MIGUEL TORGA
Inventário

E, apesar de tudo, sou ainda o Homem!

Um bípede com fala e sentimentos.

Ao cabo de misérias e tormentos,

Continua

A ser a minha imagem que flutua

Na podridão dos charcos luarentos.

Sou eu ainda a grande maravilha

Que se mostra ao mundo.

O negro abismo que tem lá no fundo

Um regato a correr:

Uma risca de céu e de frescura

Que murmura

A ver se alguma boca a quer beber.

Quanto o grave silêncio da paisagem

Me renega e protesta,

Pouco importa na festa

Deste encontro feliz;

Obra de Arcanjo ou de Satanás,

Eu é que fui capaz

De fazer o que fiz!

Podia ser melhor o meu destino:

Ter o sol mais aberto em cada mão...

Mas, Adão,

Dei o que a argila deu.

E, corpo e alma da degradação,

O milagre é que o Homem não morreu!

Não! Não me queiram na cova que não tenho,

Porque eu vivo, e respiro, e acredito!

Sou eu que canto ainda e que palpito

No meu canto!

Sou eu que na pureza do meu grito

Me levanto!

 
 

 

 




 



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