Pedro Foyos........

Leandro nunca existiu

1. O "BULLYING" E O SOFRIMENTO DE CRIANÇAS DISSOLVEM-SE DE NOVO EM ARGUMENTOS FRÍVOLOS QUE DESRESPONSABILIZAM OS CULPADOS. NÃO HOUVE SUICÍDIO? ENTÃO, ESTÁ TUDO BEM!

Os inquéritos ao "caso Leandro" promovidos pelo Ministério Público e pelo Ministério da Educação encontram-se encerrados (ou quase, no que concerne ao primeiro). Em relação ao segundo presume-se que só não foi ainda divulgado para evitar uma inconveniente sobreposição temporal com o funeral do menino. Porém, as conclusões essenciais, apontando para "acidente", estão a ser difundidas pela comunicação social.

Permito-me transcrever um fragmento da crónica que escrevi há três semanas:

«A falácia continua a fazer o seu caminho. Não haja dúvidas: o caso do menino que se lançou ao Tua não tardará a ser engolido pelo refugo-padrão dos actos de desespero por causa indeterminada.»

Fui optimista. E em parcas linhas enganei-me duas vezes. Primeiro, admiti que pelo menos viesse a ser reconhecido, como em casos anteriores, o eufémico "acto de desespero". Depois, desta vez o episódio nem foi remetido para o habitual gavetão das "causas indeterminadas", também rotulado de "causas mal definidas". Seguirá lépido para o gavetão sem fundo que tradicionalmente está adstrito às "causas indeterminadas" – o dos "acidentes".

Em recente entrevista à RTP tive oportunidade de denunciar a dita falácia (o mínimo que podemos chamar a um recorrente e documentado artifício que há muito se pratica neste país) e de imediato recebi de doutos especialistas um conjunto de informações que desconhecia. Por exemplo, a de Portugal apresentar um índice elevado de "mortes por causa indeterminada", superior à média europeia. Morre-se muitíssimo, por aqui, misteriosamente. Mais: há dois anos, a Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa expressou inquietação pelo tabu do suicídio adolescente, fazendo apelo aos países-membros para que assumissem este tema como prioritário e combatessem as causas primárias, ligadas sobretudo à violência física e/ou psíquica. Pois entre nós, como bem sabemos, nada se fez e o "bullying" atinge igualmente na actualidade uma das mais altas taxas no conjunto dos países europeus, não cessando de crescer (só no último ano lectivo aumentou 3% em relação ao anterior, segundo dados – sempre cautelosos – da divisão da PSP que engloba o Programa Escola Segura).

Vale a pena reter outra informação atinente aos suicídios que ficam escondidos no gavetão dos "acidentes". Separar as duas situações constitui um pleito antigo dos psiquiatras portugueses especialistas em suicidologia. Defendem, até agora infrutuosamente, um procedimento que tem a designação científica de «autópsia psicológica», cuja realização compete em exclusivo aos psiquiatras e psicólogos. Excluído por completo do domínio da investigação policial / estatal / corporativa, esse estudo consiste em entrevistar com específica cientificidade o maior número possível de familiares e amigos da vítima, visando a eventual propensão desta para a ideação suicida e averiguação do grau conducente à consumação. Isto, assegura-me um psiquiatra que me contactou, não é feito em Portugal. No caso de Leandro, salta aos olhos das almas lavadas que vinha persistindo essa ideação suicida, comunicada verbalmente, várias vezes, aos amigos. Se houve ou não consumação é uma questão que já se coloca a um outro nível, sobretudo judicial, que jamais poderá fazer esquecer o historial anterior ao dia da tragédia. No entanto, é isso que facilmente se adivinha para breve.

Num momento inditoso, também um jornalista que respeito subscreveu a tese frívola, a roçar o patético, de que Leandro pretendia tão-só tomar um banho nas águas do rio Tua.

DESUMANIDADE ANTES E DEPOIS DA MORTE

«Todos fomos enganados» – escreveu na sua crónica do Expresso o meu amigo e antigo colega de ofício (de local de trabalho, inclusive), Miguel Sousa Tavares (MST). Sempre lhe admirei o desassombro e honestidade intelectual. (Com imodéstia espero que continue a pensar o mesmo de mim. Espantou-me por isso a docilidade pueril com que aceitou a «versão corrigida» (expressão sua) do "caso Leandro", baseado numa "antecipação" das conclusões policiais publicada pelo Diário de Notícias. Escarificando uma dessas conclusões, MST é em especial crudelíssimo ao escrever que Leandro «não se quis suicidar, mas apenas tomar banho no rio, tendo sido levado pela corrente.» Sublinha depois que «a fazer fé na segunda e corrigida versão, todos fomos levados ao engano.» Por fim desanca «a nossa imprensa, quase toda, (que) vive à procura de sangue, escândalos, tragédias ou heróis.» E que não procura «a verdade da história além das aparências.» Justificadíssimas razões e oportunidades não faltarão a MST para dar valentes açoites à «nossa imprensa». Serei o primeiro a oferecer as velhas nádegas por pecadilhos e juízos transviados cometidos em meio século de jornalismo. No entanto, direi: nem que seja por uma vez, esta vez, «a nossa imprensa» procurou de facto a verdade. Simplesmente, transmitiu-a em estado puro, antes de maculada pelas "correcções de conveniência". (Será possível, Miguel, que já tenhas esquecido o que são e como se fazem as correcções históricas?).

Na verdade, causa perplexidade que MST "faça fé" na «versão corrigida» e expurgue à unhada, como matéria tinhosa, os inúmeros testemunhos espontâneos colhidos pelas dezenas de jornalistas que desde o dia 3 de Março povoaram a área onde ocorreu a tragédia. Uma futura História do Jornalismo conterá esse capítulo épico: «O LOGRO DE MIRANDELA». E aflige a destreza com que o "caso Leandro" deixou de concentrar-se na realidade sofrente de um menino vítima de "bullying", durante dois anos, para constituir unicamente uma porfiada pesquisa sobre as circunstâncias que envolveram a sua morte. A morte em si parece não importar. As circunstâncias, sim.

Somos agora projectados para um cenário difícil de conceber. Dir-se-ia que nas horas sequentes ao desaparecimento de Leandro houve imensa gente que, apressadamente, antes da chegada dos jornalistas, se conluiou para engendrar uma mentira colossal. Miúdos com idades entre os 11 e os 14 anos foram induzidos à mentira e a encenações mirabolantes. No que toca aos adultos, que eu tenha dado conta, apenas uma pessoa não aderiu à "grande trapaça" – o presidente da Associação de Pais, que começou por negar o "bullying", depois eclipsou-se, não voltou a ser visto até hoje. Os demais, jovens e adultos, devem ter-se aplicado num treino intensivo da mentira, pois não se ouviu uma única voz dissonante. Tudo saiu afinado. E os jornalistas, de boa fé, caíram na medonha cilada, encerrando o ciclo da esquizofrenia com a notícia de que na Escola Luciano Cordeiro, em Mirandela, alguns jovens (perto de uma dezena) eram vítimas de "bullying" muito severo, entre os quais um aluno do 6º ano, de nome Leandro Filipe, em sofrimento há dois anos e que por fim se atirara às águas do rio Tua. (Sim, é verdade, há uma correcção a fazer. Os títulos jornalísticos alteraram o verbo. A frase genuína de Leandro, repetida aos amigos, era: «Não apanho mais, vou-me botar ao rio").

Todavia, agora que um menino dez-reis-de-gente, um dos mais franzinos da Escola, está prestes a converter-se num temerário arruaceiro, afrontando os colegas graúdos, talvez também um impostor, porque o suicídio já se afigura duvidoso, e tão intrépido que ousou, numa terça-feira fria e enevoada, tomar banho nas águas rápidas do Tua, terá interesse em reflectir sobre o motivo porque os “Leandros” deste país têm de morrer, na técnica expressão oficial, em consequência de infelizes "acidentes" ou, com maior frequência, por “causas indeterminadas”.


2. POR RAZÃO DE HUMANIDADE, NENHUM INQUÉRITO CÍVICO DEVERIA ATRIBUIR O CONCEITO DE "ACIDENTE" A UMA CRIANÇA QUE DURANTE UM TEMPO INFINDO FOI EMPURRADA PARA O SUICÍDIO.

O verniz vocabular de expressões como "acidente" e "morte por causa indeterminada" estala quando se examina com seriedade e isenção os dois últimos anos da breve vida de Leandro. Esteve durante esse tempo infindo em secreto e silencioso sofrimento. Mas os colegas sabiam que ele era constantemente sovado por alunos mais velhos. Somente nas últimas semanas, em especial na última, Leandro não conseguiu reprimir a dor e começou a repetir a frase que no dia derradeiro, 2 de Março, foi pronunciada em choro e numa terminante forma verbal: «Não apanho mais, vou-me botar ao rio". Um minuto antes, Leandro sofrera nova e bárbara agressão que foi presenciada por colegas. A imprensa do dia 4 noticiava: «Os supostos agressores já foram identificados e estão a ser acompanhados por um psicólogo na própria Escola.»

Desde o instante em que Leandro saiu disparado em direcção à ponte-açude, tudo poderia acontecer. Encontrava-se sobre um instável fio de arame, de tão fraca resistência que seria inevitável partir-se como um ramo frágil que cede a uma tempestade súbita. E, ao partir-se, o equilibrista cego poderia cair para o lado da vida ou para o lado da morte. Caiu uma primeira vez para o lado da vida, em cima da ponte, em resultado da refrega com o primo Ricardo Nunes, um ano mais velho, que o impediu de lançar-se, ficando com um braço magoado. «Depois», relata Ricardo, «desceu pelas escadas, foi ali para o parque de merendas e de repente tirou a roupa e meteu-se na água.» Nesse momento impreciso, Leandro caiu para o lado da morte. Se foi ou não um acaso, se a vontade própria de Leandro influiu ou não na decisão mais cruciante da sua existência, é quase um irrelevante exercício técnico. Claro que, numa perspectiva judicial, é enorme a diferença entre as duas situações. Mas civicamente não há qualquer diferença. O "acidente" alivia porventura o peso de muitas consciências, desresponsabiliza quem colocou Leandro no fio de arame, quem o empurrou para uma circunstância limite, quem fez emergir na sua mente, ao longo do tempo, um ideário suicida.

As palavras dos mestres psiquiatras são sucintas: não existe complexidade na compreensão do ideário suicida, o qual cessa, enfraquece ou fortalece em função da cessação, enfraquecimento ou fortalecimento das causas que lhe estão subjacentes. No último caso, poderá transformar-se repentinamente numa indominável irracionalidade – a "grande e cega fúria" – latente durante poucas horas ou minutos. Leandro atingiu esse estádio ao "sair disparado" da Escola, a chorar, correndo para a ponte. É extremamente admissível que nesse momento tivesse consumado o suicídio, não fosse a intervenção do primo Ricardo com a luta entre ambos. Leandro fugiu depois para a beira-rio. Foi possível assistir na RTP à reconstituição desse percurso, com a jornalista Judite de Sousa e Ricardo ao seu lado descrevendo tudo, passo a passo. Impossível, fixando os olhos deste jovem, escutando-lhe as palavras nervosas, duvidar da sua dor, da sua sinceridade. Por tal motivo, profundo é o sentimento de tristeza que sinto ao antever que este e outros jovens da Escola Luciano Cordeiro, em Mirandela, vão sofrer com as conclusões dos inquéritos oficiais ao "caso Leandro". Porque tudo faz prever que tais conclusões os irão desmentir, que negarão os seus testemunhos. Seria indispensável que a Escola, o Ministério Público, o Ministério da Educação providenciassem com urgência um apoio a estes jovens. Melhor do que eu o dirá a notável pedagoga Professora Beatriz Pereira, porventura a maior especialista do "bullying" em Portugal, autora de vários livros sobre o tema e coordenadora (juntamente com a Professora Adelina Paula Pinto) da obra "A Escola e a Criança em Risco", da qual extraio um trecho da secção intitulada, precisamente, O bullying e o suicídio. Eis:

«O jovem que acabou por se suicidar escolheu, provavelmente, um colega da sua idade com quem partilhou a sua intenção. É já demasiado tarde para evitar a morte de um jovem, mas não será tarde para apoiar o colega que partilhou aquela dor e os outros colegas da turma. Pode ser importante falar com este jovem e acompanhá-lo, para que ele não se sinta culpado do sucedido, evitando assim os efeitos perversos da situação.»

Se já era importante apoiar e acompanhar os colegas da turma de Leandro e todos os amigos que com ele privaram e o estimavam, mais o será agora, quando lhes for dito que, afinal, Leandro nunca existiu.

Pedro Foyos
Jornalista

http://ogalodebarcelosaopoder.blogspot.com/2010/03/leandro-nunca-existiu_30.html

Pedro Foyos nasceu em Lisboa, Portugal, em 1945. Perfazendo uma carreira profissional de mais de quarenta anos como jornalista e director de publicações, dedica-se também, atualmente, à literatura de ficção e de divulgação de temas das Ciências da Natureza. De entre os órgãos de informação onde trabalhou destacam-se o diário República (único jornal de oposição à ditadura de Salazar) e o Diário de Notícias. Neste jornal de referência na imprensa portuguesa integrou a direção de redação, sendo responsável, nomeadamente, pela revista dominical e edições especiais. Fundou a revista Nova Imagem, da qual foi director durante seis anos, e mais tarde a coleção Grande Reportagem.

Foi presidente durante uma década da Associação Portuguesa de Arte Fotográfica, tendo nesse período fundado e dirigido o Anuário Português de Fotografia.

É autor dos livros O Jornal do Dia e A Vida das Imagens. Organizou, a convite da Imprensa Nacional, uma antologia histórica, em dois volumes, consagrada a grandes momentos do jornalismo português no século XX. Estreou-se na ficção com O Criador de Letras ,um romance inspirado no tema da criação do alfabeto, tendo como cenário a vida quotidiana no Antigo Próximo Oriente.

Interessado desde muito novo pelos temas científicos, fundou o Centro de Estudos das Ciências da Natureza, ao qual continua ligado honorariamente e prestando colaboração na área da Botânica.

No campo do ensino e formação tem vindo a orientar estágios profissionais de Tecnologias de Comunicação na especialidade de Psicologia da Leitura.

Ficcionista, publicou o romance «Botânica das Lágrimas».

 
 

 

 

 




 



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