LUCILENE MACHADO
Coreografia invisível
Index

Coreografia invisível
O ciclo de um vocativo
Escutando a vida
Vinho tinto
As horas
No silêncio das retinas
Sequência de sonho
Do coração de uma mulher
Jornada da alma

Escutando a vida

Quanto sabemos de nós? Essa história tem a opção de começar com uma pergunta filosófica, posto que qualquer resposta, por mais redutiva que seja, cairá no vazio oco do meu cérebro. Uma outra possibilidade, se é que seja necessário partir de algum ponto, seria o dourado da lua no céu. Um ponto inexato. Lua quase cheia, lua quase minguante. Lisboa sem sono. Era um homem e uma mulher. Mais que isso: um rio, uma música, barcos que buscavam ser olhados, um vento frio, um chiclete mastigado e várias possibilidades de se organizar esses elementos. Mas quando o sonho tropeça na realidade, perde-se o fio condutor da vida. Não me pergunte nada, as coisas que buscam o seu curso encontram seus vazios. Caixas de silêncio a serem ultrapassadas. Nos olhos dela uma lágrima, nos lábios dele uma frase de perdão. Mataram a lua, beberam seu licor.

A manhã de Lisboa tem quatro colunas douradas. A aurora entrou pela porta do quarto. Um homem desnudo nos olhos dela. Um homem com a resistência de Hércules. Ela quis fugir, mas de quem? Pouco sabia sobre si. Pouco sabia sobre aquele homem que tem no olhar uma máquina registradora de momentos. Ora mais, ora menos. Um homem que mede distâncias, calcula larguras, compara... Tem cores quentes nas pontas dos dedos e desenha mulheres pelas paredes da casa. Mulheres sem alma. Escreve versos com cores frias. Mar, céu e um tempo verde que não vem.

Ela sorri sabendo ainda menos sobre si do que sobre ele. Ouve as sílabas de seu nome ecoando pelas esquinas da casa, mas não está segura de que seja mesmo o seu. Sequer se lembra o caminho de volta. Voltar para aonde? Não tem sede, nem fome, apenas a palavra paixão grudada no azul de seu palato. Azul do mar, azul do céu, azul de agosto se estendendo por todo o verão enquanto ele caça borboletas em sua garganta. Príncipe das lendas. Beijo envenenado de maçãs. Como a bela adormecida estaria presa àquele feitiço. Pede a ele uma palavra bonita. Ele responde com metáforas, com versos que ainda fará. Ela sente dor. Quer chorar, quer correr, mas o sono da magia a detém. Encosta a cabeça na sinopse do poema que é um mapa de imagens agora manchado por suas lágrimas. São versos que tomam uma condução e seguem com ela pela rota da vida.

Eu, embora narrador onisciente, chego ao final desse conto sem saber a verdade do homem. Por que a deixou partir? Por que não a prendeu com os cordões de seus sapatos desgastados? Esta história poderia terminar com essa pergunta metafórica, mas vou acrescentar a grande frustração da mulher: a palavra paixão que ela engoliu enquanto fugia.

 

 

 




 



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