::::::::::::JÚLIA NÉRY:::::
Chegue a bunda pra lá!

Durante o percurso para a estação, vou compondo uma espécie de agenda masoquista de ideias a desenvolver no comboio. Pensamento puxa pensamento, e lá vêm, agarrados ao do trânsito enervante, o do preço dos combustíveis, o da interrogação sobre a capacidade do governo para implementar uma educação para racionalização dos consumos e fomentar as energias renováveis. A palavra energia trouxe a questão do nuclear porque sim ou porque não, esta a do excesso de população e o caso de Portugal ser um país idoso. Ao entrar no comboio, vinha com uma lente de aumentar o mau e outra de diminuir o bom, ao que chamo mau humor.

Em S. João do Estoril, a carruagem encheu-se de jovens, escondidos sob mochilas volumosas que avançavam empurrando, sem ao menos um dá licença? Carregam os saberes mas quantos deles vão ser parte dos quatrocentos e oitenta cinco mil que deixa a escola antes de terminar o 12º ano?

Sobre um dos bancos mais à frente, vi uns ténis cruzados, balançando junto à saia incomodada da passageira do lado, que disse qualquer coisa. Eu só ouvi a resposta do rapaz, molhada pelo mascar da pastilha: Melhor que bunda, né? Chegue a bunda pra lá! Uma onda de indignação trouxe-me uma recordação recente. Um homem trémulo e curvado entrara no consultório, sendo recebido com um Senta-te e espera a tua vez! Estas palavras, tinham elas certamente arranhado a dignidade do idoso, agoniaram a minha boa educação. Refilona contra a acidez do meu reparo, desculpou-se a funcionária: que não, não fora falta de respeito o tratamento por tu, sim uma forma de carinho.

Não neste caso, sendo tal sentimento negado pela entoação imperativa. Respondi-lhe eu, ainda que duvidando ter ela entendido a minha observação.

Entrando no comboio em Oeiras, sentou-se ao meu lado alguém que não via há vários anos. Disse-me com ironia na voz que já chegara a geronte. Geronte? Um termo erudito que ele preferia ao eufemismo terceira idade, substituto de velhice nesta nossa época idólatra da juventude. Não fez o relato de doenças, tédios e solidão, habitual nas pessoas da sua idade, mas lamentou-se de não ter tempo para nada. O coro onde ensaiava três tardes por semana; o grupo de atletas que formara com garotos do bairro juntamente com um professor de Ginástica, as reuniões da Assembleia de Freguesia, nem lhe deixavam tempo para ler e vadiar por Lisboa, o que lhe dava imenso prazer. Relembrou poemas que disse em voz alta, talvez na ilusão de penetrar nos auriculares dos iPod e dos telemóveis, de poder entrar no ouvido dos jovens passageiros. Mostrou retratos de netos e bisnetos.

Esqueci o chegue a bunda pra lá! Cheguei a Lisboa com boa disposição quanto baste para enfrentar a cidade.  

JÚLIA NERY (Júlia Guilhermina do Nascimento Lopes Nery de Oliveira) nasceu no dia 28 de Outubro do ano de 1939, em Lisboa, mas de raízes beirãs. Viveu a sua infância num bairro popular da capital.

Gentes das Beiras e deste bairro da Graça, que tão bem conhece, serão protagonistas do seu romance Pouca Terra...Pouca Terra. Podemos dizer que se estreara na escrita aos doze anos, com colaboração regular no Suplemento República dos Miúdos do jornal República, onde publicou, entre outros textos, um romance em folhetim. Nessa mesma época, participava num Programa de Mário Lisboa, no Clube Radiofónico de Portugal.

Em 1960, obteve o Diplôme d’Études Françaises da Universidade de Poitiers e em 1964 concluiu a Licenciatura em Filologia Românica na Universidade de Lisboa.

Como cidadã, exerceu as funções de Deputada à Assembleia Municipal de Cascais (1976 a 1985).

No domínio profissional, desenvolveu actividades na área do Ensino, como docente e nas áreas da Formação de professores, da pedagogia e da investigação.

Dinamiza oficinas de Escrita Criativa para jovens e para professores.

Como Bolseira do Ministério da Educação, do Governo Francês e do Conselho da Europa, desenvolveu vários projectos de investigação que visam, especialmente, o conhecimento integrado nos domínios da didáctica, da pedagogia e da criatividade, tendo alguns trabalhos publicados, de que destaca a obra Na Casa da Língua Moram as Palavras(texto dramático e projecto de abordagens criativas dos conteúdos programáticos de Português, depois encenado com o título Viagem à Casa da Língua).

O Teatro

Fazendo uma pausa na escrita ficcional para poder aprofundar a sua formação no domínio da Expressão Dramática e da escrita de teatro, participou em vários workshops (Claude Wautelet, Elbio Sciarretta, Ken Byron, Gisèle Barret; Volker Ludwig, Lutz Hubner) e frequentou cursos de Dramaturgia e História do Teatro no Instituto de Formação, Investigação e Ciência Teatral, o Curso de Monitores de Expressão Dramática (Fundação Calouste Gulbenkian, João Mota).

Colaborou com o Teatro Experimental de Cascais, dando apoio dramatúrgico a espectáculos vocacionados para público escolar, tendo também realizado a dramaturgia da peça A Flauta de Pã, levada à cena pelo grupo Nós e Vozes.

Para teatro radiofónico escreveu Lubélia e Morte Computorizada, peças transmitidas na Radiodifusão Portuguesa (Antena2).

Deu colaboração regular ao programa O Linho e a Seda, com crónicas. (RDP).

Em 1994 é publicada a sua narrativa dramática O Plantador de Naus a Haver a que foi atribuído o Prémio Eça de Queirós de Literatura, 1994.

Em 1996, publica Do Forno 14 ao Sud - Express com Autos e Foral, peça levada à cena, no âmbito das comemorações dos oitocentos anos de foral da vila de Canas de Senhorim.

Em Setembro de 2002, Viagem à Casa da Língua, é levada à cena no Centro Cultural de Cascais. Outubro 2008 - Aquário na Gaiola, que define como teatro realista para jovens, é levada à cena pelo Teatro Experimental de Cascais, com encenação de Carlos Avilez. As palavras de Helloherói (2007) esperam encenador e actores para ser Acto. 

A Ficção

No ano de 1991, publica o romance O Cônsul.

Em 1998, concluindo um projecto de escrita que, pode dizer-se, a acompanhara sempre desde os seus primeiros anos de professora, publica o romance Valéria, Valéria.

Nesse mesmo ano, publica Infantas de Portugal, histórias ficcionadas de quatro infantas portuguesas.

O ano 2000 foi para a autora o momento da descoberta da Internet, entusiasmo céptico que exprime em WWW.Morte.com, publicado na colectânea de contos com o mesmo nome.

Em 2005 publica O Segredo Perdido. Terramoto de Lisboa de 1755.

Em 2008 publica Crónica de Brites.

Tem publicações dispersas em jornais e revistas, prefácios vários de que destaca o Prefácio de Contos para a Infância de Guerra Junqueiro.

 
 

 

 

 




 



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