JÚLIO CONRADO

Foto de Valter Vinagre

Bilhete postal para Maria Isabel Barreno (1939-2016)

 

Os escritores da minha geração estão a despedir-se.

Desta vez foi Maria Isabel Barreno, para muitos uma das célebres “Três Marias” das Novas Cartas Portuguesas que escreveu com Maria Velho da Costa e Maria Teresa Horta, para mim isso mais a notável autora de Crónica do Tempo, quem acrescentou o número daqueles que “por obras valerosas se vão da lei da morte libertando” (verso e épico sempre muito recordados nestas ocasiões).

Não fui um estudioso da obra de Maria Isabel Barreno, apenas um contemporâneo atento a vários dos seus trabalhos. Quis porém o acaso que, por indicação do Centro Português da Associação Internacional dos Críticos Literários, eu tivesse feito parte do júri do Prémio Fernando Namora, de 1991, criado pelo Casino Estoril para homenagear a memória do romancista de Domingo à Tarde, prémio que ainda subsiste, tendo aparecido a concurso um livro intitulado Crónica do Tempo ao qual eu já dedicara um comentário crítico no Jornal de Letras. Era então supervisor do Prémio e membro do júri pela entidade promotora, Nuno Lima de Carvalho.  

Bati-me energicamente pelo livro e a sua consagração como obra vencedora fez-se por unanimidade. Nem o júri era frouxo, nem a concorrência fraca. Basta referir que estavam a concurso obras de José Saramago (História do Cerco de Lisboa), Teolinda Gersão (O Cavalo de Sol), Fernanda Botelho (Festa em casa de Flores) e Mário Cláudio (Quinta das Virtudes), isto é, a nata da literatura portuguesa da época.

Dois ilustres escritores estrangeiros assistiram à cerimónia de entrega do prémio: Jorge Amado e sua mulher Zélia Gattai.

Creio que só voltei a cruzar-me com Maria Isabel Barreno no ano 2000, no Salon du Livre, em Paris. Teve então a amabilidade de me citar no folheto de apresentação da sua biobibliografia. Uma senhora.

Deixou-nos a 3 de Setembro.

É curioso observar a desenvoltura (para não dizer leviandade) com que MIB foi rotulada de feminista por alguns dos especialistas que lhe redigiram o obituário. Respigo de uma entrevista que a escritora me deu para o Jornal de Letras, publicada em 7/4/1992, algumas frases alusivas ao que ela pensava sobre a matéria:

“Fiquei associada ao feminismo a partir de Novas Cartas […] e com a adesão a movimentos que apareceram depois, embora, como lhe disse, eu não seja muito grupal.”

“Os grupos reduzem sempre as coisas. Tenho a certeza de que eles são necessários mas julgo que o mundo é mundo na medida em que as pessoas se completam umas às outras.”

“Umas pessoas têm jeito para grupos e outras não.”

“Eu, nos grupos, acabo sempre por achar que há coisas que são redutoras, que há comportamentos que não me interessam, que há tricas internas a mais, de modo que tenho muitas dificuldades em me integrar neles. Acompanhei de perto esses grupos, mas nunca fui membro a tempo inteiro.”

“Também A Morte da Mãe levou as pessoas a conotarem-me com o feminismo […] A minha ficção dessa fase andou sempre pela zona do irreal.”

Chão Salgado é uma metáfora relativamente a espaços que ficaram desertos e ninguém visita […] E assim regresso à literatura de tipo fantástico.”

Já agora o título da entrevista, a propósito da publicação de Chão Salgado, o livro que se seguiu a Crónica do Tempo: “Maria Isabel Barreno entre o realismo e o fantástico.”

Talvez este “Bilhete Postal” ajude alguém a corrigir ideias feitas recicladas em comentários apressados.   

 

RECTIFICAÇÃO 

No “Bilhete Postal” em que evoquei a figura de Serafim Ferreira consta uma inexactidão. Esclarece Liberto Cruz ter sido ele e não o autor de Litoral do Espanto, o responsável pela proposta de edição de O Pássaro Pintado, de Jerzy Kosinski, pela Ulisseia. Liberto precedeu Serafim como director literário da editora. O seu a seu dono.

Agradeço a Liberto Cruz a sua pertinente  informação.

            Júlio Conrado

 

 

Entrega do Prémio Fernando Namora 1991 a Maria Isabel Barreno,
no Casino Estoril

Júlio Conrado. Ficcionista, ensaísta, poeta . Olhão, 26.11.1936 . Publicou o primeiro livro de ficção em 1963 e o primeiro ensaio na imprensa de âmbito nacional em 1965 (Diário de Lisboa). Exerceu a crítica literária em vários jornais diários de referência e em jornais e revistas especializados como Colóquio Letras, Jornal de Letras e Vida Mundial. Participação em colóquios e congressos internacionais. Participação como jurado nos principais prémios literários portugueses. Membro da Associação Portuguesa de Escritores, Associação Internacional dos Críticos Literários, Associação Portuguesa dos Críticos Literários e Pen Clube Português. A sua obra ensaística, ficcional e poética está reunida numa vintena de livros. Alguns livros e ensaios foram traduzidos em francês, alemão, húngaro e inglês.

 

 

 

 




 



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