LUCILENE MACHADO
Coreografia invisível
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Coreografia invisível
O ciclo de um vocativo
Escutando a vida
Vinho tinto
As horas
No silêncio das retinas
Sequência de sonho
Do coração de uma mulher
Jornada da alma

O ciclo de um vocativo

Criei João em prosa e verso. Vocativo da minha solidão. Rima da minha paixão e superlativo do meu desejo. A escrita, a história, o desenho. Comecei pelo desenho. Queria que minha ficção tivesse uma imagem que eu pudesse memorizar e repensá-la sempre ao amanhecer. A primeira idéia de João foi de uma sombra atravessando uma estrada. Pernas longas, uma cadência firme ao se mover e muita coerência. João seria coerente da cabeça aos pés, do amanhecer ao anoitecer. Mas teria de ter uma carência afetiva não muito comum aos homens. Deveria chorar por amor e ter desejos simples como o de se levantar no meio da noite para dividir uma pizza com uma mulher. Mulher, não, comigo! Porque João era meu, só meu, aliás, a idéia de inventá-lo partiu de mim. Nada mais justo do que ser exclusiva na vida dele.

João haveria de gostar de flores. Flores de qualquer espécie e ser romântico para que eu não me sentisse ridícula. Teria de ter traços másculos, simétricos, para compensar a desordem da minha inspiração. Nele conviveriam o ar despojado de poeta e o arrojo de um intelectual. A insegurança de um menino e a firmeza de um ancião. O sorriso doce e o olhar misterioso. O discurso seguro e a liberdade para dizer, vez em quando, coisas sem nexo. Deveria gostar de ler e, nas tardes longas de domingo, abriria o livro vermelho e, na página marcada por uma rosa seca, leria para mim versos de Fernando Pessoa: “Vem sentar-se comigo, Lídia, à beira do rio...” e eu, Lídia de todas as horas adormeceria com as últimas frases de Pessoa: “eu nada terei de sofrer ao lembrar-me de ti. Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim – à beira do rio, pagã triste e com flores no regaço.”

Além da vocação para poesia, João haveria de ser gentil e cavalheiro. Teria idéias próprias, discordaria de mim algumas vezes e diria “não” sempre que necessário. Homem decidido que sabe o que quer, a que veio e para aonde está indo. Um homem que me surpreendesse com jantares à luz de velas e passeios românticos. Que me acompanhasse numa noite escura e me acalentasse em minhas frustrações. Que não me deixasse tão solta, nem tão presa. Que vez por outra jogasse milho aos pombos, pão aos peixes e gostasse de animais.

E, nessa minha ânsia de tê-lo, atravessei dias e noites insones como uma deusa a arrastar as tranças compridas, com os olhos sempre postos nas campinas, no céu, mar e em todas as páginas que pudessem ajudar-me na construção do meu homem ideal. Busquei o coração de João nas ondas do mar e sua alma num pássaro leve que só conhece a transparência do mundo. Eu quis João puro, livre e solto, correndo por algum parque ou por algum facho de estrela. Dei a ele toda geografia do mundo. Mas que me acenasse sempre com bandeiras rodeadas de distâncias. Sua maior qualidade? o amor. Ele haveria de me amar apesar do vento que sopra as palavras para outras direções, apesar das marés que carregam os navios para outros continentes e apesar do tempo que teima em soterrar as palavras ditas.

Quando avistei João com flores vermelhas nas mãos, não tive dúvidas em correr e abraçar aquele corpo ainda cheio de espaços vazios. Eu era um navio de verão ancorando num mar azul, trazendo alegrias e criando situações. O mar era calmo, calmo e lento como nós, mas cantava ao longe uma chuva fininha enfeitiçando nossos olhares. Fomos nos descobrindo, como quem descobre uma pátria já vista antes no mapa. Linhas conhecidas no desenho abriam-se num horizonte mágico. Aprendemos os caminhos das mãos e das pontas dos dedos. Marcamos no mapa nossos pontos de identificação, medimos nossas distâncias com a língua e quebramos todos os silêncios com o arfar de nossas respirações. Afora isso, desafiamos todos os conceitos estéticos com as nossas coreografias noturnas e dormimos o sono dos bem-aventurados. Tínhamos então o desenho e a história.

Depois do ápice, João passou a acenar-me cada vez menos. Muitas vezes perdi o sono imaginando que ele pudesse estar aterrissando em luas de outros planetas. Descobri cedo que não tinha domínios sobre minha criação, mais que isso, perdi a sintonia com a minha obra poética. Tentei consertá-la, reinventá-la, aceitá-la já com outras influências, detê-la com forças telepáticas... mas, nada. As notícias que me chegavam a pássaros lentos, já estavam vencidas. João vivia outras paixões. Paixões caladas, deflagradas, circunscritas.

Numa tarde doente, enquanto eu tentava descobrir o meu erro, meu primeiro erro, senti os passos surdos de João. Movimentava-se com incoerência. Estava longe de ser o mesmo. Amor desgovernado pelo vento dos assombros. Distâncias invertidas, rumos trocados, olhos confabulando palavras cortantes. Ataquei-o com as forças de uma fera ferida. Desequilibrei-me e caí com o corpo sangrando. Não sei se foi por defesa, piedade ou desprezo, sei que João me matou. E deixou flores para enfeitar minha morte. Terminei como Lídia: “Pagã triste e com flores no regaço.” Fez-se o desenho, a escrita e a história.

 

 

 




 



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