Tânia Mara Galli Fonseca
Não me chamem de Taninha

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ninguém notou

ninguém notou.  a cidade ainda rugia através da avenida próxima. a noite apenas iniciara. na cumeeira de seu telhado, não a mais alta, pois o vento estava forte, ela olhava as estrelas e o resplandecente brilho da lua. respirava os ares daquele vento frio que não sabia e não saberá de onde viera, por quais vales atravessara, por quais canions se esgueirara, para recolher aqueles frescores gélidos e trazê-los até ela, que estava lá, plantada na cumeeira menor de seu telhado como que a pressentir o vento que poderia levá-la pela vida afora, arrastando consigo seus amores e suas dores, vento e frio suficientes para mantê-la em seus lugar ao mesmo tempo que a arrastava. ficar e sair, situar- ao mesmo tempo  dentro e fora das situações vividas, abraçá-las como  uma fita enlaça um presente, com sua borda de dentro e a outra de fora, sempre flexível e amorosa em  fazer o laço. da cumeeira, olhava a piscina um tanto morta devido ao inverno. muitas das plantas também viam  chegada a sua hora de perdas, de flores, de folhas quem sabe o quanto resistiriam? o fícus, plantado em vaso, parecia-lhe já estar morto. restava esperar a primavera para checar o quanto de vida ainda armazenava em seus caules. caso não revivesse, planejara plantar em seu lugar alfazemas que lhe lembravam os jardins e praças por onde andara, nos quais elas  florescem facilmente com toda a graça de seu perfume lilás. alfazemas também lhe evocavam lençóis limpos e casa arejada. visão romântica de um lar harmonioso e bem cuidado, no qual, os moradores apesar de seus infortúnios, ainda plantam  flores na esperança de amenizar golpes e as forças do mundo que , por acaso venham a  cair sobre suas cabeças. piscantes, as estrelas encravadas na escura abertura, pareciam avisar que era hora de retornar. afinal,  a suspensão que seu cigarro propiciara, também acabara,   e ela, de mão livres, buscava a escada por onde ascendera para descer ao seu mundo e dar boa-noite aos seus amores. no lapso da duração de um cigarro entre os lábios, ela entrevira um mundo: o vento se arrastando por entre passagens para chegar a ela e propiciar sua suspensão entre o abismo negro pontilhado e seu quintal, a chegada da primavera com seus lilases e talvez um outro modo de se fazer notar. 

Tânia Mara Galli Fonseca é professora do Instituto de Psicologia da Universidade Federal de Rio Grande do Sul (UFRGS)

 

 

 




 



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