JÚLIO CONRADO (1969)
Foto: César Cardoso

Namoros voláteis na primeira vez que vi Paris
(Apontamentos  para um livro de memórias)

Com o problema argelino no centro do furacão na Paris de Junho de 1959, pisei pela primeira vez o chão da gare de Austerlitz depois de vinte e nove horas de viagem em caminho de ferro, primeiro no comboio da carreira regular (o dos emigrantes) e por fim no da bela linha eletrificada entre Hendaia e a capital gaulesa que nos punha nesta última em apenas sete horas. Era o TGV da época. 

À minha espera estava o José Alexandre, o nosso homem em Paris, como a ele se referiam, com ufania (ou se calhar com uma pontinha de justificada inveja), os condiscípulos da Escola Primária de Carcavelos.

Nesse ano inchado de transformações, conflitos, decisões históricas, convi-zinhavam uma Paris lúdica, simpática, permeável à fantasia e à joie de vivre, e uma Paris tensa, vigilante, conflitual, simultaneamente sedutora e amea-çadora, dualidade de que um peso pluma desembarcado com uma carrada de mitos felizes na cabeça dificilmente apreenderia à vista desarmada.

Hoje evoco momentos cuja excecio-nalidade se resume ao alvoroço pueril de um rapaz de fracos recursos financeiros possuído pela vontade de espreitar o mundo para lá da cerrada persiana lusíada.    

Foi mais a aspiração de me sentir livre, correspondido, não excluído, o que me levou a querer entrever os diferentes códigos e marcas civilizacionais que uma ida à cidade-luz, supunha, podia proporcionar-me. Olhar, ver, viver. Tirar dúvidas. Conhecer as medidas exatas dos sonhos. Testar uma certa sensualidade que se dizia visível na vida quotidiana como um tesouro à mão, ou de um superficial, todavia enriquecedor, cotejo de mentalidades que me abrisse os olhos. Porfiava em salvar-me da tristeza. Tocar novas realidades. Inteirar-me acerca de como era viver em liberdade.

Muito poucos dos pressupostos que informam o mito da viagem – fuga, exílio, emigração económica, desejo de identificar o desconhecido, amplificação do contacto humano – se perspetivavam nesta minha primeira ida ao estrangeiro, aos 22 anos, pelo menos de modo manifesto. Substituo todos estes clichés puros e duros por uma só palavra: curiosidade. Quando penso que o meu neto mais velho voou para a Madeira em visita ao pai, que lá trabalhava, com três meses de vida, e aos doze anos esteve no Brasil – país onde muito provavelmente nunca irei – e que eu só em 1973 andei pela primeira vez de avião, dou-me conta de como eram difíceis os tempos e como esses rasgos de claridade –  a Paris de 59 e de 60 – ambas as permanências   durante um mês – ressoam como um eco da novidade que decisivamente transformou a minha perceção do real, mesmo não excedendo os assombros  bitola existencial modesta. Nesse tatear experimental, canhestro e, não obstante, tardio (é bom lembrar que a maioridade se adquiria aos 21 anos e para a maioria dos mancebos durante o período do serviço militar obrigatório) abriu-se a fresta através da qual começou a raiar um saber novo.

O safanão na rotina que consistiu em alcançar a capital de França quase sem cheta no bolso, foi apenas uma aventura miúda se comparada com os riscos dos que atravessavam a fronteira a salto em busca do pão de cada dia, do estatuto de objetores de consciência ou de refugiados políticos enquanto adversários da ditadura. Em todo o caso, eu sabia duas ou três coisas sobre o que esperava encontrar; fazendo delas alvos; consegui, se não atingi-las na mouche, pelo menos raspar-lhes os contornos.

Sendo, pois, naquela época, a vida em Paris um misto de risco e de festa, tive oportunidade de roçar os dois mundos sem me chamuscar, em parte porque dispus de um cicerone com horas livres, dinheiro e alojamento para me suavizar a estada e conduzir na cidade sobressaltada pelos atentados às esquadras e pelos engenhos explosivos que deflagravam perto de edifícios públicos, quase sempre de madrugada. A FLN tinha feito chegar os atentados ao coração da metrópole e os defensores da Argélia francesa replicavam com ações de calibre diverso para influenciar as decisões políticas de fundo que se avizinhavam. Havia o que na atualidade se rotularia de terrorismo urbano, mas ainda assim circunscrito, na maioria dos casos, a objetivos selecionados, longe das matanças indiscriminadas em larga escala de que é paradigma recente o ataque às Twin Towers.

Nos Invalides

Um mês de férias

Eu gozava o meu primeiro mês de férias como funcionário da Câmara de Cascais, após o cumprimento do serviço militar, e concretizava um sonho sem o anteparo de qualquer memória literária, histórica ou familiar – por essa altura não me habitava sequer a presunção de me tornar escritor nem lera ainda os autores canónicos que depois viriam a contribuir para que alcançasse tal meta, salvo os esporádicos Capitães da Areia, Os Miseráveis, Nana e A Besta Humana. Escrever uns imaturos artigos no jornal de Cascais A Nossa Terra era tudo quanto eu podia mostrar de trabalho com as letras. Mas existia um vínculo cultural que me municiava o sonho: o cinema. Cinéfilo compulsivo desde muito cedo, fruía essa janela aberta sobre o mundo como uma compensação para os melancólicos dias portugueses da juventude. À Paris glosada no cinema devo o projeto de me lançar à sua conquista.

 

No Metro

Relativamente ao José Alexandre e à minha aprendizagem de Paris. À sensação decorrente do facto de o último terço da longa travessia se ter realizado em comboio francês de longo curso numa via eletrificada que permitia, na altura, as mais altas velocidades, iria suceder-se a descoberta do Metro, o mítico meio de transporte que nos seus duzentos quilómetros de linha e uma rede de túneis e gares sobrepostos, servia uma urbe cuja população rondava os cinco milhões. Curiosamente esse seria o ano (Dezembro) da inauguração do Metro alfacinha cujo dispositivo em Y não iria além de três estações terminais: Restauradores, Entrecampos e Sete Rios, sendo na estação da Rotunda que o trajeto se partia em dois. A comparação, inevitável, só seria atenuada quanto à dimensão da rede quarenta anos mais tarde, quando o metro passou a servir a periferia da capital portuguesa através de implantação de via em extensão consentânea com a realidade territorial dela carecida.

Ao chegar a Paris, à noite, aí me estreei a andar de Metro, e como o percurso do comboio subterrâneo tem um segmento ao ar livre logo a seguir à estação ferroviária, o Alexandre e eu resolvemos ficar na plataforma para que pudesse topar, num primeiro relance, o Sena e a Torre de Eiffel. Estava a composição a percorrer o viaduto quando uma moça que nos observava, percebendo que o caloiro era eu, se me dirigiu, apontando o rio:

 – Voilà la Seine !

Invadiu-me as narinas e a sensibilidade o odor sui-generis do Metro parisiense, que viria a consolidar-se mais tarde: um misto de pneu queimado e de papel velho à mistura com os perfumes artificiais de raparigas que coloriam os olhos e usavam desodorizantes mais do que, porventura, o sabonete, criavam uma atmosfera muito particular que ainda hoje reconheço quando me desloco por aquelas linhas que as autoridades francesas, cientes de que muitos dos atuais visitantes da cidade as frequentam por nostalgia, persistem em manter “iguais” às dos anos vinte, no meu caso às dos anos 59/60. Hoje dá-me um jeitão meter-me num RER que me transporta diretamente ao aeroporto, mas nunca prescindo, durante a estada, de uma ou duas digressões utilizando as tais linhas “velhas”. Cada qual gere os caprichos dos seus fantasmas com o que acha ser melhor para eles. No que me respeita, o Metro de Paris diz-lhes muito.

 

O nosso homem em Paris

José Alexandre tornou-se emigrante em França sem ter passado pelos maus bocados que de uma maneira geral levam os indivíduos a deixar o país natal em busca de trabalho mais bem remunerado. Sua mãe, Maria Teresa, viúva, natural do Porto, estava ao serviço, em Lisboa, como governanta, do representante de uma companhia norte-americana de aviação que, ao ser transferido para França, insistiu em levá-la consigo pelas suas qualidades humanas e capacidade de trabalho. José acabou por se juntar à mãe, logo que ela encontrou condições para o mandar ir, tratando-se, além do mais, do seu único filho. Quando nos abraçámos na Gare de Austerlitz, José era já um parisiense de adoção que dominava fluentemente a língua francesa e se movimentava na cidade luz com invejável à vontade. Aprendi com ele, logo à chegada, que dirigir aleatoriamente um piropo a uma mulher bonita em plena rua, não só não constituía ofensa como implicava réplica sorridente e bem-disposta. Hábitos diferentes predominavam na pátria, onde “mulher honesta não tem ouvidos”.

José acabava de perder o emprego mas recebera uma módica indemni-zação. Ou seja: tinha argent de poche para despesas gerais e tempo para me levar à descoberta da Paris monumental: Notre Dame, Invalides, Torre d’Eiffel, Louvre, etc. e sítios com outro tipo de fama, Folies, Pigale, e zona circunvizinha da Tour de Saint Jacques, por onde circulavam as raparigas do trottoir em busca de clientes para o desempenho da mais antiga profissão do mundo, daquelas a que o nosso José Cardoso Pires chamaria mais tarde num dos seus livros, muito educadamente, meninas de civilização, e cuja utilidade Jorge de Sena encareceu assim: “Se não fossem elas, ai dos pobres e dos velhos”.

Retive a informação para o caso de vir a ser necessária.

Júlio e Alexandre no Chaillot

No Quartier Latin descemos a um autêntico caveau, só para ver como era. “Moravam” lá os existencialistas, dizia-se. Vimos gente “normal” e dois ou três americanos, nada mais. (Ainda não tínhamos cultura para ir em peregrinação ao café Flore ver se estava lá o filósofo estrábico e a sua Castor). Emoções fortes só pela madrugada, com consumo obrigatório. Nós andávamos a contar os tostões, procurávamos distrações baratas, se possível à borla. Deambular pelos grandes “magasins”, por exemplo. Nas Galerias Lafayette um turista basbaque, português, deliciado com a largueza do estabelecimento, o frenesim das compras e o prodígio das escadas rolantes, comentava a nosso lado: “Isto é que são lojas.” Empregadas lindíssimas dirigiam-se-nos num francês musical. Fartei-me de ouvir: “Est-ce-que vous êtes italien?” Sintomático. Em matéria de engates, os italianos não deixavam os seus créditos por mãos alheias. Estavam sempre a ser recordados.

 

Nouvelle Vague, De Gaulle, Les Halles, Franco novo

Já ouvira falar da Nouvelle Vague, mais associada ao livro-escândalo de Françoise Sagan Bonjour Tristesse do que à estreia do miúdo Jean Pierre Léaud num dos filmes que inaugurou a nova vaga cinematográfica (À Bout de Soufle, de Godard, palma para o melhor realizador, em Cannes) sendo que nesse ano se assinalava o arranque imparável do grupo formado por Chabrol, Truffaut, Godard, Resnais, Rhomer, etc., para uma nova era do cinema francês. Outros acontecimentos faziam efervescer Paris: De Gaulle encontrava-se ao leme da recém-inaugurada V República francesa e preparava o documento que viria a conferir aos argelinos o direito à autodeterminação. Era decidida a demolição de Les Halles, o grande mercado que só no início dos anos setenta seria deitado abaixo. (Conheci Les Halles em três versões: o velho mercado grossista, o “buraco” onde foi rodado o filme Não Toquem na mulher branca, de Marco Ferreri [1973] e o atual Centro Comercial). O franco, velha moeda, seria substituído pelo nouveau franc em 1960; na ocasião estava-se em período experimental, com o inusitado espetáculo das montras das lojas exibindo os artigos marcados com dois preços, folclore monetário que só tivemos entre nós quando da adesão ao Euro.

Neste olhar retroativo por umas férias de revelação e pueris espantos haveria lugar para recriar um desfile de celebridades se eu para aí tivesse estado virado. Um dos entretenimentos de certos parisienses era postarem-se em frente aos portões, a conveniente distância, do Eliseu, para do seu ponto de vista reconhecerem figuras de alto estatuto com direito a fotografia nas primeiras páginas dos jornais. Mesmo que não fossem capazes de as discernir, no pátio, quando das chegadas e partidas, sempre os carros oficiais, ao passarem por eles lentamente para o rápido agradecimento visitante ao agitar de bandeirinhas, lhes proporcionava o instante mágico com que enriqueciam o seu álbum de recordações, podendo dizer a familiares e amigos: Eu estava lá quando… Enfim, coleções e colecionadores há-os para todos os gostos. Eu estava lá, sem bandeirinha, quando o Ben Gurion deixou o palácio. Por mero acaso. Vi o homem de perto, ficou visto.   

Reparei, igualmente, que os franceses levavam a sério coisas tão triviais como as canções e uma delas ouvi cantalorada por gente vária; intitulava-se Scoubidou e era criação de um rapaz que eu conhecia de ter passado por Cascais: Sacha Distel.

 

O senhor Scoubidou

Este Distel, músico e artista de variedades, como então se dizia, não possuía dotes vocais de exceção (aliás a sua reputação musical vinha de ser um competente guitarrista e compositor de canções ligeiras de receção fácil por um público predominantemente feminino e, finalmente, um charmeur de se tirar o chapéu) mas conseguira levar ao castigo Brigitte Bardot, ícone mundial depois de E Deus criou a Mulher, despida na tela pelo realizador e então marido Roger Vadim, e isso constituíra um feito assinalável dentro e fora do universo da bisbilhotice “rosa”. Era, na altura, o namorado oficial, mas terá recusado um convite de casamento da parte da vedeta. E quando Sacha Distel esteve no Casino Estoril, contratado para apresentar cançonetas, a sua reputação estava no auge, sim, mas por dormir com a mulher com quem o grosso dos homens do planeta sonhava partilhar travesseiro e lençóis.

Lá entrevistei o dito cujo para o jornal local mas não pude acompanhar o texto com a manchete desejada – a censura jamais o permitiria. Chegado a Paris, apercebi-me de que o discreto cantor que não deslumbrara o Estoril desfrutava de uma populari-dade imensa exclusivamente pelo seu trabalho e até a canção Scoubi-dou, o grande sucesso da criatura, se tornou a minha mais estável referência musical da Paris-59.

Sacha Distel entrevistado por Júlio Conrado

À canção, servida por uma letra pateta, singularizava-a uma rítmica estimulante. Ficou-me no ouvido e sempre que a oiço no You Tube nunca deixo de a relacionar com o meu debute parisiense Podia ter sido melhor? Foi o que se pôde arranjar. Ainda dou por mim, de vez em quando, a assobiá-la como quem não quer a coisa.

Quanto ao artista, já lá está desde 2004. Na sua morte, pensei que o não deveria chorar. Levara o papo cheio. Corrigi essa leviandade ao ler recentemente o livro de sua legítima mulher, Francine Distel, O amor não é simples. Comovente. Uma vida de prazer e de prazeres fora dolorosamente custeada pelo artista com um sofrimento atroz nos dois últimos anos, em luta contra um cancro. Combate que ele enfrentou com grande coragem. Afinal, gostei de o ter conhecido. E também de ler Francine Distel, antiga campeã de ski, a retaguarda ideal para este cidadão do mundo e que com o seu livro humanizou a lenda um tanto frívola do cantor romântico que frequentara, entre vários outros igualmente famosos, o leito da Bardot. 

 

Namoros voláteis

A perseguida

Em 59 era uma absoluta miragem que pudesse vir a participar numa cena como as dos filmes (talvez algum protagonizado pelo Eddie Constantine, por aí). Aconteceu-me coisa parecida mas sem câmara nem operador a captar imagens. Nos primeiros oito dias tinha aprendido com o Alexandre a movimentar-me com desembaraço nos novos sítios, aprendizagem que me consentiu, a partir de então, deslocar-me sozinho usando e abusando dos transportes públicos, aptidão que viria a revelar-se muito útil quando, na segunda quinzena, fui deixado em roda livre na cidade devido ao facto de o meu amigo ter voltado a arranjar emprego, aproveitando eu para me familiarizar com a baguete e o queijo – instituições francesas – porquanto Maria Teresa só me garantia (e não era pouco, deuses) o pequeno almoço e o jantar. Nessa tarde (fim de tarde? lusco-fusco?) tomei o Metro na estação Terme e fiquei na plataforma. Durante a paragem, uma beldade tipo Anna Karina, de ar assustado, entra e abraça-me com energia, beijando-me avassaladoramente. “Chiça, que isto aqui vale tudo!”, devo ter pensado. Ou então fiquei em estado de choque, sem nada pensar. Apercebi-me, no entanto, de que vinha a ser perseguida por dois homens (polícias, assediadores sexuais, larápios, ajuste de contas político?) tendo um deles conseguido impedir que o dispositivo automático da porta funcionasse. Ainda o ouvi dizer: Oh, la vache s’échape. Como o segundo perseguidor tivesse entretanto notado que a jovem encontrara o “namorado” (é a leitura que faço do assunto) conseguiu persuadir o parceiro a desistir de continuarem no seu encalço, puxando-o e deixando que a porta se fechasse. A composição pôs-se finalmente em marcha. A minha história devia ter acabado nesse ponto, talvez com um pedido de desculpa, sei lá, por parte da desesperada fugitiva. Não acabou. A rapariga achou-me digno de uma recompensa. Refinou na entrega, no beijo, na volúpia, até à paragem seguinte. Quando a carruagem se imobilizou, segurou-me a cabeça e, mergulhando nos meus os seus olhos esmeraldinos, espelhados por lágrimas suspensas, como que a advertir-me de que deveria guardar bem guardado na memória os instantes de antologia com que acabava de me honrar, disse:

 – Merci.

Logo a seguir, saiu a correr.

Não, não era a Anna Karina em pessoa. Não se trata da sequência de um filme de crime e castigo nem de uma peça de ficção. Falo de uma história verdadeira cujas causas, verdade se diga, me passaram completamente ao lado.

É por esta e por outras que suporto alegremente o fedor a pneu queimado e a papel velho que ainda se faz sentir nas referidas gares do Metro como um souvenir de boa memória quando por lá passo. Cheiros? Aromas, imagino.

 

A rainha do baile

Ainda as raparigas caídas do céu aos trambolhões. Como era próprio da nossa idade, eu e o Alexandre fomos a um baile público como a juventude actual vai a uma discoteca.

Apesar de jovens e apresentáveis, cedo compreendemos que as pessoas estavam mais ou menos emparelhadas, sobretudo as que ocupavam as mesas em torno da pista de dança e se conheciam umas às outras. Só por um grande bambúrrio sobraria alguma coisa para nós. Isto hoje está fraco. Não vai dar nada, futurou José. Ficamos um bocado a ouvir música, depois raspamo-nos. Nada tinha a opor, ele é que sabia da poda. Chegámo-nos para o pé dos músicos. Mostrou-se mais interessado na música, eu mais atento à dança, de olhos postos no par que evoluía languidamente na pista, ela de rosto colado ao dele e a fazer-lhe festinhas bichanosas na nuca. Ao passarem por mim in love os olhos dela focavam-se nos meus e exorbitava nas carícias ao par. Era bela e sexy. Mil vezes desejei estar na pele daquele tipo. Era uma dupla fixa. Alguns pares desfaziam-se e refaziam-se com diferentes dançantes, mas aquele era coeso e perdurava na pista sem mudanças. Mantinha-se também o cruzamento dos nossos olhares, do lado dela já acompanhado de um breve sorriso (seria para mim? ou para ela própria?). Num dado instante a música parou e o homem com quem dançava saiu da sala. Aproximou-se de mim e disse: Dança comigo. Dançámos e recebi tratamento idêntico ao prodigalizado ao outro. Outro que regressou, reivindicando o seu lugar sem oposição do objeto do nosso desejo. Contabilizei uns minutos de felicidade sem perceber o que se tinha passado. Se fiquei perplexo? Perplexo é dizer pouco. Siderado. Soa melhor. 

José  explicou:

Não quis interromper o aquecimento do motor.

Não me lembro se foram exatamente estas as palavras proferidas pelo  José Alexandre. 

Se não foram, passam a sê-lo a partir de agora.

 

As secretárias

As duas moças que trabalhavam como secretárias num escritório da rua de la Boetie tinham preocupações com a linha e ocupavam a sua hora de almoço a passear pelos jardins que confinam com a Praça da Concórdia e os Campos Elísios, de estômago vazio e sentidos apurados, à espera de um ensejo para se divertirem. Cruzaram-se connosco. Alexandre quis mostrar-me mais uma vez como é que se fazia. Meteu-se com Josette e às tantas comigo e com Lucette formou-se grupo para uma conversa pegada. De aí a nada tínhamos separado as águas: José “ficara” talvez com a mais bonita e eu, seguramente, com a mais sensual. Seríamos todos “comprometidos”, nós com as noivas portuguesas longe da vista (mas não do coração, como veio a provar-se) e elas com os seus invisíveis namorados noturnos. Inventámos ali um quarteto cúmplice na fruição de pequenos prazeres em que não havia crime porque as leis e os hábitos locais promoviam o encontro, não o distanciamento. Isto é: o que fizemos com elas e elas connosco em pleno jardim não foi nada de irremediavelmente grave mas se fosse em Lisboa teríamos ido parar à esquadra e responder por atentado ao pudor na via pública.

E assim as secretárias quebraram durante uma dezena de dias as suas rotinas de hora do (não) almoço, e nós gozámos a vida sem gastar dinheiro – preocupação maior porque as massas do José Alexandre ameaçavam dramatica-mente chegar ao fim e novo emprego já o aguardava.

Palavras de Lucette para a história: - Ainda bem que vivo num país em que cada um pode fazer o que lhe apetece.

Paris, 1959

Quinze anos depois anos também em Portugal atingiríamos esse estádio. E até, porventura, o ultra-passámos – pela esquerda, pelo centro e pela direita. Valeu tudo.

 

Paris ida e volta

Um dia, já na fase literária, tive a sorte de me cair nas mãos uma das primeiras edições de Filhas de Babilónia, de Mestre Aquilino Ribeiro. Foi grande o entusiasmo posto pelo jovem Aquilino na reconstituição da leviana Paris dos anos dez precedida por uma viagem em ferrocarril no decurso da qual se sucederam peripécias dignas de serem passados a escrito.  À antiga edição perdi-lhe o rasto. Como agora me seria útil dispor desse exemplar em vez da reedição do texto de 1920 já remanejado pelo romancista na edição de 1925 (N. do A. a João de Barros: Desprezando fascículos inteiros e ajuntando páginas novas, foi empenho meu reforçar numa das novelas a análise psicológica do envelhecer – análise unilateral, confesso-o de antemão – e pôr uma tinta mais suave nos “estudos de mulher”, como se diz na arte de pintar) a meu ver apresentando um défice de frescura e de poder encantatório em relação ao livro desaparecido que me desapontou bastante. Trata-se da novela Os olhos deslumbrados  que inaugura a coletânea Filhas de Babilónia.

Claro que poderia sempre encontrar na B. N. o exemplar pretendido ou vasculhar alfarrabistas, mas teria de abrir mão do tempo e da paciência que me são agora tão caros, pelo que servir-me-ei da edição comemorativa do centenário do nascimento do escritor (Bertrand Editora e Círculo de Leitores, 1985) de modo a ilustrar uma perspetiva do que julgo encaixar com justeza no quadro de incertezas e premonições que o léxico do criador de Quando os Lobos Uivam poderosamente amplifica.

Atente-se então no “estudo de mulher” e na “análise psicológica do envelhecer” fechados na moldura de uma viagem de comboio de longa duração.

Desde logo o tempo da história e o tempo da história contada criam como que a sensação de uma narrativa em tempo real. Na remanejada novela aquiliniana a viagem é extensa, densa e demonstrativa de como a demorada clausura, mesmo voluntária, desperta apetites, gera desnortes de vontade, mexe, no caso, com dois seres – ele e ela – atraídos um pelo outro e que esbarram – esbarram? – na vigilância do pai dela ao ponto de não poderem entregar-se, sequer, a fugidias carícias, e também no ensaio sobre a velhice que impede a parte masculina de pelo menos tentar cumprir o seu papel. A paixão platónica não é a desejada mas é a possível na circunstância.

Com efeito, Aquilino desoculta, com requintada ironia, o desgaste do esmalte relacional, protetor dos segredos dos passageiros transfigurados pela jornada maçadora até estes se renderem às mais rasteiras confidências. Confabula uma história de amor impossível, sobrecarregando as tintas cinzentas na mente do protagonista, cuja idade de trinta e oito anos pesa no “romance” como uma maldição desmedida. Um pouco mais de ousadia e auto conhecimento das capacidades do homem no limiar da idade madura para usar a sua sabedoria como ferramenta de fascínio na atividade nínfica e ao pobre viajante afastado, pela sua própria timidez, do palco a que aspirava subir, outra sorte sorriria.

Enquanto elucubra sobre o “envelhecimento” o eu da história descreve e historia os lugares por onde o comboio vai passando. No escuro, atravessa-se a Meseta e não faltam alusões à “presença de Espanha” mas é a jovem Genoveva (a criança que se mata por que eu a tome por uma mulherzinha) e que, ainda por cima, o conhecia como escritor, aquela que lhe dilacera os pensamentos (Que idade tem? Doze, quinze, dezassete anos?).

Se bem atentarmos, até nem é o extremoso pai, conversador eloquente, culto, arquiteto com papel de carta armoriado, o principal obstáculo a aproximações menos relutantes, mas sim a crise andropáusica do narrador-protagonista, o que tolhe o desenvolvimento positivo do “caso”. O fator idade ergue um muro psicótico entre ele próprio e o objeto da sua assolapada afeição que remete para plano inferior, quase inofensivo, o zelo paterno na proteção à gazelita predisposta – subentende-se – a facilitar avanços ao madurão. Na prática, trata-se de um mini tratado de timidez de alguém que “confrangido” na sua “carcaça avelhentada”, sente o terror do interesse em si da Madona de Minardi “em que é tão temerário assegurar a criança como entrever a mulher.” Mas afinal o que se passa com este trintão, que apesar de ter conhecido uma adolescência reprimida, está de regresso a Paris e já amou “uma ou duas dúzias de mulheres?” Fará a rábula da timidez inteiro sentido?

Genoveva, a Lolita improvável de Os olhos deslumbrados, não chegará a descobrir na fuga do amante virtual, à chegada a Paris (ele apeia-se precipitadamente em Austerlitz, defendendo-se com uma desculpa esfarrapada, antes da estação terminal, Quai d’Orsay) o que realmente o afastou de procurar aceder às suas indulgências: o medo.

Medo foi sentimento que Vladimir Nabokov não experimentou ao criar em 1955 a sua fenomenal Lolita e o seu obstinado, “velho” e lúbrico Humbert, que não hesitou em casar com a mãe para chegar à filha.

Pode especular-se se Aquilino não teria sido capaz de preceder o célebre escritor russo americano em trinta anos se a sua personagem masculina não se acobardasse e em vez de descer em Austerlitz o tivesse feito no Quai d’Orsay.

 

A que veio este arrazoo sobre a novela de Aquilino se não só não me revejo nas angústias do agrilhoado sedutor como jamais vivi um problema semelhante ao daquele encanecido precoce? A viagem, em si. Aquilino descreve magistralmente, com o nervo do grande repórter, a sensibilidade do criador notável e a excelência do seu vocabulário, a atmosfera pressionante da viagem e a influência daquela na metamorfose comportamental dos passageiros, no seu deletério fascínio mesclando oportunidades, cansaços e fugas transgressoras. O novelista observa, de humor salgado em riste, a anulação das distâncias sociais à medida que as pessoas vão sendo supliciadas pelos incómodos da longa jornada ferroviária. Reconheci esse ar pesado, sim, quando li e reli Os olhos deslumbrados uns anos depois do meu primeiro Paris ida e volta

À ida tocou-me na rifa uma feiosa trintona francesa que se divertiu mais comigo do que eu com ela. No regresso vivi um namoro tórrido entre Irun e Salamanca no corredor da carruagem com Anne D., de Orleães (ela não conseguira lugar no compartimento e a sua mala foi a espaços o nosso assento) enquanto nos lugares sentados, à janela, a portuguesa Maria e o português Ernesto eram também vítimas do ambiente desmanchado, de deslaçamento, propício ao romance de recurso para minimizar aquilo a que chamaríamos hoje o stress.

Entre o Entroncamento, onde o Ernesto ficou, e Santa Apolónia, eu e Maria ainda ensaiámos conversa.

Mas ao apearmo-nos na estação lisboeta cada um de nós estava mortinho por chegar a casa.

 

Júlio Conrado. Ficcionista, ensaísta, poeta . Olhão, 26.11.1936 . Publicou o primeiro livro de ficção em 1963 e o primeiro ensaio na imprensa de âmbito nacional em 1965 (Diário de Lisboa). Exerceu a crítica literária em vários jornais diários de referência e em jornais e revistas especializados como Colóquio Letras, Jornal de Letras e Vida Mundial. Participação em colóquios e congressos internacionais. Participação como jurado nos principais prémios literários portugueses. Membro da Associação Portuguesa de Escritores, Associação Internacional dos Críticos Literários, Associação Portuguesa dos Críticos Literários e Pen Clube Português. A sua obra ensaística, ficcional e poética está reunida numa vintena de livros. Alguns livros e ensaios foram traduzidos em francês, alemão, húngaro e inglês.

Ver bio-bibliografia alargada em:

http://penclube.no.sapo.pt/pen_portugues/socios/julio_conrado.htm

 

 

 

 




 



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