JÚLIO CONRADO

Foto de Valter Vinagre
Castro de Vigo*

            À memória de Dulce Matos

A baía contemplada desde o relvado em círculo do Castro de Vigo

sob uma luz de junho isenta de sombras

hostis ao esplendor diurno,

surpreende o visitante inédito

pela ambição de espaço e de paisagem que ele ali descobre.

 

Vindas do interior do Castro

isto é: do lado sombrio da História,

cento e trinta e seis vozes do coro dos fantasmas

assombram com gritos

(sonoros nas palavras lapidares)

toda aquela encenação

em prol da hegemonia das cores fulgurantes.

 

Cento e trinta e seis gritos e disparos

devolvem subitamente o forasteiro

à insuportável melancolia  das trevas.

 

A baía de sonho contemplada do Castro

celebra a volúpia ociosa do mar de junho

 rente à presença intemporal da infâmia

e do eco, para sempre obstinado, do seu ruído.  

 

Tudo tão longe e tão perto.  

 

                                                           Vigo, 26/ 6/2016

 

*A tertúlia lisboeta Cais de Culturas, criada por Dulce Matos (1938-2009) em 1995, também conhecida por Tertúlia d’A Valenciana por ser no restaurante com este nome que promove uma vez por mês jantares temáticos, organizou uma reunião na Galiza, cumprindo-se assim, sob coordenação de Graça Nunes, um desejo da malograda fundadora.

Uma representação de nove pessoas deslocou-se a Vigo em 25 e 26 de Junho passado, cabendo ao Centro Português de Vigo a orientação da estada dos portugueses no lado galego.

O principal orador na sessão da noite de 25, Bernardino (motorista, historiador, cicerone, orador de verbo fácil – do coloquial ao erudito – e privilegiado por memória e sabedoria notáveis) dissertou acerca de raízes históricas comuns para centrar depois a sua intervenção no tema Os Museus de Vigo.

A fotografia reproduz a lápida que no Castro de Vigo inspirou o poema acima. J. C.

Júlio Conrado. Ficcionista, ensaísta, poeta . Olhão, 26.11.1936 . Publicou o primeiro livro de ficção em 1963 e o primeiro ensaio na imprensa de âmbito nacional em 1965 (Diário de Lisboa). Exerceu a crítica literária em vários jornais diários de referência e em jornais e revistas especializados como Colóquio Letras, Jornal de Letras e Vida Mundial. Participação em colóquios e congressos internacionais. Participação como jurado nos principais prémios literários portugueses. Membro da Associação Portuguesa de Escritores, Associação Internacional dos Críticos Literários, Associação Portuguesa dos Críticos Literários e Pen Clube Português. A sua obra ensaística, ficcional e poética está reunida numa vintena de livros. Alguns livros e ensaios foram traduzidos em francês, alemão, húngaro e inglês.

Ver bio-bibliografia alargada em:

http://penclube.no.sapo.pt/pen_portugues/socios/julio_conrado.htm

 

 

 

 




 



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