Vítor Oliveira Jorge

Electri-Cidade - Index

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a não ser que

 

assisto às tuas metamorfoses

ao teu ballet

sempre com o mesmo espanto

e indecisão.

 

arabescos, que quereis de mim?

que pássaros clamam

por detrás das paredes

de onde me olhas,

 

que florestas, que desertos,

nascem do lado de lá

e se transmutam

constantemente?

 

há alguma fresta onde eu possa

introduzir a faca,

alguma pele de escamas

que eu possa amanhar,

 

para ver o que se esconde

debaixo deste cântico,

desta dança interminável?

 

passos hesitantes de nudez.

que está por dizer?

 

os teus pés. as tuas mãos.

que há por fazer?

 

que horizontes se podem abrir aqui,

que espaços para o meu corpo

avançar,

 

e te enterrar fundo a arma branca,

sim, o gesto único possível

capaz de parar esta música interminável

que vem de detrás das paredes,

 

este cântico incansável.

 

estamos talvez em damasco,

e um conjunto de sufis chamam

para a oração,

 

enquanto tu,

oh impúdica,

chamas para a partilha dos frutos

já tão saboreados e sempre,

sempre

 

capazes de me deixar aqui

sem saber o que fazer

a não ser aproximar-me

dos teus odores e sabores,

levantar-te as pernas bem alto

 

e como um bicho lamber-te

empurrado por essa terceira figura

que está sempre por detrás

das paredes, e não sei

se é um palmeiral,

se nele

frutificam as tâmaras,

 

ou se aí pousam os lacraus negros

que de noite nos cobrem

e embebedem no seu veneno

fatal.

 

paralisia, eis o que a tua proximidade

me traz, na sua litania de arabesco,

de ventre clamando à oração

da língua, do sexo, puxando-me

para dentro,

 

talvez para renascer do lado de lá

da parede, não sei se no céu

se no inferno.

 

maldita sejas, hei-de matar-te a frio,

depois de me entregar total

e incondicionalmente

à tua hábil sucção,

oh libidinosa,

 

sensual entre todas as mulheres,

ungida dos óleos que te saem

de todos os orifícios,

esticada para a frente da loucura,

 

como corrente de água

em que o corpo mergulha e

num prazer de fonte

se liquefaz totalmente,

ardendo em febre,

escorrendo pelo suor da tua

epiderme interior.

 

e sempre este apelo do cântico

em background,

chamando os fiéis,

 

deve ser em damasco,

deves ser uma dançarina

deve ser o teu ventre, oh portadora

do prazer sem limites

que ergue a realidade alto

como as palmeiras

e as fazes frutificar lá em cima

em tâmaras tensas de polpa e sumo.

 

devem ser esses os teus passos

hesitantes.

oh imagem indecifrável,

presença terrível e assustadora,

 

que me deixas a meio

desta indecisão,

a maior de todas,

a do músico que tem de atirar ao chão

todas as suas vestes, e pautas, e alaúdes,

e para ti avançar como se empunhasse

(ou empunhando mesmo)

o mortífero alfanje

que julga que estás pedindo

 

- a não ser que este encontro seja

um radical mal-entendido,

que ele não seja possível.

que por detrás das paredes

não esteja nada,

apenas efeitos de um delirante

músico velho,

agarrado ao braço do seu alaúde.

TriploV, 1.11.2008

Conjunto de 10 poemas para o livro
ELECTRI-CIDADE
(a publicar em 2009)

Vítor Oliveira Jorge. Nasceu em Lisboa em Janeiro de 1948.
Formou-se em História na Faculdade de Letras daquela cidade em 1972.
Desde Setembro de 1974 é docente da Faculdade de Letras do Porto, onde se doutorou em 1982.
Poeta, arquéologo, ensaísta, dirigente associativo, tem tido uma actividade diversificada.
 

 

 

 




 



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