céltico e britônico amigo de Merlin, é plágio mesmo. E, por falar no mágico, profeta e amante da fodida fada Viviana, Merlin ou o celticamente correto Myrsdin foi o grande responsável pela loucura de Artus nesta buscada e incomensurável busca do verbo, aliás, virou moda na época, exceto, para os políticos cornorruptos, considerando que desde aqueles remotos tempos eles gostavam muito e correm mesmo é atrás de uma verba.

- Você viu um verbinho por aí? – perguntava alguém desesperado.

- Olha o verbo! Vendo por 1,99! – grita numa esquina qualquer um camelot recém-chegado daquele país donde la hoja de coca no es droga porque hace mucho frío en la puente de la amistad.

Primeiro a Távola, mas – por ela ser redonda e não ter chegado a lugar nenhum – mais tarde veio a mística demando do Santo Graal. No grau do christian-ismo.

Tudo isso acontecendo e Lancelote lançando a lança nas sinuosas tardes de la Belle du Jour, enquanto o solitário Artus fazia justiça com as próprias mãos, ou seja, masturbava a erecta excalibur. O pano de fundo da história é o mesmo, c’est a dire, uma ideiazinha de justa justiça em virtude da falta de justiça transformada em tragédia porque o povo está triste, não come, não bebe, não fode e nem sai de cima. Mudou um pouco, é claro, na época não tinha ministro da fazenda e real não tinha nada a ver com essa conversa fiada de estabilidade da moeda. Real era coisa de king-rei (animal exótico) que a palavra não volta atrás.

Voltando a celtofonia, já era tempo de pagar o paro e alguém tinha que fazer alguma coisa naquela casa de Mãe-Joana, sem querer desmerecer as Madonas, é claro. Claro. Escuro. Claro-escuro. Claroscuro.

- Eu sei que de graal em graal o misticismo enche o saco, mas alguém tem que fazer alguma coisa, porra! – implora no rendevu o Rei Déjà-Vu.

- Rei Artus! Por favor, deixa-me fazer a tal coisa...

- Quem és tu, fedelho?

- Eu sou Parsifallus, o cavaleiro lendário do ciclo do seu xará, o rei Arthur. Venho da Pérsia e iluminado pelo mestre Zorô encontrei o verbo, pois a visão de Ahura-Mazda, Senhor da Sabedoria, me deu a missão de...

- Cala essa boca! – interrompe o rei. – Siga em frente e não me apareça mais aqui sem essa porra de verbo!

Enquanto Artus procura o verbo perdido, do outro lado da montanha, entre as costelas do dragão, Guinevère – depois da vara – faz duas orações: uma pedindo perdão pelo pau do próximo e, outra, agradecendo por ter atingido o clímax. Lancelote vive o pesadelo do amor metido e gozado. Merlin ensaia algumas mágicas para se adaptar à modernidade. Morgana, a fada dos romances medievais também do ciclo bretão e mais conhecida – não sei porque – Dama dos Lagos, prepara armadilhas para o bastardo irmão Artus. Para quem não se lembra, Morgana é aquela menininha que comia biscoito na hora do coito da mãe que pensava que a bichinha estivesse morgando o terceiro sono naquela noite N. Encheram a cara e, entre umas e outras, conversa vai, conversa vem, sabe como é, acabou trazendo no ventre a semente plantada pelo próprio irmão para dar luz a um filho que deverá herdar o trono destronando o próprio pai. Mas, mesmo que na casa do senhor haja muitas moradas, Artusinho quer morar sozinho com sua velha mãe Morgana que viu tudo desde o princípio, isto é, a gênese da tragédia, desde o gozo da mãe nos braços do outro que se passou por seu pai.

O pior mesmo ficou para o persistente persa Parsifallus porque para encontrar o verbo era preciso perder as armaduras, aliás, também a camisa, a calça e a cueca, pois somente os pelados enxergam o verbo e, é claro, se souberem nadar. Os outros se preocupam mais com os adjetivos, advérbios, pronomes e outras coisas que – mesmo importantes – nada significam sem este processo de caráter dinâmico com o qual expressam o que se passa com os seres ou em torno dos seres e, até mesmo, com os não-seres.

O pior mesmo ficou para o persistente persa Parcifallus porque para encotrar o verbo era preciso perder a própria carne.

Bem, o persistente e perseguido persa Parcifallus conseguiu mesmo ver o tal verbo. Quanto ao resto, nenhuma novidade ou algo que o valha. Nem sei se podemos chamar de um imprevisto. Merlin foi pras picas, ou seja, depois de chamuscado, foi engolido pelo dragão e se aposentou porque se a varinha não sobe não há mágica que resista. Morgana morreu mais enrugada que pele de saco de múmia, depois de uma briga de foice com o seu mago mestre Merlin. Lancelote abriu uma escolinha particular de equitação e filiou-se a uma entidade de Ordem de Cavalaria. Guinevère se arrumou com Jesus Cristo dentro de um convento com vento adentro. Artus e Artusinho, respectivamente pai e filho, cara de um focinho do outro e, inclusive, ambos filhos da puta, morreram de umbigos colados ao mesmo tempo em que cada um trazia o peito enfiado na espada do outro. Uns fanáticos!

Muito interessante! É pena que vocês não viram!

Parsifallus quis dar uma de taumaturgo, mas era tarde demais para pensar que

era tarde demais. Teve de atirar a ex-calibur de volta ao lago e ficou ali, na margem,

pensando no verbo que mesmo ao preço de tantas vidas e tantas conjugações já não

servia para nada naquela historinha sem presente, passado ou futuro. Chegou a

conclusão de que o verbo tinha um valor em si mesmo, como um exercício de verborréia

e, o seu poder, não passava de uma mera dificuldade de encontrá-lo.

E assim caminha James Dean:

- Encontrar o verbo para saber que ele não serve pra porra nenhuma!

AS MARGENS DO RIO

... e, na velocidade da correnteza, tudo por água abaixo, desde a nascente, como se não bastasse o veneno gerado nas pedras imóveis sob os seus pés aparentemente firmes. Pensava que a fé que remove montanhas não passava de artifício para camuflar uma hipocrisia gerada de imundícies e vilezas tais que o maior dos incrédulos seria incapaz de cometer.

- Não temos a quem pedir perdão! – sentenciava diante das águas que passavam entre as

margens imóveis e indiferentes.

Num lapso de tempo, desce uma balsa repleta de seres e não-seres ao caminho

predestinado das águas. Entre os seres e os que pensavam ser movimentavam-se pernas e órgãos encardidos de sorrisos e declarações de amor. Sinceras como o ódio.

- Monstros amestrados! Depósitos de espermas! Onde querem chegar? Ao paraíso? – gritava como se fizesse um discurso para o outro lado da margem onde havia um monturo empapuçado de pessoas, num primeiro momento, visivelmente sensíveis e, de certa forma, inocentes.

Por não ter conseguido caminhar sobre as águas, depois de inúmeras tentativas, toma o caminho das pedras até a margem oposta. Estava diante de um novo quadro de molduras tão intransponíveis quanto o fim do Arco-Iris. Deveria haver alguma maneira menos extravagante do que a de mudar de sexo para se chegar ao pote-de-ouro.

Saca de um estilete e abre uma brecha na tela diante de si, onde um grande pórtico surge luminoso e anunciando a grotesca situação.

- De onde vens? – interrogou um sentinela.

- Venho do outro lado da margem. – responde o mal humorado em questão.

- Estás enganado, senhor. Este é o outro lado da margem e, neste espaço, que é um outro,

haverá muitas chances para todos, mas apenas uma para cada coisa e, considerando o leque aberto de alternativas para que se possa errar, não se deve cometer o mesmo erro duas vezes porque da segunda vez o senhor será outro e o erro não será o mesmo, ou seja, a mesma merda. – retruca um clochard que descansa aos pés do pórtico.

A tela agora é um quadro vivo e, ao mesmo tempo, pintado de amor e reproduzido no erótico suor de pais e filhas, maridos e mulheres e – nas horas de descuido – a cunhadinha ou a sobrinha que ninguém é de ferro e os peitinhos e a vontade de amar amando no mundo das representações da volúpia socializada e a realização privatizada.

E já que todos nascem pelados perante as leis, qualquer aglutinação onde se podia imaginar um passo para a organização da grande parcela explorada e fodida de uma sociedade dividida em Carandirus e Itains-Bibis não acontece algo melhor que a manifestação rebelde por parte dos que valem o peso da burrice ( que me perdoem os solípedes eqüídeos). Daí brotam líderes por todos os galhos que para se manterem na árvore plantaram sementes de reproduzir liderados.

- Vai uma piriquita? – grita um camelo (ô) diante de sua mercadoria com validade vencida de vacas magras.

As bandeiras levantadas com gritos de guerra se emudecem e são transformadas em tapete onde, num total descontrole, se faz leilão de órgãos sexuais. Não se sabe mais o que fazer e sequer o que enfiar onde e tal, conforme a confusão de uma cabeça cheirando a mofo no delírio das drogas. Que droga! Se escapar desta, numa mais! Never more!, como já dizia o Pó, aliás, o Poe.

- Sim, eu juro! Não tenho nada contra as drogas, mas tudo contra os drogados que transitam a vida extasiados apenas por descobrir o barato da geografia de uma pocilga. Sim, o amor é uma droga! – confessava um jovem ajoelhado diante de um padre recém-formado, dançando uma aeróbica do Senhor e empunhando uma chibata.

O personagem sem nome, coitado, aquele com quem iniciei o texto, caminha um pouco assustado dentre a barafunda deste lado de margem porque lhe disseram que no princípio era o caos. Parecia mentira, mas agora tudo se confirmou: é mentira mesmo e qualquer verossimilhança é plágio mesmo.

- Machismo? – esperneia um transeunte. – sim, como as próprias. Exigem cavalheirismo, mas me recuso deliberadamente alimentar esta dependência. Sejamos todos educados, então. E então? Se homem ou mulher, viado e outros bichos, porque é o ecossistema e estamos mortos da mesma forma e o caminho da ressurreição é feito de pedras. Temos que carrega-las – as pedras, é claro – , explodi-las, e não há tempo para proteger ninguém em especial.

Ele sabia que não há proteção e somente quem pode segue em frente que atrás vem gente e quem não pode deve morrer sem ser fantasma parasitando a cruz. Mesmo assim, estava bem melhor agora, exceto as dores de cabeça, coluna, músculos e uma sensação de que ia vomitar a qualquer instante. Não era isso o que queria e tinha feito o impossível para merecer vida melhor, mas não a inventou e para tanto seria necessário que a humanidade pudesse comer-lhe os frutos. Pudor? Não, ele não os tinha e, diga-se de passagem, chegava a considerar o titio Marquês de Sade infantil. É dizer que não tolerava o moralismo que é a marca legítima de todo promíscuo.

- Vamos limpar essa zona! Matemos todos os Laios e os lacaios! Comamos todas as Jocastas e as jocosas! – desabafa nosso personagem, no fundo, um tremendo porra-louca.

Mas ele – além de não conhecer o nascimento da tragédia dos trágicos gregos – também não tinha lido Freud e não conseguia se punir. Onde já se viu usar alfinetes para furar os próprios olhos? Desculpe-me, caro leitor, mas eu sou assim mesmo, “as vezes, acabo me metendo na vida dos personagens e emitindo juízos de valores... Não posso é deixar que os personagens façam o mesmo comigo. Bem, voltando à zona, aliás, à vaca fria, o nosso personagem confessa que quando encontra mulheres grávidas em elevadores, filas de ônibus ou caixas de supermercados, tem de se conter para não esmurrar essas barrigas cheias de monstrinhos horríveis.

- Os fetos já se nutrem do ódio que a mãe lhe escorre pelo cordão umbilical. – explicava le personnage.

Ainda não é tudo, mas – no fundo no fundo – quando os monstrinhos já nascidos dormiam no colo de suas mães, ele sentia a vontade mais terrível de arrancar-lhe os olhinhos e enforcá-los bem antes que fossem capazes de serem inimigos da vida. Desejava acabar com estes antes que pudessem ser inimigos dos outros que pensam em melhores possibilidades e condições de trafegar neste planeta aguado de mares e lágrimas em torno da solidificada merdilha.

A vida? Avidamente. A vida mente. Claro, a gozava entre uma recaída e outra, experimentando a necessidade de mandar à puta-que-o-pariu aquilo que já era tarde demais para acreditar naquele que crê e dita: pecado originário. Mas cristão como os cristãos não abre mão de sua grande e sórdida estratégia: o perdão. Melhor assim, já que pedir perdão é muito fácil, principalmente, porque se abrem novas possibilidades para fazer tudo de novo, em nome de deus. Índios, negros, palestinos e pobres da geral em geral, coloquem a bunda na parede que ai vem chumbo grosso! O Vaticano pediu perdão. Cuidem-se vietcongs! Os Estados Unidos da América e a cocô-cola pedem perdão ao Vietnã. Quem pede perdão em nome de deus já se sente perdoado, consentido pelo silêncio da resposta. Lágrimas de crocodilo fingindo o arrependimento o perdão substitui a responsabilidade de reparar o erro, devolver o que foi roubado, dividir e prometer um “never more”, pois a lógica da violência nada significa perto da idéia de nunca mais atuar com a violência da lógica cartesiana e irritantemente cristã. Cogito ergo sun. Penso que sou perdoado, logo, insisto, porque sem culpa deus não existe. E se pudesse existir não haveria por que senão como uma ficção.

Sim, o nosso personagem não morreu afogado e talvez transite impunemente entre as quatro paredes de alguma universidade, lecionando a comodidade e tentando diplomar o espírito dos loucos ou – quem sabe – esteja a fazer planos nos corredores dos palácios governamentais, parindo leis e brincando de representar os que ficaram às margens do rio, como meros espectadores condenados definitivamente à marginalidade.

 
Wilson Coelho é dramaturgo, escritor, graduado em Filosofia e Mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal do Espírito Santo
 

 

 




 



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