Vítor Oliveira Jorge

Electri-Cidade - Index

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para depois do frio, para o frio que realmente há-de vir

 

Não compareceste.

 

Em três raios de luz te pedi.

Em três arcos levantados te pedi.

Em três reflexos te pedi.

Em três janelas rasgadas te pedi.

Em três incisões feitas na pele te pedi.

 

Em três aves puras que te expedi.

 

Em três cadeiras te sentei.

Em três cadeiras te alinhei.

Em três hinos, em três palcos,

Te celebrei.

E mesmo assim

 

Não compareceste.

 

Em três microfones te ouvi.

Em três órgãos te toquei.

Em três violinos te convoquei.

Em três estofos o meu corpo

Te aguardou, depois de ter arrancado

O meu coração do peito

E de ficar com ele a sangrar

Na mão levantada.

 

Três pedaços de estuque

Caíram do céu

Antes que soassem os três toques

Que anunciavam o começo

Do meu desfalecimento.

 

E não compareceste.

 

Mas a sala iluminou-se toda

Da tua ausência.

Uma, duas, três vezes.

 

Laudamus te.

Adoramus te.

Glorificamus te.

 

Na tua gloriosa ausência

Te saúdo, anjo desnudo

Da anunciação.

 

Até já como mulher te aguardei.

Até já como criança te aguardei.

Até já como servo te aguardei.

Até já como o animal do sacrifício te esperei.

 

E mesmo assim

Não compareceste.

 

Oh tu que trazes numa mão

A palma, o lírio,

E na outra o punhal da traição

 

Mesmo os meus lábios mortos,

Frios

Para a toda a eternidade te esperarão.

 

Manda entrar os músicos.

Quero acabar ao fim do dia

Rodeado de uma orquestra

De mil violinos, de mil vozes,

 

Acende cada um dos meus dedos;

Quero senti-los a derreterem-se

Como velas

 

Celebrando a tua suprema ausência

A traição da tua ausência no próprio momento

 

Em que mais uma vez

Não compareceste.

 

No chão liso me rojei

E fui arrastado pelo meu próprio sangue

Por vagas de sangue

Que desceram das três cadeiras

 

Que para ti

Há tantos anos

Amorosamente postei.

 

Apartado da segunda pessoa

Tentei os três acordes

Agarrei-me à corda sublime

Que devia ter retirado.

 

E segurando a minha culpa

Sobre o soalho, quando entraram as tubas,

Coincidindo com o fim do texto

 

Confundi-me com a luz

Dos três reflexos.

Concluído e inconcluso.

 

Frio.

Frio.

Frio. Tão frio.

TriploV, 1.11.2008

Conjunto de 10 poemas para o livro
ELECTRI-CIDADE
(a publicar em 2009)

Vítor Oliveira Jorge. Nasceu em Lisboa em Janeiro de 1948.
Formou-se em História na Faculdade de Letras daquela cidade em 1972.
Desde Setembro de 1974 é docente da Faculdade de Letras do Porto, onde se doutorou em 1982.
Poeta, arquéologo, ensaísta, dirigente associativo, tem tido uma actividade diversificada.
 

 

 

 




 



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