Judite Maria Zamith Cruz

PSICOLOGIA DO AMOR ROMÂNTICO - II
O prodígio das histórias de amor na transformação humana

INDEX

2. Mito de amor platónico: «O Simpósio», onde a palavra «amor» foi a verdade

O outro mundo foi uma descoberta platónica.

A noção de amor com o significado de verdade pode ser encontrada também em Platão (429- 347 a. C.). Pela primeira vez, o conhecimento teve um alcance erótico. O espírito faria parte da Natureza que se digladiaria entre ordem e caos.

Em A República, Platão propôs-se agarrar a essência das coisas, precisamente pedindo ajuda à mente, «semelhante à realidade que se aproxima dela e se une com ela». No original «unir» significa syneimi, ou seja, «relação sexual» (1).

Em O Simpósio ou O Banquete (2) integrado em A República e outros Textos, ainda Platão se refere ao modo como a mente também se abstrai do corpo mortal, por recurso à ideia de Eros («amor sexual»). Mas, nessa comparação, Eros é entendido como «amor não físico», em que dois amantes se contemplam e se reflectem, projectando-se nas suas imagens, uma e outra vez… Nessa recorrente situação não sexual - imagine-se - a mente pode projectar a verdade do amor, por conflito e/ou por enigma, ampliando-se a «sublimação» (3) e a «resistência» (4) freudianas.

Freud (1856-1939) ainda foi quem reparou que a noção de sermos basicamente bissexuais decorre de textos hindus anteriores ao Simpósio em que os Deuses são hermafroditas e diz-se, provavelmente, Platão não terá sentido a «certeza» da sua identidade sexual (5).

Foi na referida obra de Platão que se apoiou a prática de pederastia (6), ou seja, a prática de relação sexual entre um homem e um rapaz.

Mais globalmente, O Simpósio retrata o entendimento do amor avalizado pelo mestre de Platão, Sócrates, entretanto falecido (7). O cenário é a casa de Agatão, um poeta dramático e anfitrião do célebre festim/simpósio em que os convivas, todos homens, ficaram a conversar até altas horas da noite.

As personagens do «ensaio filosófico» sobre a origem, natureza e significado/verdade do amor são destacadas figuras do meio ateniense: Sócrates, Aristófanes, o reconhecido comediógrafo de As Nuvens (8) e Alcibíades, um autêntico aristocrata, com qualidades e defeitos extremos, ambicioso e bonito general.

Vingou a posição de Aristófanes para os tempos vindouros: ambicionamos ser-com-outro(s), o que nem sempre se realiza.

O velho Sócrates ainda poderia ter argumentado a pertinência de uma concepção de amor etéreo, duradouro, quase perfeito e, na realidade quotidiana, improvável.

Aristófanes colocava, em alternativa, a origem do amor em termos alegóricos, mas autênticos – verdadeiros: ambicionamos ser-com-outro(s).

Nessa alegoria, o amor é colocado no tempo remoto em que os seres eram moldados com quatro braços, quatro pernas, duas caras e um corpo. Essa é a alegoria verosímil se pensarmos que queremos ser unos e a comprová-lo passa-se a expor a estória de O Simpósio:

Os primeiros entes humanos eram fruto da obra de Deuses jovens e eternamente belos. Foram, assim mesmo, construídos de forma diversa dos seus criadores: redondos, completos e integrais. Mas tinham duas caras... Foi quanto bastou, aliás, para que as divindades temessem ser passados para «uma segunda classe de seres», a partir do poder de controlo próprio e, por tal facto mesquinho, os Deuses cortaram os primeiros seres ao meio. Cada ser humano passou a possuir uma só cara e pares de membros robustos.

A revolta não se fez esperar mas, como seria de prever, fracassou. O prognóstico estava correcto. Era preciso mais do que duas metades idênticas, mesmo multiplicadas, para se haverem com os Deuses. Ainda assim, os novos seres «humanos» andavam melhor, corriam e saltavam a dois pés.

Insurgirem-se por serem unos levá-los-ia, por fim, ao júbilo pelo sorriso decorrente da nova vida alcançada, levada com alegria e ligeireza; mas a inquietude mais profunda assustou-os de novo: comuns mortais, eram caras e metades incompletas.

Assim remodelados, alguns esforçar-se-iam (ou não) e encontrariam a sua cara-metade; outros, infelizes, errariam no mundo sem eira nem beira. Quem sabe se os primeiros, mais sociáveis e afáveis, teriam a seu favor a sorte...

Mas Aristófanes viria a concluir existirem pessoas feitas umas para as outras, mas também que esse seria um anseio profundo de comunhão com o próximo, por dever cósmico (9) . E o mestre da comédia esclareceu, em palavras insuspeitas, traduzidas da seguinte maneira (10):

«Ninguém pode acreditar que é o mero prazer físico (Eros) que leva uma pessoa a sentir um prazer tão intenso na companhia de outra. É claro que a alma de cada uma delas tem outro anseio que não é capaz de exprimir, mas que apenas pode imaginar e a que só é capaz de referir-se de uma forma vaga. Imaginemos que Hefesto, com as suas ferramentas, as visitava quando se encontravam deitadas lado a lado e, erguendo-se acima delas, lhes perguntava: o que esperais vós, mortais, lucrar um com o outro? Imaginemos ainda que, se eles não conseguissem responder, ele repetiria a pergunta nestes termos: o objecto do vosso desejo é estarem sempre o mais possível perto um do outro e não se separarem nunca nem de dia nem de noite? Se é isso que quereis, estou disposto a fundir-vos e a soldar-vos para que em vez de dois passeis a ser um só corpo; enquanto viverdes tereis uma vida comum e quando morrerdes tereis uma morte comum e continuareis a ser um só, e não dois, no outro mundo. Contentar-vos-ia tal destino e satisfaria ele os vossos anseios? Sabemos qual seria a resposta; ninguém recusaria a proposta; ficaria claro que é isso que toda a gente deseja, e todos considerariam essa a expressão exacta do desejo que há muito sentiam, mas que não tinham sido capazes de exprimir: poderem fundir-se com o seu amado e serem, depois, um único ser e não dois.» (Platão, trad. ingl. de W. Hamilton, 1951).

Importa dizer que o grego Hefesto era o venerado «Deus do Fogo e da Forja», constando-se que ele podia fazer quase tudo.

Em suma, e a atender à versão do amor platónico, esta coaduna-se com o nosso viver: o amor não é infindável, ainda que queiramos ter uma alma gémea. E o amor não é perfeito por iniciativa dos próprios Deuses.

(1) Clifford Bishop (1996, trad. port. 1997, p. 103).

(2) Platão (1951). O relato de The Symposium é registado por Clifford Bishop (1996, trad. port. 1997, p. 103) e por Diane Ackerman (1994, trad. cast. 2000, pp. 131-135). Freud pensou que essa narração é originalmente indiana, de acordo com a faceta dos Deuses hindus poderem apresentar-se bissexuais (Ackerman, ibid, p. 133).

(3) A sublimação entende-se ligada a actividade sem relação aparente com a sexualidade: científica ou artística. O alvo sexual passa a ser canalizado para a acção valorizada pela sociedade (Laplanche & Pontalis, 1967, trad. Port. 1970).

(4) A resistência é o mecanismo de defesa em que, por actos e palavras, a pessoa se opõe a aceder ao inconsciente, ao auto-conhecimento.

(5) A interpretação de que Platão sentiria dúvida quanto à sua identidade sexual é defendida pela jornalista americana Ackerman (1994, trad. cast. 2000, p. 132).

(6) Clifford Bishop (1996, trad. port. 1997, pp. 46-47).

(7) Simon Andreae (1998, trad. port. 2003, pp. 233-235).

(8) Aristófanes (1984, 2ª ed., 1991).

(9) Simon Andreae (1998, trad. port. 2003, p. 235).

(10) Platão (1951).

Judite Maria Zamith Cruz é doutorada em Psicologia pela Universidade do Minho, onde lecciona cursos de licenciatura e mestrado dedicados ao estudo do desenvolvimento humano e do auto-conhecimento do profissional de educação, desde 1996, é membro de instituições nacionais e internacionais dedicadas ao estudo e investigação da sobredotação, talento e criatividade e, em 1997, integrou equipa internacional e interdisciplinar, coordenada pela Professora Doutora Ana Luísa Janeira, nos domínios de ciência, tecnologia e sociedade - «Natureza, cultura e memória: Projectos transatlânticos». Colabora, desde 2000, no Instituto de Estudos da Criança, em projectos centrados na educação matemática; depois, na área da língua portuguesa e artes plásticas, como membro do Centro de Investigação «Literacia e Bem-Estar da Criança» (LIBEC) da Universidade do Minho .

Entre Janeiro e Julho de1982 foi professora de psicologia e de pedagogia em Escola de Formação de Professores do Ensino Básico de Torres Novas. De Junho a Setembro de 1982, assumiu o lugar de Assistente Estagiária na Universidade de Lisboa – Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação, de que se afastou para desempenhar funções de psicóloga clínica em cooperativa dedicada a crianças e jovens deficientes motores e mentais, em Lisboa – CRINABEL (1982-1985). De 1985 a 1988 foi professora do Ensino Secundário, em Braga, leccionando a disciplina de psicologia na Escola D. Maria II. De novo ocupou funções de psicóloga clínica em associação dedicada à educação de crianças e jovens deficientes auditivos (APECDA-Braga), entre 1988 e 1992. Em 1987, realizou trabalho como psicóloga no Hospital Distrital de Barcelos, de que se afastou em 1990 para efectuar curso de mestrado. Em 1992 ocupou o ligar de Assistente de metodologia de investigação, na Universidade do Minho, em Braga, onde é professora auxiliar.

 

 

 

 




 



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