JÚLIO CONRADO.
A SAGRAÇÃO DA PRIMAVERA
A cantilena dos pássaros empolgados

habitando as copas das árvores

ou desenhando severas coreografias nos céus

recorda a todos o tempo em mutação.

 

Ao alerta estridente

moças de seios empertigados

e rapazes de porte generoso

restituem às praças os tons da sedução.

 

O reportório dos pássaros

é pacientemente escutado

enquanto o ciclo do azul

instala os hálitos mais nobres.

 

Esta é a versão bucólica da coisa:

a orgia dos trinados

e os dias de bafo morno

saudando a estação jovem.

 

 

A outra, tem a ver

com a flatulência dos pássaros:

os seus distúrbios gástricos

os seus peidos

as suas descargas

sobre carros, calvas, carcaças várias,

gentis anúncios, nada furtivos,

por via anal

de longuíssimas tardes soalhentas

e tépidas noites.

 

Flores de trampa alada

na sagração da Primavera.

2005
 

 

 

 




 



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