Vítor Oliveira Jorge

Electri-Cidade - Index

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a força das horas

 

as manhãs às vezes começam ao contrário, como se fossem noites atrasadas.

a cama é então um lugar de conforto e de martírio, confundidos no mesmo corpo,

na mesma penumbra.

há um desalinho no passado e no futuro.

e no presente as pernas cruzam-se sem se encontrarem.

os lençóis suam.

um peso cai das roupas estendidas,

dos dias anteriores,

da opacidade das janelas,

onde

não se roçam pombas,

nem abrem candeeiros.

 

apenas fragmentos se erguem acima do colchão

à procura.

 

mas o dia também por vezes limpa,

faz brilhar as roupas interiores,

o seu négligé,

à medida que vai crescendo.

 

algo vem para a frente.

há uma nitidez

mesmo por detrás das telas.

e as próprias sombras

são promessas, travejamentos

do que vem aí.  

TriploV, 1.11.2008

Conjunto de 10 poemas para o livro
ELECTRI-CIDADE
(a publicar em 2009)

Vítor Oliveira Jorge. Nasceu em Lisboa em Janeiro de 1948.
Formou-se em História na Faculdade de Letras daquela cidade em 1972.
Desde Setembro de 1974 é docente da Faculdade de Letras do Porto, onde se doutorou em 1982.
Poeta, arquéologo, ensaísta, dirigente associativo, tem tido uma actividade diversificada.
 

 

 

 




 



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