JÚLIO CONRADO...

Latitudes, Cahiers Lusophones / Triplov

Encontro em Paris com Nadine Vasseur
Uma breve passagem por Paris, por ocasião da realização do Salon du Livre, deu-me o ensejo de conversar um pouco com Nadine Vasseur sobre o livro de que saíra um comentário meu na Revista Latitudes e que Triplov nesta edição reproduz. No bar de um hotel local trocámos algumas impressões sobre Eu não lhe disse que estava a escrever este livro, em que Nadine Vasseur é inquiridora e inquirida, dado que passa também pelo seu depoimento a indagação que conduziu. Em Portugal o livro teve, até ao momento, recepção discreta mas em França o jornal Le Monde dedicou-lhe um extenso artigo.

A edição portuguesa de Eu não lhe disse que estava a escrever este livro aparece com a chancela de Pedra da Lua, uma editora recente que, no entanto, já é responsável pelo lançamento no mercado português de meia dúzia de títulos de choque. Em todo o caso, não deixou de ser surpreendente descobrir, ocasionalmente, numa livraria, um livro de Nadine Vasseur versando um tema sempre candente: o Holocausto, agora do ponto de vista dos filhos dos sobreviventes, como é o seu caso.  

Não sei como se passaram as coisas com a edição portuguesa – ainda não me chegou às mãos qualquer exemplar. Creio que um agente terá comprado os direitos e negociado directamente com a editora portuguesa. Em França, o livro suscitou muito interesse, sobretudo a partir de um extenso artigo publicado no jornal Le Monde. O livro chamou a atenção das pessoas ligadas ao estudo do Holocausto mas também de outro extracto de leitores, que se sente atraído pelo tema por curiosidade ou por vontade de aprender, de se esclarecer.

Ao escrever este livro foi motivada por espírito de missão, militância?

Espírito de missão? Militância? Não, de maneira nenhuma. Um dia, trocando impressões com alguém, foi-me sugerida a ideia de escrever um trabalho com estas características, porquanto as gerações directamente sacrificadas começavam a desaparecer e havia que auscultar as gerações seguintes, de descendentes, sobre o modo como tinham lidado com a situação. A existência de investigação, publicada, deste tipo, noutros países, nomeadamente a Alemanha e os Estados Unidos, fez com que ressaltasse a lacuna de não ter sido publicada em França obra semelhante. Na realidade, não houve nenhuma ideia preconcebida, militante, mas sim um inquérito que se foi desenvolvendo à medida que eu ia recolhendo os depoimentos e que acabou por justificar, pela sua raridade em França e pela riqueza dos testemunhos, a sua edição em livro.

Diz no livro ter recorrido a memórias escritas, de seu pai.

Na parte que me diz respeito, sim, pude elaborar o meu depoimento a partir das memórias escritas de meu pai. Nunca tinha ouvido dele palavras sobre a sua vida, e quando um dia lhe disse que tinha publicado um (outro) texto em que aludia ao tema, ficou furioso e deixou de me falar durante vários meses. Depois reconsiderou e aceitou, já com idade muito avançada – tem presentemente 92 anos – que o assunto devia ser transmitido de pais para filhos e destes para netos, para que não fosse alheio às gerações vindouras o que se passou, pelo que se resolveu a escrever as suas memórias, de que eu aproveitei muitíssimo.

Da leitura do seu livro emerge a ideia de que o silêncio dos pais relativamente aos filhos foi uma forma de os poupar a relatos pungentes. 

Há pessoas a quem os pais falaram, outras que se remeteram ao mais completo silêncio como forma de proteger a inserção dos filhos na sociedade. Esse silêncio, porém, acabaria por suscitar a curiosidade e a vontade de saber por parte daqueles a quem tinham sido ocultados os factos. Ao mesmo tempo que privavam a descendência do conhecimento, falavam uns com os outros sobre o que acontecera e deixavam passar algumas inconfidências que nos perturbavam. No geral, tratava-se de homens e de mulheres que haviam testemunhado sobre o que se passara nos campos e para quem era insuportável falar de semelhantes coisas aos filhos. Era preciso saber, tínhamos desejo de saber mas não podíamos saber. Foi muito complicado.

O seu livro, no entanto, põe os intervenientes a falar, aparentemente sem problemas, acerca de questões que se evitava abordar.

Na última década passaram-se muitas coisas em França que libertaram a palavra. Quero eu dizer que aquilo de que as pessoas evitavam falar, ocultavam, disfarçavam, com a visibilidade que as coisas tomaram a partir das comemorações da Libertação, conferências, emissões de televisão, filmes, etc., tornou-se mais fácil para elas poderem finalmente contar as suas experiências. Esse estado de espírito permitiu-nos, a nós, pessoas de cinquenta, sessenta anos, cujos pais eram portadores de uma memória única do passado, reflectir em conjunto, neste livro, sobre as nossas próprias vidas dando ao mesmo tempo voz ao drama que sempre acompanhou aqueles enquanto sobreviventes dos campos. No que, notadamente, ao meu pai respeita, julgo que ele neste momento está muito contente com o que fiz.

O silêncio paterno foi também uma forma de proteger socialmente os filhos?

Foi preocupação dos nossos pais que levássemos uma vida muito dentro da legalidade, muito francesa, digamos. Era-lhes doloroso que pudéssemos ser molestados em função das nossas origens. Quiseram para nós um futuro perfeito, feliz. E isso passava por calarem as suas angústias e as suas memórias. Eu penso que as crianças estavam completamente disponíveis para apreenderem a maldade do mundo, o que homens são capazes de fazer a outros homens, p. e., mas ao mesmo tempo dispondo de uma incrível energia para perceberem que era preciso fazer alguma coisa das suas vidas. Há muitas pessoas com marcas de números nos braços, tatuagens que constituiram para os respectivos descendentes uma primeira recordação inquietante, misteriosa.    
          
A conversa com Nadine Vasseur abrangeu ainda um outro livro seu, Le Sentier, no qual escreve a história do bairro – o sentier – onde nos últimos cinquenta anos se marcou o ritmo da moda. Aí se criaram, manufacturaram e divulgaram os modelos mais representativos do têxtil parisiense, designadamente o famoso prêt a porter. O pai de Nadine pôde refazer a sua vida no sentier, evoluindo da profissão de alfaiate para a condição de próspero empresário do sector.

Júlio Conrado    
Março de 2009

Eu Não lhe Disse que Estava a Escrever este Livro
Nadine Vasseur


Editora Pedra da Lua, Colares
Colecção PARA QUE CONSTE
Tradução:
Lúcia Liba Mucznik

158 páginas

Júlio Conrado. Ficcionista, ensaísta, poeta . Olhão, 26.11.1936 . Publicou o primeiro livro de ficção em 1963 e o primeiro ensaio na imprensa de âmbito nacional em 1965 (Diário de Lisboa). Exerceu a crítica literária em vários jornais diários de referência e em jornais e revistas especializados como Colóquio Letras, Jornal de Letras e Vida Mundial. Participação em colóquios e congressos internacionais. Participação como jurado nos principais prémios literários portugueses. Membro da Associação Portuguesa de Escritores, Associação Internacional dos Críticos Literários, Associação Portuguesa dos Críticos Literários e Pen Clube Português. A sua obra ensaística, ficcional e poética está reunida numa vintena de livros. Alguns livros e ensaios foram traduzidos em francês, alemão, húngaro e inglês.

Ver bio-bibliografia alargada em:

http://penclube.no.sapo.pt/pen_portugues/socios/julio_conrado.htm

 

 

 

 




 



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