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Pedro Foyos........

Em socorro das palavras em vias de extinção

REFLEXÕES NO ÂMBITO DA CONFERÊNCIA SOBRE A LÍNGUA PORTUGUESANA ACADEMIA DAS CIÊNCIAS DE LISBOA

As palavras, as nossas laureadas palavras, músculo e nervo do corpo vivo da língua, estão a morrer. Escritores e jornalistas têm alertado nos últimos tempos para o empobrecimento da língua portuguesa. A par das questões gramaticais, o escritor Manuel Monteiro desenvolveu este tema numa interessante entrevista concedida a Maria João Freitas (revista Alice):

«Por que devemos manter palavras eruditas na imprensa, no ensaio, na ficção? Por uma razão muito simples. Deixar de utilizar as palavras é assassiná-las. E quando morre uma palavra, morre com ela uma chave de decifração do mundo».

Pouco tempo depois, no Jornal de Letras, o escritor Mário de Carvalho abordava, acutilante, o mesmo assunto: «Os pensamentos, os conceitos fazem-se com palavras. Quanto menor for o domínio vocabular, menos acesso temos à realidade e ao pensamento. E há quem esteja interessado nisso. Nos primeiros tempos de Salazar, os professores, na sua maioria republicanos, foram substituídos por regentes escolares que ensinavam a ler, escrever e contar e, na verdade, pensava-se que era isso tão só que os portugueses deviam saber. Que se passa agora? O consumidor precisa de ler Camões e Os Lusíadas, a mitologia? Não. Basta que conheça o vocabulário elementar que lhe permita compreender um anúncio. A pobreza, a miséria vocabular em que estão enclausurados os portugueses é da mesma natureza do ler, escrever e contar que Salazar entendia bastar ao povo».

Por seu turno, Ana Cristina Leonardo inquietava-se há dias no "Atual" do Expresso: «(...) A língua portuguesa anda a empobrecer muito (neste caso, a culpa não é do AO). Leem-se os novos autores e a nossa "cabeça estremece com todo o esquecimento" das palavras». 

Há palavras sem conto encerradas na caixa-forte dos valores procedentes das cinco partidas do mundo por onde viajou a língua portuguesa. Levámos umas, trouxemos outras — numa fértil permutação. Palavras antigas. Garrett fazia uma distinção: «Fugi de palavras antiquadas, mas não desprezei as antigas.» Basta ler uma edição original de qualquer romance oitocentista para nos darmos conta do vasto número de vocábulos extraviados ou adulterados que deveríamos recuperar ou assear. Não se trata de uma busca tolinha de palavras eruditas, impenetráveis. Precisamente o contrário: algumas dessas palavras revestem-se de tão imediata e exata definição que representam uma economia vocabular. Necessitaríamos, por vezes, de três ou quatro para expressar a mesma ideia.

Por fortuna ressalvam-se "novos autores" como Manuel Monteiro. Apraz enaltecer os cuidados de um jovem escritor não só pela gramática que tão desonrada anda mas também pelo léxico. Admiro os voluntariosos socorristas das palavras em vias de extinção. Vejo-os como biólogos cultores da recuperação de material genético nas pagelas álgidas de postilas que foram esbodegando-se no milheiral das invernias. Entre os meus dilectos (vocábulo não usado por acaso) avulta Baptista-Bastos, douto sénior a quem me arrima uma camaradagem e admiração de meio século. Sendo leitor amiudado das suas crónicas, sem esforço de memória enumero algumas expressões recorrentes: 

·         preopinante. Não é preciso ir ao dicionário para que este adjetivo nos deixe transparecer um sujeito enfatuado que opina com ignorância, precipitadamente, antecipando-se a outros mais habilitados para o fazer. E tudo isto numa única palavra!

· discretear. De discreto. Conversar com discrição, placidamente. Uma expressão próxima mas longe do mesmo significado seria divagar.

·         cochilar (dormitar). Verbo lindo mais usado no Brasil, já raramente ouvido e escrito em Portugal.

·         batucar... (...prosa, um artigo, uma notícia, etc.) De batuque. Claro que o verbo está dicionarizado e não se trata de palavra perdida. Registo-a pela originalidade de uma expressiva analogia fonética com o banal teclar numa máquina.

·         envilecer (tornar vil, miserável). O verbo, tão desusado, é consideravelmente mais áspero que o comum desprezar.

De Manuel Monteiro retenho solífugo, (sole + fugere, fugir) — extravagante definição de uma criatura noctívaga (humana, no seu livro) que execra a luz solar (foge do sol), vivendo em permanência nas trevas. O autor do romance O Suave e o Negro saberá que ao desentranhar esta palavra vai assarapantar muitos leitores? Estou em crer que sim: sabe. Entrevejo-lhe um secreto e voluptuoso propósito de nos fazer perscrutar o dicionário. Foi o meu caso. Está perdoado. O vocábulo é arrevesado, reconheço no entanto que o vizinho noctívago (que vagueia de noite) não possui o mesmo significado. 

A propósito de noite, calha bem uma recordação de há trinta anos. Saíra um novo livro de Maria Velho da Costa, comecei a lê-lo... e... tropecei logo à sexta linha da primeira página. A autora está a descrever uma paisagem noturna, escura, que esconde uma bela e quieta cidade. Poderia transmitir a visão daquela cidade como se a mesma fosse uma joia protegida pelo arvoredo e pela própria noite densa. Em vez disso escreve uma só palavra: escrínio. Escrínio?! Que bicho medonho é este?

Perguntei a quem estava próximo:

— Escrínio. Sabes o que é um escrínio?

A ignorância veio afagada de ironia:

— Incrível não saberes o que é um escrínio!

Fui ver. Escrínio, meus senhores, em português de lei quer dizer guarda-joias.

Não mais esqueci a palavra e depois disso tomei conhecimento que se publicaram pelo menos três livros em língua portuguesa integrando a palavra escrínio nos respetivos títulos. 

Comigo, que já me vou demorando na vida quase tanto como os zambujos, acontece-me uma felicidade infantil de cada vez que aprendo uma palavra nova. 

Em tempo: zambujo, ou seja, uma oliveira brava.

 

 Pedro Foyos

 

Pedro Foyos (Portugal)

Num percurso de meio século entre os mundos do Jornalismo e da Literatura, passando pelas Artes Visuais, Pedro Foyos alcançou especial notoriedade quando, já reformado do jornalismo diário, começou a dedicar-se à ficção e à crónica de atualidade.

Iniciou muito novo (final de 1960) a atividade jornalística no diário República – único declaradamente de oposição à Ditadura. Durante vários anos conciliou o jornalismo com a vida académica, participando nos movimentos estudantis que recrudesceram no País a partir de 1962. Na condição de jornalista e ao mesmo tempo de estudante foi-lhe possível, com a colaboração dos correspondentes da imprensa estrangeira, transmitir para o mundo, durante quase toda a década de 60, os acontecimentos das sucessivas crises académicas, com realce para as de 1962 (Lisboa) e 1969 (Coimbra).

Depois da revolução de 25 de Abril, no início do chamado Verão Quente de 1975 e na sequência do dramático encerramento do histórico jornal República, dirigido por Raul Rêgo, passou dois meses a correr o País, com o jornalista Vítor Direito, ao abrigo da solidariedade de tipografias democráticas dispostas a imprimir o Jornal do Caso República, publicação clandestina com tiragens de cem mil exemplares e que não podia produzir-se mais do que uma vez no mesmo local. Em Agosto desse ano foi co-fundador do diário A Luta, onde se manteve como redator e diretor de arte até próximo da sua extinção. Ainda nos anos 70 trabalhou em várias publicações da empresa jornalística “O Século”, com realce para as revistas O Século Ilustrado e Vida Mundial. Seguiu-se o Diário de Notícias, onde integrou a chefia de redação, sendo responsável, nomeadamente, pela revista dominical e edições especiais. Empreendeu em simultaneidade vários projetos editoriais no âmbito da Fotografia, Cinema e Artes Visuais em geral, fundando e dirigindo um jornal e duas revistas. Fundou também a coleção Grande Reportagem, consagrada a momentos assinaláveis do jornalismo português, tema que já antes lhe inspirara o livro O Jornal do Dia, e, mais tarde, A Vida das Imagens. Insere-se ainda nesse domínio Grandes Repórteres Portugueses da I República.

De permeio exerceu durante doze anos a presidência da Associação Portuguesa de Arte Fotográfica, tendo fundado e dirigido um Anuário da especialidade. Realizou por essa época várias exposições individuais de fotografia e de foto-pintura.

No campo do ensino e formação orientou estágios profissionais de Tecnologias de Comunicação na especialidade de Psicologia da Leitura.

Interessado igualmente, desde muito novo, pelos temas científicos, fundou o Centro de Estudos das Ciências da Natureza, direcionado em especial para as camadas juvenis, mas que dificuldades financeiras impuseram o encerramento em 2006.

No termo deste ciclo começou a dedicar-se à literatura de ficção, primeiro com O Criador de Letras, um romance inspirado no tema da invenção do alfabeto, tendo como cenário social a vida quotidiana no Próximo Oriente Antigo. A obra seguinte, Botânica das Lágrimas, protagonizada por crianças e cuja acção decorre inteiramente num jardim botânico, mereceu do escritor Miguel Real a qualificação de «romance marcante na literatura juvenil portuguesa.» (in Prefácio à segunda edição e seguintes).


Pedro Foyos é casado com a jornalista e escritora Maria Augusta Silva, distinguida com o Prémio Internacional de Jornalismo, entregue pessoalmente pelo Rei de Espanha no ano de 1993.

(Fonte:http://pt.wikipedia.org/wiki/Pedro_Foyos )

 

 

 

 




 



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