RONALDO CAGIANO
A poética dos silêncios

Ainda desconhecido do leitor brasileiro, o poeta, crítico e ensaísta Rodolfo Alonso é uma das vozes mais representativas da poesia Argentina, cuja obra só agora chega ao Brasil, com a publicação de sua Antologia Pessoal (Ed. Thesaurus, Brasília, 196 pg., R$ 20), uma reunião de poemas escolhidos de sua vasta bibliografia.

De origem galega, Rodolfo Alonso nasceu em Buenos Aires em 4 de outubro de 1934, aos dezessete começa a incursionar pela vida literária portenha, integrando, como o membro mais jovem, o movimento de vanguarda que surgia na década de 50 na Argentina, ao lado de autores que fundaram a revista “Poesía Buenos Aires”, que teve duração de 10 anos, mas foi um dos arautos dessa fase.

Muito ligado ao Brasil, estreitou os laços com o País a partir de intenso contato epistolar com Carlos Drummond de Andrade e Murilo Mendes, dos quais se tornou amigo e tradutor. Desde cedo sentiu grande empatia com a língua portuguesa, tendo sido o primeiro tradutor de Fernando Pessoa para a América Latina, além de traduzir para jornais e editoras argentinas a poesia de Olavo Bilac, Drummond, Manuel Bandeira, Murilo Mendes e outros, trabalho que vem realizando até hoje, divulgando os modernistas brasileiros nos países de língua espanhola, embora nossos autores ainda sejam pouco traduzidos conhecidos nos países vizinhos.

Recentemente, Alonso esteve no Brasil e no México para receber homenagens e participar de encontros literários, tendo sido saudado no último dia 23 de março na Academia Brasileira de Letras com a entrega da “Palma Literária”, honraria conferida a autores estrangeiros que se destacam pelo conjunto de sua obra e na defesa da linguagem e da estética literária. Entre os prêmios que recebeu, destacam-se o Nacional de Poesia (1997), um dos mais importantes de seu País, pelo livro Música concreta.

Autor de uma obra multifacética e polifônica, sua produção foi recepcionada com entusiasmo por Carlos Drummond de Andrade na apresentação de Hago el amor (1969): “Uma poesia que não usa as palavras pela sensualidade que desprendem, mas pelo silêncio que concentram. Poesia que tenta exprimir o máximo de valores no mínimo de matéria vocabular, impondo-se uma concisão que chega à mudez.”          

 

Os poemas coligidos na Antologia Pessoal vem preencher uma lacuna à sua obra e faz jus a um escritor de intensa e apaixonada vinculação com o modernismo, que faz da literatura uma ponte dialética e cultural, cristalizando um intercâmbio de experiências estéticas e humanas, em que há um diálogo com a história e a filosofia, um trânsito entre escolas e movimentos literários.

Tanto na poesia de ressonâncias líricas, quanto na de inflexão social e crítica, a construção poética de Rodolfo Alonso reveste-se de peculiar concentração textual que, mesmo nos poemas mais  longos, prescinde de um discurso caudaloso.

Essa tessitura e acabamento encontramos em “ Cuerpo presente”: Tantas como soñamos/ merecer una/ (Una mujer/ Muslos de tempestad/ senos de viento/ sagrado olor a mar)/ Toda mujer/ sentada/ en el augusto trono/ de su cintura/ Inmensa e nosingularíssimo “Vizcacha”: ¿La metáfora viva que buscaron/ para buscarse todos, al buscarse,/ vuelve como parodia e ironía?/ ¿Este misterio, este país que somos/ y que se enzarza fiero en su destino/ como luz mala en el desierto, ahora o/ siempre bajo el solazo crudo, al rayo/ del deseo, la impaciencia y su hermana/ ciega: la impotencia? ¿Ni civiles/ ni bárbaros, apenas decadentes?/ ¿Esa imagen profunda de uno mismo/ donde abrevaba el mito, la verdad/ oculta porque oscura, oscura/ porque honda, eso que nos hacía/ ser y que íbamos a ser, culpables,/ desolados, quejosos, engreídos,/ ni Cruz ni Fierro fueron, sino El Viejo?.

Em “Anti Warhol”, dedicado a Marcel Duchamp, há um viés crítico, quando questiona oos fetiches e ícones da sociedade contemporânea. Apesar da densidade do tema, não se desvia por um ritmo palavroso: Brillo de superficie en una cajá/ donde la nada brilla nada brilla/ brillo del triunfo que triunfa con brillar/ sobre la superficie del instante/ brillo de sociedad de saciedad/ contagio del hartazgo asco del ágio/ superficial alud la ola de nada/ que ávida nos envasa encenagados/ en catedrales selvas de consumo/ cárceles de mirar y ser mirado/ los bárbaros no esperes han llegado/ en la cadencia de la decadência/  la seducción que castra el vuelo raso/ que imagina tragedia al gallinero/ el despiadado espejo helada llama/ de la cautivadora que cautiva/ brillo de superficie donde encaja/ el anonadamiento de la nada/ la superficie opaca ya no oculta/ la superficie esquiva de la época/ la mera superficie el puro brillo/ de lo superficial no hay interior/ la apariencia culmina su espectáculo/ la superficie de la nada brilla.

A experiência de Alonso com a linguagem, que remonta à adolescência, foi se enriquecendo ao longo dos anos, principalmente no contato simbiótico com a poesia de língua portuguesa, quando se percebe na sua obra lampejos metafísicos, a exemplo da poética pessoana, ou uma leve inclinação surrealista, como absorção de um universo supra-real, que pretende refletir sobre a realidade existencial a partir de um olhar com que a questiona, na sutil tentativa de apaziguamento.

É o que delineiam os versos, respectivamente e “A canção das folhas” e “Ouvindo Gilgamesh”, na competente tradução de José Jeronymo Rivera: (I) Vida que se desvive/ por viver, vida viva,/ maravilha sedenta/ coroada de ecos./ Cada murmúrio/ pulsa/ atento a cada folha,/ silêncio suspendido/ por uma boca eterna./ A si mesmo sussurra/ o céu canções de festa,/ música a sós, e sol,/ água, luz, ar e erva./  Som que ilumina fundo,/ incessante milagre:/ eu que me sinto ouvir,/ a voz que faz memória./  A árvore na terra, a canção sob o sol, as folhas lá no céu,/ o vento em meio às folhas./ Repleto de frescura,/ meu sangue reconhece/ esse frigir alado:/ não há mais que universo. (II) Como a uma rocha, o empurrão/ do mundo vai polir-me,/ cercado pela música/que temperam os astros?

Ao impacto com que o autor percebe o mundo e a realidade que o cerca se contrapõe o misterio. Ao invés de desencadear uma visão catastrófica ou mesmo apocalítica, proporciona uma revelação, um salto dialético. É a apreensão poética da realidade, como “porta para o infinito”, utilizando-se aqui uma expressão de Guimarães Rosa para definir essa possibilidade de mergulho, de transcendência, de busca do equilibrio a partir da compreensão de nosso próprio destino. É o que exsurge do poema “Filho do século”: Que te possua a luz/ e tu fales à luz/ Predica no deserto/ Onde faz-se eloqüente/ a língua do lagarto/  Predica no deserto/ Onde o verde assediado/ sua seiva encouraça/ Predica no deserto/ Onde o sol meridiano/ estimula a matéria/ Predica no deserto/ Entre curvas de sonho/ sob sonhos de água/  Predica no deserto/ Entre imensos silêncios/ onde a sede descanta/ Predica no deserto/ Com a areia sagrada/ metendo-se na boca/ Predica no deserto/ Rodeado pela sombra/ de sombras assombradas/ Predica no deserto/ Sob o raio radiante/ a beleza instantânea/ Predica no deserto/ Sob a luz implacável/ sob a luz sedutora/ Predica no deserto/ Enquanto o simum fala/ e estala o resplendor/  Predica no deserto/ Ante pesados céus/ que inundam-te a cabeça/ Predica no deserto/ Com a noite solar/ e lua ao meio-dia/ Predica no deserto/ E apenas o estar só/ tua solidão sacie/ Predica no deserto/ Que te lavem os ventos/ tua alma teu olhar/ Predica no deserto/ E voltes a ser osso/ e deixes a ansiedade/ Predica no deserto/ Contra todo conforto/ sem sedução sem logros/ Predica no deserto/ No mínimo rocio/ a chuva te acompanha .

O silêncio na expressão poética de Alonso, de que nos fala Drummond, remete à eficàcia de uma linguagem que pugna pela contenção e economia de meios, pela fluidez que prescinde de maior discurso ou retórica, sem, contudo, fracassar a melodoa ou comprometer a sua plena condição de comunicar o visível e o indizível. Exemplo desse processo de fina elaboração formal encontramos na leitura de “El cielo inconcebible”: Eso que ves/ te mira/ y se mira en tus ojos/ Que ven/ pero no ve/ lo que ese cielo mira. Ou no conciso e emblemático “L’arte povera”: Apenas/ la palabra./ A penas/ la palabra apenas.

Alcançando o mais apurado grau de clareza e objetividade, numa linguagem que persegue o essencial, sem desperdiçar toda a carga semântica e metafórica que a criação poética oferece, a poesia alonsiana se ramifica pelo lirismo, pelo social e pelo político.

Autor de 25 livros, entre os quais Salud o nada (1954), Buenos vientos (1956), Hablar claro (1964),  Relaciones (1968), Señora Vida (1979), Sol o sombra (1981), Música concreta (1994) e Defensa de la poesía (1997), a poesia de Rodolfo Alonso, que se renova a cada livro, chega em boa hora ao leitor brasileiro, sobretudo em tempos de consolidação do Mercosul, quando se espera, além da frialdade das relações econômicas e diplomáticas, uma convivência que favoreça a valorização cultural e o compartilhamento das múltiplas expressões literárias do continente.  

Antagônico à sociedade do consumo e da cultura de massas, por considerar que atualmente a linguagem poética foi substituída, por sumbissão à tecnologia, pelo poema-objeto, automático e utilitarista, forjando leitores desprovidos de espírito crítico, o poeta, assegura que hoy estamos aquí contenemos el mundo/ rebeldes a la muerte a la resurrección a la palabra. Sua poesia reflete não apenas o compromisso estético com a restauração dessa linguagem, mas a necessidade que tem a literatura de tocar no que é essencial, profundo e humano, convertendo-se num compromisso ético, em que as questões existenciais e sociais ensejam um grito que reverbera as suas e as nossas angústias, preocupados que estamos com os destinos do homem e do mundo.

 

 

 

 




 



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