Tânia Mara Galli Fonseca*

Não me chamem de Taninha - Index

Fragmento MMVII 

usara aparelho para corrigir os dentes que entortavam à medida do tempo que passava. identificara que os da frente se empurravam uns aos outros, acavalando-se em uma pequena montanha bem na frente de seu sorriso. achou que precisava aplainá-los, afinal, sempre os tivera tão retos e alinhados e também porque gostava de sorrir à vontade, não misturando vergonha. precisou extrair outros dentes traseiros para abrir espaço na boca, cavidade que parecia, agora, pequena para carregar aqueles individuozinhos brancos. aprendera de sua mãe que a primeira coisa a fazer quando entrava em férias escolares era freqüentar o dentista, um senhor muito grande que tinha uma máquina barulhenta que ele pedalava enquanto roía as preturas encrustadas. devorava muitas balas de hortelã antes de entrar na sala, porque queria que seu hálito estivesse doce quando abrisse a sua boquinha. de tanta bala, já sentia,  quando sentada, a boca um pouco amortecida. um paliativo para a humilhação do exame e para a dor que pressupunha e que deveras ocorria. educou seu filho também com o mesmo senso da importância dos dentes alinhados e curados. ao viajar em um certo agosto, o navio de seu cruzeiro naufragou mas ela sobreviveu. náufraga, esfarrapada e esgotada viu-se em uma ilha deserta, só que desta vez, estando completamente só, não se sentia tão só como dantes em terra firme e condições seguras. perdera toda a sua bagagem, todos os seus. fora-se também o aparelho ortodôntico que continuava a usar pelos anos corridos enquanto dormia. seus dentes não entortavam mais com aquela pressão metálica, feito um dedinho muito fino a envolver a arcada superior.  mantinham-se em linha. em toda a miséria de sua condição, frente a tão adversas circunstâncias, pois, afinal, nunca fora competente para subir em árvores, fazer-lhes coletas, enfim, garantira sua sobrevivência com recursos de seu pensamento, percebeu que teria um árduo de trabalho de ultrapassar-se caso desejasse viver.  foi à cata de recursos e ficou feliz quando encontrou, numa entradinha escondida, um espécie de vegetação muito delicada e fina que se assemelhava ao brilhante fio metálico que contivera seus dentes por tantos anos. deu início à operação e, à noite, dormindo sob o céu que a protegia, sorria deixando ver em sua boca um entremeado de finos cipós que serviam de armadura para que não deixasse esquecida sua humanidade.

 *Professora do Instituto de Psicologia da UFRGS

 

 

 




 



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