NUNO REBOCHO
ARCAS ENCOIRADAS IV

Nos bastiões da resistência

Foi Eduarda Gago quem me introduziu na redação da Grande Enciclopédia Portuguesa Brasileira. O seu então marido, Manuel Quirós, estava preso nas masmorras fascistas de Peniche, apanhado nas redes policiais que dizimaram a Frente de Ação Popular. Ainda não conhecia pessoalmente o que, anos volvidos, foi meu camarada no Comité Comunista de Portugal.

Conheci a Eduarda na época em que namorava a Jacinta Sarmento. Tinham melhorado as minhas condições de vida quando fora contratado pela revista “Seara Nova”, na Rua Luciano Cordeiro. Era uma revista da esquerda republicana, mais ou menos ligada ao chamado “reviralho” (o democratismo que sonhava com o derrube do salazarismo e, no máximo, vinha urdindo fracassadas insurreições), onde ganhava ao dia no empacotamento de livros, antes de ser aceite como seu empregado de escritório. Conhecera a Jacinta quando, uma tarde, ela irrompeu até ao balcão para comprar já não sei o quê, olhou-me e perguntou: “você não é o Nuno Rebocho?”. Que era, respondi-lhe. E ficámos amigos. Daí a começarmos a namorar, pouco mediou.

Jacinta morava num quarto alugado num segundo piso, eu ingressara numa “República”, perto da Portugália de Cervejas, ao Chile. Era um quarto andar de esquina em que coabitava com o José Casanova (depois militante e responsável do Partido Comunista), o José Rolim (estivera preso em Caxias e, para não prestar declarações à PIDE, a execrável polícia política do regime salazarista, cortara a língua durante os interrogatórios), o Virgílio (depois, meu editor e do Carreira Bom) e outros. Uma das consequências era a de que voltara a almoçar e a jantar todos os dias, passara a dormir sob teto e estava mais reconfortado. Deitava-me num divã, sobre um colchão de ar que preenchia a sopro todas as noites antes de me recostar. Durante as horas de sono, o colchão ia esvaziando e acordava retalhado pela rede de suporte do leito.

Um grupo de moças rodeava a Jacinta, entre elas a Eduarda. Tinham-se conhecido, elas e a Conceição (mulher do Domingos Abrantes) nas celas do Forte de Caxias: a Jacinta também fora presa aquando da vaga de prisões da leva de Carlos Miredores e de um grupo associado ao PC. Saíra da cadeia havia pouco à época em que nos conhecemos, estava bastante abalada e o estudo de iniciação ao materialismo histórico e dialético foi um modo de consumirmos algumas noites à mesa do café – por hábito, o “Monte Carlo”, ao Saldanha. De braço dado, regressávamos a nossas casas por volta das onze da noite, a da Jacinta situava-se a caminho da “república” onde então eu morava. Jacinta era trigueira e maneirinha, nisso parecida com a minha futura mulher. A essas amigas juntavam-se a Natália Canas, paraplégica, que mais tarde, depois do 25 de abril, militou comigo na União Comunista Marxista-Leninista, e a Ângela, com veleidades de singrar nas artes.

Na “Seara Nova”, eu era empregado de confiança, dava-me com os meus companheiros – o chefe de escritório (não me recorda o nome) estivera detido no campo de concentração do Tarrafal, em Cabo Verde, coisas da repressão fascista nos anos 40. Na redação da revista incitavam-me: recordo o Rogério Fernandes e o Nuno Brederode Santos. Passava-lhes pela cabeça cooptarem-me para “seareiro” desde que eu largasse a revista concorrente a cuja redação eu pertencia – a revista “O Tempo e o Modo”.  Já nela escrevia, e auferia a cada peça publicada, quando fui contratado como empregado de escritório da “Seara Nova”.

Logicamente, pouco depois tornei-me militante comunista. Sabendo-se aqueles com quem me relacionava, o recrutamento era quase inevitável, tanto mais que dera nas vistas durante os protestos contra o encerramento da Sociedade Portuguesa de Escritores, no ativismo pela recolha de assinaturas para os abaixo-assinados enviados ao Governo de Salazar, reclamando contra a repressão e nas manifestações que aconteceram na época – era a normal escola para o ingresso no “partido” (como lhe chamávamos). Calhou-me por controleiro, “funcionário” clandestino como então se dizia, um mineiro vindo de Aljustrel – nunca soube o nome verdadeiro do “camarada Carlos”. Quanto a mim, fora recrutado por uma amiga de Benfica, não me recordo do nome.

Uma noite, “Carlos” pôs-me de sobreaviso acerca da Jacinta (“que tivesse cuidado…”, havia boatos de que era informadora da PIDE: esse um fácil labéu atirado contra os que ousassem contestar a “linha” do partido). Recusei-me a acreditar, mas acabámos por combinar que, quando fosse levar a Jacinta, ele e outra camarada (suponho que foi a Zélia Cavaco) se resguardariam num vão de escada, simulando namorar, para seguirem os seus passos depois que eu a abandonasse à porta de casa. Assim fiz e continuei a caminhada depois de a largar. Dando mia dúzia de passos, virei-me para trás para acender um cigarro e vi a Jacinta sair do prédio onde morava e subir a rua. Num assédio de ciúmes, passei para o lado contrário da rua e segui-a, deparando que um automóvel a aguardava à esquina. Ela entrou nele e o carro partiu de imediato.

“Carlos” indicou-me que ficasse calado enquanto os camaradas passariam a seguir-lhe os passos. Mas não resisti: a “dor de cotovelo” falava mais alto, sentia-me traído. Confrontei-a com o que vira, ela negou-me a pés juntos, acabou por cortar relações comigo e, pouco depois, partiu para Paris, onde casou. Vim a saber meses depois o que de facto acontecera: Jacinta rompera com o PC, por influência do grupo que se formara na revista “Binómio”, surgida em anexo à Associação de Estudantes do Instituto Superior Técnico de Lisboa e ao qual ela pertencia. Animada por Eduíno Vilar, formara-se um núcleo que procurava ressuscitar a maoísta Frente de Ação Popular, varrida pela repressão policial. E Jacinta militava aí com os cuidados conspirativos e defensivos que tal implicava. Em consequência, era hostilizada pelo Partido Comunista. Quem a esperava de automóvel na esquina era nem mais nem menos que o Eduíno, de quem anos mais tarde me tornei amigo: tratava-se de um contrato clandestino.

Estava já preso nas celas da PIDE no Porto, quando me caiu nas mãos um exemplar do “Paris Match” com reportagem sobre a parisiense revolta do maio de 1968. Na capa: a foto de uma manifestação nas ruas da capital francesa, uma mulher encavalitada sobre os ombros dos manifestantes, conclamando-os à revolução. Era a Jacinta Sarmento! Ao que levam as intrigas políticas, as sanhas ideológicas, os mal-entendidos que a clandestinidade gera. Atiram-se “famas” contra as pessoas, com indiferença pelas consequências que elas possam ter: não se olha a meios desde que se atinjam determinados resultados. Chama-se a isso, indevidamente, objetivismo (sofri na pele algumas dessas manigâncias). Reencontrei a Jacinta no seu regresso a Portugal depois de abril de 75. Estava eu numa tipografia trabalhando para a União Comunista Marxista-Leninista. Já nada nos ligava, tudo se esfumava em recordações, algumas dolorosas. Apenas senti pena de quanto a vida nos negara e se perdera levado pela intrigalhada. Ela também se faz destes escolhos.

Foi nesta roda que conheci a Eduarda Gago, trabalhava ela na Enciclopédia e sugeriu que fosse até lá conversar com David de Carvalho, o chefe de redação. David era um velho anarquista, agitador desde os anos 30, a história do primeiro republicanismo e da resistência ao fascismo, memória revolucionária feita de duros combates e prisões. Conhecera o seu filho, Adriano, no bulício do “Notícias da Amadora” e sua página “Andaime”, dirigida pelo Joaquim Benite e onde colaboravam o Deodato Santos, o Serafim Ferreira, o Torres Rodrigues… Também para lá dei alguma colaboração. Mais tarde, o Adriano seria meu companheiro de banca de redação no ressurgido “O Século”.

David aceitou a minha entrada na Enciclopédia. Era um parte-time, para mim o luxo de todas as tardes: arrecadava dinheiro, convivia com históricos da resistência, escrevia, vasculhava livros em busca de documentação, enriquecia conhecimentos. Alguma espuma das convulsões que fizeram a nossa história estava ali: por exemplo, o líder do antigo anarco-sindicalismo português e destacada figura do movimento operário português na I República (Alexandre Vieira), sempre com o seu laço e o cuidado de bem vestir; e o Ilídio Machado (meu amigo, um dos fundadores do MPLA e anos de cadeia em Luanda, depois da independência de Angola seu secretário de Estado) a que se juntavam jovens prontos a se deixarem imolar nas fogueiras anti salazaristas, antifascistas e anticolonialistas.

Ficava a redação da Enciclopédia numa rua de má-fama em Lisboa: a Rua António Maria Cardoso, precisamente em frente à sede da PIDE. Descíamos a rua, vindos da “Brasileira do Chiado”, no passeio contrário aos pides, com os olhos postos nos esbirros do regime para lhes memorizar os rostos e rogar-lhes pragas. Saí da Enciclopédia quando passei à clandestinidade (fugindo para o Porto) e a ela regressei quando fui libertado do Forte de Peniche. Nesta segunda fase, seria companheiro de redação de um ex-companheiro de prisão, Joaquim Pinto de Andrade, presidente honorário do MPLA, grande amigo que teve papel fundamental na luta pela libertação dos homens da “Revolta Ativa”, cisão no MPLA, encarcerados por Agostinho Neto e alguns deles condenados ao fuzilamento.

O dono da editora, Peixoto - tio de outro meu companheiro de prisão e depois colega no “Comércio do Funchal” e no jornal “A Tarde” (o José Luís Feronha) - tinha por mim uma estima que nada a justificava. Para reforçar o meu salário, contratou-me para redigir textos com vista à atualização da Enciclopédia: deixava, portanto, de apenas preencher verbetes, preparados por ordem onomástica, que carreavam dados para cada uma das palavras entradas (tarefa interessantíssima e que me obrigava a muita leitura), para também escrever textos de fundo para algumas rubricas. Simplesmente, o contrato continha um erro formal – o pagamento dos escritos teria como base a contagem das palavras para eles redigidas, o que me levou a aprender a “esticar as frases”: quantas mais palavras fossem escritas, mais ganharia. Em consequência, multiplicavam-se as perífrases e as metáforas na tradução das ideias que, em princípio, exigiam poucas palavras. Foi exemplo desta “ginástica” a atualização da rubrica “América” publicada na Grande Enciclopédia que passou a ser “grande” em todos os sentidos.

Peixoto tinha destas “infelicidades”: quando aconteceu o golpe de Estado de 25 de abril de 1974, fechou-se na Enciclopédia para assistir ao cerco e rendição da PIDE. Quando começou o tiroteio com o qual os esbirros do regime receberam os manifestantes, os militares insurretos interditaram o acesso à rua por motivos de segurança e Peixoto ficou retido nas instalações da editora. Dali telefonava desesperado a pedir para dela o tirarem, berrava, chorava, protestava. Mas nada se podia fazer – ali ficou durante dois dias. Os pides tinham acabado de assassinar as suas últimas vítimas e as questões de segurança estavam acima das demais.

De resto, o dia 25 de abril ficou repleto de emoções, pelo menos no que me diz respeito. Morávamos na altura, eu e minha mulher, na Calçada dos Barbadinhos, ao Bairro da Graça, mesmo atrás do Quartel de Sapadores. Fomos acordados cerca das cinco da manhã por telefonema de um amigo, o ex-militante do PC e revisor do “República”, António Fradique Caldeira: “ouve a rádio: o Rádio Clube Português. É muito importante”. E desligou. Assim tomei conhecimento dos primeiros comunicados do Movimento das Forças Armadas, radiofonicamente difundidos entre marchas militares que ininterruptamente soavam. Era o golpe de Estado por que tanto se ansiava.

Vesti-me e, contrariando os apelos escutados na telefonia, saltei para a rua. Logo ao passar em frente ao Quartel dei de caras com um antigo camarada e companheiro de cadeia, José Ribeiro Lamego (antigo mecânico dos telefones). Era um encontro clandestino de um dos muitos grupos revolucionários então existentes, o OCMLP -Grito do Povo. Dei-lhe uma cotovelada, fiz-lhe sinal que me seguisse e sussurrei-lhe: “Vai para casa, pá. Escolheste mal o dia. Decorre um golpe militar”. Quis saber quem o comandava: “Não se sabe. Tanto pode ser de esquerda, como de direita” (falava-se que estaria eminente um golpe de extrema-direita, chefiado por Kaúlza de Arriaga).

Decidi seguir para a Baixa, onde se sabia que decorria o principal eixo das ações militares. Atravessei a pé a cidade, subi ao Largo do Carmo para onde já convergiam as pessoas. O quartel da GNR estava cercado pela unidade liderada por Salgueiro Maia. Lá dentro, isolado, o chefe do último governo fascista, Marcelo Caetano, esperava a evolução dos acontecimentos. À guarita do quartel, lançando palavras de ordem com um altifalante na mão, subiu o “Tareco” (alcunha de José Sousa Tavares): era antifascista o golpe, estava identificado. Entre a multidão, assisti à chegada do comandante Sousa Bruno, aos disparos de Maia contra a fachada do aquartelamento, crivando-a de balas para atemorizar os sitiados e à entrada de Spínola para receber a rendição de Caetano. O golpe vencera.

Do Carmo segui a coluna dos “comandos” de Jaime Neves até ao Alto do Pina, onde foram cercar o quartel-general da Legião Portuguesa, a sinistra tropa de choque do regime fascista. Juntamente com o Tó, primo de minha mulher, montei o carro de assalto do comandante da coluna, que conheci nessa data (foi com indignação que, meses depois, ouvi acoimar Jaime Ramos de fascista por parte de apressados “revolucionários” que, antes do golpe, se tinham destacado como apoiantes da situação e que, nalguns casos, poderiam e deveriam ser julgados como “criminosos de guerra” por cavilosas atitudes tomadas). Chegando ao quartel da Legião, apanhei um susto, quando os canhões se viraram na direção dos seus muros de proteção enquanto os soldados se abrigavam junto às portas, apontando as metralhadoras para o recinto cercado. Se houvesse tiroteio, seríamos apanhados entre dois fogos. Felizmente, a Legião rendeu-se e comemorámos.

Hoje, quando desconhecedores de todos estes factos me questionam - “Onde estavas no 25 de abril?” - encolho os ombros e limito-me a responder: “Estava onde estavam muitos”.

Nuno Rebocho

Nuno Rebocho - Nascido em 1945, em Queluz (Portugal), viveu em Moçambique desde os três meses de idade até 1962. Jornalista, poeta e andarilho – bastou-lhe ter estado preso por cinco anos na Cadeia do Forte de Peniche (por cinco anos, motivos políticos), para recusar ser animal sedentário. Viveu a imprensa regional (Notícias da Amadora, Jornal de Sintra, Aponte, A Nossa Terra, Jornal da Costa do Sol, Comércio do Funchal, entre outros), foi redactor da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, das revistas O Tempo e O Modo e Vida Mundial, em diferentes diários e semanários, e é chefe de redacção da Antena 2 da RDP. Colaborador de Acontece en Sorocaba (Brasil) e Liberal (Cabo Verde). Autor de “Breviário de João Crisóstomo”, “Uagudugu”, “Memórias de Paisagem”, “Invasão do Corpo”, “Manifesto (Pu)lítico”, “Santo Apollinaire, meu santo”, “A Nau da India”, “A Arte de Matar”, “Cantos Cantábricos”, “Poemas do Calendário”, “Manual de Boas Maneiras”, “A Arte das Putas” (poesia), “Estórias de Gente” (crónicas), “O 18 de Janeiro de 1934”, “A Frente Popular Antifascista em Portugal”, “A Companhia dos Braçais do Bacalhau” (investigação histórica), está representado em diversas antologias e colectâneas em Portugal, Espanha e Brasil. Tem colaborado em catálogos para exposições de artes plásticas: Ramón Catalan, Deolinda, Carlos Eirão, Alfredo Luz, Edgardo Xavier, João Alfaro, Maria José Vieira, Ricardo Gigante, Ana Horta, Isabel Teixeira de Sousa, Nuno Medeiros, Viana Baptista, Teresa Ribeiro, Rico Sequeira, João Ribeiro, José Manuel Man... Comissariou a Bienal do Mediterrâneo, Dubrovnik (Croácia), em 1999.

 

 
 

 

 




 



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