Tânia Mara Galli Fonseca
Os dias e as noites

01/09/08

chega-nos a primeira noite de setembro deste ano de 2008. tenho medo de identificar-me com  alguma espécie de peixe, mas a inquietude que me toma conta quando a noite cai, antes do jantar e que sempre me deixa enrolada, ziguezagueante, faz-me pensar-me como um peixe em profundo mar. navegante silencioso na escuridão das águas,  qual tipo se aproximaria de meu estado de espírito: célere, concentrado, fugaz, sorrateiro, talvez sim, sutil sorrateiro! pois  me atravessam tantas coisas da manhã e da tarde passadas, de todos os verões e invernos vividos, tantas melancolias da vida vivida, tantas esperanças pelas primaveras que virão! a noite nunca será minha inimiga. seu calor-frio, sua luz-escura, sua névoa-vidente, as alturas dos telhados à espreita de muitas paisagens que do rés do chão não posso ver; na noite preciso de ar e de respirar, por isso escrevo, fragmento-me em muitas, muito diferente que sou quando estou em almoço.no almoço (que palavra tão interessante!), sou a dona da casa, a mãe de família, a patroa, a esposa que encomenda remédios e alimentos pela tele-entrega, a professora que agenda reuniões. no almoço, à luz do sol, acontece o previsível, aquilo que os papéis que desempenhamos pedem de nós. busco estar à altura. quando a noite chega, algo se faz e uma espécie animal me habita, o silêncio toma conta, os movimentos se dão em mim mesma, em meu espírito que já não sabe se quer dormir ou sonhar. à noite, há fadiga e fustigação, as coisas da casa e da família são feitas de modo econômico, o cansaço confere o  direito a uma certa solidão, a um certo desespero, à uma expectativa sem esperança. à noite, quando caminho no frescor do jardim, olho o céu e aspiro os perfumes, também desteço o tapete tecido durante o dia. mesmo não esperando ulisses, sou mais Sherazade a tecer histórias contra a vingança e o ódio, distraindo os traumas da consciência, na noite recolho orvalhos para afastar a fadiga. 

01.09.2008

há noites que nos sentimos fatigados. precisamos dormir pois nosso espírito não agüenta mais. não quer mais  saber, preferiria não saber, desejaria nunca ter sabido. precisamos  apagar a consciência e deixar-nos levar pelo sono e pelo relaxamento. mas nem sempre temos a sorte de nos vermos livres. tudo  o que vivemos à luz do sol, encontra-se ainda em nós. dura e ressoa e se estende em enigmas sonhados. quem me dera uma noite de sonhos nunca vividos.

03.09.08

sinto-me pequena diante das grandes dores. insuficiente para ajudar a ultrapassar aquele muro alto que se ergue tapando a visão de qualquer horizonte. Preferiria eu própria sofrer as dores do que consolá-las . sinto-me impotente frente as dores do outro, meu saber parece fracassar diante das suspeitas  mil almas com suas chamas e vulcões  em um mesmo acontecimento. uma dor, multidão de almas reunidas, muita complicação para ser explicada. mas resta a amizade e a presença para amparar o som e o rumor que as dores produzem.

07.09.08

Neste domingo frio e nublado, nesta primavera que combate contra o inverno, descubro uma diferença entre a ponta dos dedos e a planta do pés. Há pouco tempo atrás, parecia-me levar a vida na ponta dos dedos, com leves toques encontrava o impulso suficiente para fazê-la bailar como um balão de ar, leve e diáfano. Nadava, cantava, trabalhava, fazia minha ginástica e minhas aulas de francês progrediam. Hoje, sinto meus pés em 3x3, ou seja, grandes demais, pesados e lentificantes, a vida entornou-se para meus pés que não me deixam a não ser rastejar. Talvez os onze anos de morte de minha mãe colaborem para este achado. Um ano, dois anos, três anos, quatro anos, cinco anos, seis anos, sete anos, oito anos, nove anos, dez anos, onze anos... onze mortes.

08.09.08

Os pés pareceram diminuir no dia de hoje. Pequenas asas podem estar brotando às minhas costas. Um dia de muitos diversos lugares que me levaram a variações. Uma aula, um velório a seguir e, á noite, um teatro. Como podemos abarcar tantos momentos de esquecimento! Nestes momentos é que as frágeis brotações de asas ousam irromper. Sentimo-nos mais leves quando a noite chega. Mesmo que tenhamos ido ao fundo da terra.

 

09.09.08 - Os restos

Que seria da mesa de jantar se não lhe retirássemos os restos? Do quarto, se não guardássemos as roupas estiradas em poltronas? Do jardim, se não lhe renovássemos as plantas? Das camas se não lhes mudássemos os lençóis? Das aulas, se não lhes renovássemos os conceitos e os esforços para forçar a pensar? Do presente, se não o forçássemos a sair de si, como uma linha de pesca atirada para trás? Da vida, se desconhecêssemos seus instantes e suas fulgurações? Da lua, se não a olhássemos com enlevamento? Do mar se nele não nos banhássemos? Da areia, se nela não lhe sentíssemos a suave tepidez? Que seria de nós se não nos sentíssemos em todos os nossos restos que clamam por existir?

12/08/08

Os dias estavam como doentes naquele período. ela preparava o jantar, acendia seu cigarro e deixava-o queimar no cinzeiro; seus pensamentos  levavam-na  a escrever textos mentais, seu corpo gostaria de estar no telhado a divisar as pequenas luzes da cidade em volta. fumaria, então, 10 cigarros um atrás do outro, beberia talvez taças de vinho impossíveis, pois sabia que apenas poderia carregar a si própria na escalada já conhecida e, no entanto, dificultosa. sua mente estava em muitos lugares no mesmo instante. as pistas estavam ali, seus gestos as faziam existir, apenas não a do telhado que permanecera como desejo para o verão, em dia quente e seco, sem perigo de escorregar.  fazia-se muitas ao mesmo tempo, como se soubesse que colada à ela existia uma vida anônima que pulsava para longe do cinza e descolorido transcorrer. julgava que ainda tinha idade para pensar na linha de fuga não como refúgio. pensava em todos os seus alunos, ligados a ela à espera de devires, quais poderia produzir? pensava em si própria, quase que como completada, como diriam os velhos, já fatigada pelas experiências, já devendo ser sábia pelo que pudera ver, ouvir, sentir. mas ainda sentia-se jovem e inexperiente. sua alma estava jovem, embora necessitasse de cuidados para sua musculatura cansada. disparidades a percorrem, tempos díspares se atravessam naquela pequena noite de inverno em que olha o vaso de flores de pessegueiros que fora comprar na feira do parque ao domingo. descobrira  que em pleno inverno, os pessegueiros florescem e sua linda floração, para quem não vive no campo, só é possível ser sentida quando se vai ao local notável onde camponeses que as podaram as vendem como ramalhetes de beleza e lembranças da primavera.

12.09.08-  feitiços de desamor

torna-se impressionante como as coisas retornando em sua diferença ainda podemos nelas identificar um repetidor implacável, como que um passado engasgado que cuspe a superfície e a emporcalha.  ela vivia, naquele momento,  mais uma vez um ritornelo. outros personagens, sem rostos, que traziam à tona, o mesmo rosto infame daquela que se quer imiscuir nas vidas, que não conformada com o que pôs a perder, tece, nos almoços semanais, com mãos hábeis de feitiço, as vontades de inocentes , em nome do amor. seu feitiço constituía-se em imiscuir-se na vida daquele a quem ela mesma traíra tantas vezes. inconformada e, sobretudo, astuciosa, levava outros a cumprir seus desejos de estar junto e de saber de quem com quem mais não mais privava. como se poderia chamar estes atos e projetos senão de perversão e ataque às costas? mais uma traição? mas agora, quem mais estaria sendo traído, sob o controle e o som mudo de um riso contido, entre-dentes, de quem jogou sua cartada e se julga desapercebida? insuportável sustentar esta visão que nenhum outro, naquela terra de cegos, poderia ver e pressentir. visão que só se poderia tornar visível para ela, que sentia-se presa a uma vida que não era a sua e de cujas intensidades lançavam-se tentáculos surrupiando sua respiração.

 

17.08.08

De nada adiantaria alisar os lençóis do sono dormido. Estender a colcha ou o edredon que os encobrira e aquecera; os sonhos revelam distâncias díspares. Nada que se faça na vigília da ordem e do asseado cabe em sua desmedida; eram estranhos a dormir sob os mesmos lençóis.  Seriam para sempre incomunicáveis, da mesma maneira como viam um filme e um anúncio de TV. tudo neles reverberava para o que difere e repele. Como se poderia explicar que tenham se juntado?

18/08/08
tentava  e tentava reter em sua mente a imagem daquelas nuvens que, à noite, quando observava o jardim, lhe desviaram o olhar para o alto.  como  véus rasgados, brancos e opacos,  corriam em direção ao poente. observara não ser comum os ventos naquela direção, mas, como se sabia em estação de inverno, também achara justa a desvairada correria que talvez trouxesse mais chuvas e mais cinzas aos dias seguintes. mas imaginara um pouco mais: onde teriam se escondido as mil mãozinhas de crianças que arrastavam aqueles véus esgarçados? deduzia que certamente já teriam saído de sua vista, na correria em que se entretinham. haviam pulado os riachos, atravessado as conglomerações nebulosas, saltado em triplo sobre corpos estelares mais avantajados. sondavam o corpo da noite e os seus misteriosos elementos e deixavam rastros esfumaçados por onde passavam. os véus em correnteza ao poente carregavam infâncias que não mais apareceriam mas que escreviam, ao vento, mensagens de sua passagem e de sua permanente duração.

19.08.08

quando eu morrer, que morte terei? acordei pensando. e a de meu filho? como seria ver-se em frente ao momento final? tristes pensamentos para a madrugada de mais um dia..mas, em minha morte haveria uma surpresa ao tabelião e aos herdeiros: meu inventário seria o das invenções, inventário das linhas minhas que se enosaram a outros,  fazendo-os reféns ou libertos. isso não saberei.

29/07/08

encontrava-se sentada na cadeira de balanço da avó. a mesma sala, a pesada mesa de jantar, a cristaleira, o balcão para acomodar o serviço de louças e talheres, os pedestais suportando folhagens, as grandes portas quadriculadas de vidraças, a cadeira do avô ao pé do rádio, o brilho daquela sala tilintou em seu sonho da sesta.    Alguém voltava de uma viagem. quem sabe o avô, mais dado ao fora da casa. ela esperava seu presente, embalando-se na doçura daquela atmosfera.  Não sabia ser aquela visão a dádiva que lhe estava  sendo dada para sempre.

um dia como se fizesse em tela branca. uma pasmaceira  não a deixava navegar nas águas da chuva insistente. Como se uma outra ordem de acontecimentos a guiassem sem sabe-lo. recebera um e-mail  apostando no pensamento positivo para se alcançar o que se deseja. até nisso deteve-se. Cumpriu a sucessão de  dicas para fazer acontecer seu desejo: queria falar com seu filho que estava em viagem de férias. concentrou-se, meditou, como se a força de seu pensamento pudesse vir a alinhar seus corações apesar da distância. Nada aconteceu no momento, mas horas depois, o telefone toca e falam sem parar. Os desejos se realizam, pensou. O seu, naquele momento, era uma prova.

neste dia, completava-se um mês da separação inconfessável. Quem sabe, ainda estava tonta, com aquele medo de perder-se?

31.ago.2008- Vidas juntas?

vidas juntas, ajuntadas e ao mesmo tempo separadas. quantas infinitesimais diferenças as separam? quantos infinitesimais identificatórios as juntam? vidas ao mar, vidas margeadas por oceanos do índico, do atlântico e do mediterrâneo, navegantes de uma nau que conjuga destinos singulares que se acoplam a outros destinos agenciando suas realizações e desdobraduras. vidas em conjunção disjuntiva, tantas são as mínimas diferenciações que nelas se processam, tantos são os caminhos que se abrem em cada uma delas em direção ao que pré-julgam como sua predestinação. logos ou dramas? seria mais pelas dramáticas dos usos das potências que estas vidas carregam. elas são anteriores e ulteriores aos  corpos onde se realizam e atualizam, guardam seus passados e seus futuros,  pensam antes de uma vontade pensante,  se aspargem e expandem, voluntariosas sem vontade, inteligentes sem razão, éticas sem moral. elas apenas querem ser, e se imiscuem nos casais, em todos seus encontros e desencontros, nas relações de amizade, de amor, trabalho e negócios, mas não podem, adquirir consistência senão quando agenciadas a um outro termo, ao seu antípoda ou não. Existem somente nas dramáticas dos encontros.

Doze de oito de dois mil e oito
Uma data não nos diz das variações que ela contém. Há pouco, escrevia um fragmento que, após encerrado ainda reverberava em minha mente. Ora, são as chicoteadas que recebemos a todo instante e que se perdem como fugidios raios de um pensamento que nos habita. Mas ainda conseguia preender este: que nas flores de pessegueiros colocadas em vaso em sua sala de jantar, podia ver as luzes da cidade e as do campo.

Dias e noite há em que nos  sentimos esfumaçar frente ao que a vida oferece. Estamos abertos às fumaças que se aproximam, e nos envolvem em densa nuvem de alegria. tudo podemos usufruir. a vida nos parece bela e já lamentamos o que se findará.

A viagem com Deleuze

Um trem passa. Um navio apita, afundado no azul crepom do mar. Nuvens no céu, tecem o acontecimento da chuva. A terra se encharca. Ela olha a parede branca e descobre que a pele de tinta que a recobre, entumece,  tecendo desenhos de ar naquelas bolhas úmidas. Deve ir direto ao que a espera, leitura que ainda não se fez acontecer no domingo chuvoso. Deleuze a espera na duração de sua existência. Ela sabe que abrir o livro será como tomar um banho de chuva. Não podemos nos proteger do pensamento de Deleuze. Ele chega , à nossa medida, umedece nossa pele, cria bolsões de ar, suspende-nos em movimentos insuspeitados, faz-nos ventar e com ele podemos viajar nas chuvas, nos mares, nos trens e navios, embarcados que nos sentimos em seu corpo-escritura, plissado e barroco, que aparece e desaparece aos nosso olhos como um movimento de  nuvem. Com Deleuze, nos desenraizamos e nos colocamos no limite do que ainda não somos. Talvez por isso, nossa viagem nunca se torna bem sabida como escolha livre. Ele nos arrasta para a proa, nos coloca em quartos como hóspedes de seu grande hotel errante e vagante, orientado por bússolas anômalas que embaralham norte-sul, torcem as direções, apontam para os infinitesimais pontos dos percursos que não podem ser apontados pelo cruzeiro do sul. Leva-nos a algumas geleiras, mune-nos de tochas para o derretimento, aponta-nos para uma estranha superfície em que nada é superficial, mas coexistente e embaralhado. A viagem com Deleuze  não pode ser guiada apenas por um programa de estudos forjado pela docência. A pedagogia que se lhe aplica e dela emana é de que cada qual pode viajar nas intensidades que suportar, pode aproveitar a viagem segundo sua sede, sua fome  e seu deserto, pode entrar no trem que passa desde a estação em que está e em que firma seu desejo. Só tem uma coisa, torna-se difícil desembarcar. Esta viagem nos mostra sempre seu inacabamento, nos arremessa para futuros,  nos atrai para aquilo que, ainda insuspeito, nos espera e nos faz sentido.

Em 06/08/08
que teria eu querido conversar  no nosso encontro? sobre o cristal belo e translúcido capaz de espargir raios de luz e de cores? ou sobre o jarro de barro fendido por onde escoa a água que alimenta a vida? ou, ainda sobre os cupins que corroem as estruturas que nos parecem as mais sólidas? conversa mista, em que nos surpreendemos com as multiplicidades díspares que nos habitam. Talvez devesse renunciar ao desejo de verdade para ficar com os enigmas que ressoam em minha sensação e que me duplicam em fragilidade e potência. houve ainda o relato sobre o guri que escala a montanha para ver o pôr-do-sol em meio às nuvens: figura  terna e expectante de um jarro de cristal ultrapassando-se para fazer brilharem em si os raios de luz e para experimentar sentir de outra maneira aquilo com que já se está habituado e para o que se está cegados. devir da vida  no corpo de um filho que encontra  suas águas ao ir buscar paisagens desérticas, geladas e salgadas. o que se fixou em minha mente foi a fissura do jarro que tanto pode ser perda quanto transbordamento. através da figura do jovem homem escalando as alturas, posso pensar que falamos de boas expectativas, de uma potência de deixar o corpo ser atravessado pelas boas sensações buscadas, pelas seivas frescas que refrescam as disparidades e que dão sustentação às paredes frente aos cupins e que acolhem a fissura não como esgotamento da fonte, mas como abertura às forças de um mundo que nos olha e convoca para a vida.

Entreveiros

ela andava pensando em sua vida como cheia de entreveiros. o que seria nascer, senão colocar-se em um nó de forças desconhecidas e com longa duração? tornar-se herdeira deste nó? imbricar-se a ele como sendo seu corpo, incorporar os destinos de outrens? e no caso de casar? seria, por acaso, diferente? resultava que seu pensamento a conduzia a uma espécie de destino do qual teria de se fazer autora? de que autoria se falaria, nestes casos, senão daquela que leva o nome de reinventar o que foi posto, abrir fendas no dito e feito, para dar passagem ao pequeno e fatigado mundo de expectativas? descobrira ter sido feita tanto de contemplações como de fadigas. diante dos hábitos e rotinas, do cotidiano cinza e sem cheiro, formigava nela um desejo de vir-a-ser que entortava seus dias. à noite, se manifestava em sonhos que nem sempre pudera compreender. sim, pensava nos entreveiros de sua existência aos quais deveria achar resoluções sempre que as tensões que os percorriam se manifestassem. um entreveiro, mais um outro, enfim, um acúmulo deles que, como nós problemáticos solicitavam respostas. tornara-se um enigma para si própria  tamanha a diversidade de vozes que ecoavam em sua alma. em seu corpo, germinava uma terra orientada por diversas bússolas e atratores. tornara-se múltipla, mas sabia que não seria para reproduzir o acontecido. exigia-se, sem saber um como fazê-lo, remexer seu arquivo, colocá-lo em posição de revanche para que deste fosse extraído outros sons que, como fiozinhos tênues, a levariam em direção a outros horizontes incalculáveis. tratava-se, enfim, de lavar a vida, de levá-la desde vozes inaudíveis e esquecidas. tratava-se de banhar-se em águas ainda não vividas mas vivíveis, enfim, descia pela encosta um novo filete de ar e brotava da terra algo que lhe era próprio, embora sempre marcado por companhias irremovíveis. percebia que só se tornaria própria em meio aos seus entreveiros.

Fluxos velozes e intensos de um domingo

 

Acordara cedo. Poderia resolver voltar à cama. Manteve-se desperta. Tomou o cafezinho, arranjou a casa da noite passada, e foi a computador. Redigiu mensagens àqueles que lhe haviam escrito no Livro dos Encontros que recebera na semana anterior. Espreitava-a uma pilha textos a ler, agendados que estavam para as atividades da semana que iniciaria. Pôs-se a ler o primeiro da agenda. Felizmente um texto mais curto que logo foi concluído. Recebeu um telefonema de Lyon. Atendera e reconhecera a voz de sua Clarice. Mais de hora ao telefone, e ela já olhava o parecer inconcluso, o almoço ainda não cozinhado que deveria oferecer à família que ainda dormia e despertaria , faminta, a seguir. Tentou colocar panelas ao fogo, buscar batatas para a salada de maionese que havia prometido fazer. O telefone sem fio não funcionava em qualquer âmbito da casa. Não seria possível ir cozinhando enquanto conversava e tampouco enquanto a esperava o texto recém iniciado quando a chamada a convocou.Conversou com a saudade que cultiva dessa amiga que vive tão longe. Seus encontros se dão aos domingos, quando a amiga a presume na cozinha.  Eram 13hs da tarde. Pensou que pudesse tomar um cálice de vinho e fumar um cigarro enquanto conversavam. Serviu-se. O marido despontou na cozinha que era onde se encontrava a falar com sua amiga. Percebeu que o almoço deveria já estar fumegando e não estava. Apressou-se. Descascou batatas para a salada de maionese e ao encontrar uma delas meio podre, pensou  na diferença entre descascar batatas e descascar abacaxis. Nestes, a faca deve aprofundar-se a uma certa espessura para retirar-lhes , de um golpe, os espinhos e as marcas. Alisá-los, deixar à mostra apenas a polpa macia, comestível , doce e macia. Na batata, bem como com as maçãs, a operação é diferente. Possuindo pele fina, muito fina, dispõem-se a serem descascadas com cuidado, para não desperdiçarmos sua polpa que se coloca à mostra no primeiro talho. Surpresas entretanto nos colhem quando vemos a polpa umedecida demais, escurecida demais, em processo de apodrecimento. Uma verdade se nos confronta logo ao aparecer da polpa, diferente do abacaxi, que precisa ser mais escavado e aprofundado. Pensara tudo isso, ao colocar nas chamas as panelas. Enquanto cozia, voltou a coser seu texto no computador e finalizou o parecer. Serviu o almoço. Conversou com a família e o amigo que a visitava seu filho. Retirou e lavou a louça. Bebeu um último gole de vinho da taça. Voltou ao computador. Olha à espera da pilha que à espera.  Abriu seus e-mails. Respondeu às novas mensagens. Pensou que gostaria de escrever  sobre este ir e vir do domingo chuvoso. Escreve agora, para então mergulhar em outros poços, dos quais não sabe como retornará. São 16hs e 42 min. Para onde poderá ir ainda até a noite chegar? Chama-se a isso descanso?

o presente se gesta no passado. estimamos o encontro com alguma amiga, assistir a certa conferência, fruir certa exposição, escrever algum texto, enfim, nossos encontros são sempre definidos por um desejo do presente, que se torna passado assim que resplandesce em nosso espírito, tornando-se, logo após,  em uma espécie de dívida que buscamos saldar. havia, por exemplo, pensado caminhar ao sol da manhã deste domingo. encontrava-me, entretanto, presa a um montão de trabalhos discentes a mim dirigidos. coube-me escolher. fiquei com a leitura dos textos nos quais vidas se desenrolam, persistem e insistem em encontrar sentidos. encontrei-me, pois,  com uma pequena multidão de efectos, com um mundo em vibração desejante, cada qual buscando ultrapassar seus muros para aceder um outro patamar. não importa se mais alto ou se mais baixo, pois o alto e baixo, aqui, não se referem a hierarquias de poder. estão colados às potências de penetrar o insondável, de perseguir o imanente, de colar-se ao que passa, mesmo que insignificante e tímido. o baixo seria o mais profundo, o alto o mais superficial. o canto de um grilo, o som do arrastar de uma geladeira, a marca de sol no carpet, resíduos de uma vida, enfim, lancei-me nos contornos destas indeléveis coberturas que enevoam o que vemos e o que ouvimos, impedem-nos de acessar a plenitude de seus silêncios, do sem-sentido que resiste no silêncio, do antes formado a que o silêncio convoca, da noite que pode ser dia, da relva que poderia germinar flores esparsas e vazias. Também cozinhei brócolis e medalhões de filé. Devia, sim, ter gravado os sons do contato da carne com a grelha quente, do vegetal com a água fervente, signos postos e ao mesmo tempo perdidos, uma vez que se torna muito difícil  paralisarmos  as operações cotidianas e banais para vermos nelas o que nelas se esconde.

O tempo da duração e o das passagens

a agenda da manhã do dia estava em branco. pensara, então, em um tempo livre e largo que se oferecia para colocar certas coisas por fazer em dia. leria trabalhos acumulados, afinal, uma manhã que oferece algumas horas de resguardo caseiro poderia resultar em algum avanço para as demandas produtivas. ainda de pijama e chambre,  abre seu outlook,  responde mensagens, grava algumas, imprime outras, acumulando mais leituras. Evade-se à cozinha, refresca o pensamento tomando um cafezinho. retorna ao computador, não sem antes trilhar as pedras do jardim e examinar o estado de cada flor, de cada planta. faz planos para realizar quando o dia do jardineiro chegar. compraria mais pedrinhas-brita- rosa para cobrir certa área-árida onde plantas não se desenvolvem, mais umas tantas mudas de grama preta para frisar os contornos ainda descobertos, uma muda de jasmim-poeta para que suba na grade e perfume a noite de verão, uma lâmpada esverdeada ou quem sabe acinzentada para ocasionar fantasmagorias sublimes que atraem, à noite, a lua para os seres vegetais da terra quando eles, então,  se transformam em vultos inacessíves e encantadores, colocados que estão sob os reflexos daquelas luzes. queria seu jardim iluminado com suavidade, evocador de beleza e delicadeza. perfumes, luzes, vultos, um mundo para sonhar. agora, já vira que soavam  dez e meia da manhã. teria ainda o banho a tomar,  vestir-se para o trabalho à tarde, enfim, já seriam onze horas e tanto quando teria terminado. os trabalhos  a ler continuavam acumulados na poltrona. para onde fora aquele tempo livre?  ela corria em sua direção, como numa brincadeira de pega-pega. ocorria que se ocultava no tempo que passa, uns mil outros desejos aos quais se deixava levar. tece, assim, seus dias, tece um lento e de dentro, enquanto  materiais de trabalho se acumulam. tempo de sonhar, tempo de trabalhar.

 

 na ilha deserta,  a sra. T. fuma, sobe em telhados e sabe que é masoquista

naquela noite escura do 04 de dezembro, nem via se havia ou não a luz da lua. situava-se sempre às escuras. dera o jantar a todos,  também jantara, beliscando alguns feijões que lhe apeteciam. achava que precisava de forças que o feijão lhe doava. sentia-se como em um teatro de marionetes. sentia-se como que movida por cordões tal como um cavalo preso às suas rédeas. a bota do cavaleiro, cravada em sua barriga, feita de músculos e de reação. a cada ato da espora, uma ação-reação. assim foi, até que lhe confiscou a consciência do que se passava em suas mais íntimas terras. à tarde, dera aula sobre a ética de Espinoza. ética da apropriação de si,dos usos de si  e da noção comum. referia-se, aos alunos, àquela noção que somente o corpo-pensamento pode aceder, desviando-se dos acasos dos encontros,desviando-se das puras afecções, em busca, pois,  da noção das causas convenientes aos encontros que lhe seriam alegres e tristes. referia-se a uma ética não fascista, a uma ética do compromisso, porque  pela noção comum, deveria vir a saber que algo desta tragédia lhe concernia, que algo de seu modo de viver as forças de seus próprios desejos, forças que diziam respeito ao que tinha de mais imanente e singular, andava a pregar-lhe peças, peças sem graça e sem desejo. sentia-se atirada à estrada, pois compreendera que para ter razões de se queixar deveria antes encontrar,  ali, em sua promessa de mulher completa e obturada de si,  mil platôs comprimidos e aspirados pelo juízo moral de uma dona decente e completa, não “móbile” ( e aqui lembrou da “La Donna es móbile” cantada por  Pavarotti) e tampouco vulgar. Ai de mim! Lembrara da exclamação de Medéia quando se julgara traída mortalmente. mas, nem mesmo em Medeia, pudera encontrar sua coragem de também gritar, por saber, agora, que não não poderá permanecer na acusação e na oposição binária. há algo que a une ao seu tirano. emana de próprio seu desejo, masoquista, talvez, mas sempre desejo, mas sempre modo de lidar com as forças que a fustigam e que ameaçam suas formas de estar no mundo. grita ai de mim!!! porque este mim se esfacela, esfarela, pulveriza e se reconforma... grita ai de mim!!! porque ao se reconformar ainda não resolveu sua tragédia que sente preencher-lhe as entranhas e  que a faz bocejar em conferências e  bancas,  comer feijão à noite para suprir-se de ferro, exercitar-se aos domingos para não minguar, fumar para pairar na fumaça, dar aulas para escutar a si própria, encontrar amigas para construir a noção de comum, desejar estar além das festas de natal, para passar momentos a caminho de algum mar, subir em telhados para ver a paisagem em outra perspectiva, ela se sente cansada de tanta planície, precisa de ares e lugares, reparem só que ares cabem em lugares mas que há lugares sem ar, isso é verdade! lugares, lombrares, sombra nos lugares, lussombrações, de onde tiramos fantasmas, tudo bem! não devíamos! mas é verdade que os tiramos. de onde também tiramos medos e modos,  e  mudos nos tornamos.  seria assim?

 
 
Tânia Mara Galli Fonseca é professora do Instituto de Psicologia da Universidade Federal de Rio Grande do Sul (UFRGS)

 

 

 




 



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