Judite Maria Zamith Cruz

A PERSPECTIVA ARQUETÍPICA DA MENTE
O inconsciente colectivo de Carl Gustav Jung (Index)

2.4. Os súcubos e os íncubos, sôfregos sugadores de energia alheia

Um modelo de anima é a bruxa. Na hierarquia demoníaca, existiram outros seres lendários. Ainda no século XVI, Reginald Scot (1) escreveu um livro - Discoverie of Witchcraft («Descobertas de Feitiçaria») - em que afirmou serem mulheres, com melancolia em abundância na cabeça, a imaginarem o demo.

Nos contos, alguns dos malignos estão circunscritos a viver em bosques. Certos grupos de nove seres femininos (2) estiveram na origem do termo medieval mares ou maers, para aquelas que habitariam, precisamente, em florestas escuras e se transfiguravam em súcubos (3), demónios terríveis, que caíram em desuso.

O termo inglês nightmare («pesadelo») decorre dessa condição atroz de ser-se atormentado por mares, de quando em vez, durante a noite. Em alternativa às mares, as Musas (Talia, Clio, Calíope...) foram mais inspiradoras, isto é, favoreciam a inspiração na poesia e no discurso (4).

Garantira-se (5) que um súcubo se fantasiava de mulher para seduzir um homem e propagar a sua espécie através do sémen do seduzido. Seria, portanto, um demónio (masculino) no feminino que teria relações sexuais com um homem adormecido, cortando-lhe a respiração e impedindo-o de gritar.

Em uma Enciclopédia (6) actualizada, o adjectivo súcubo refere-se àquele que se coloca por baixo, enquanto o seu antónimo, o adjectivo íncubo, significa aquele que se deita por cima. Nessa posição, portanto, o outro demónio, basicamente masculino, o íncubo (7), atormentava as mulheres. Julgava-se que teria igualmente relações sexuais com estas quando adormeciam e tinham pesadelos.

Segundo outra crença, depois da relação viciada (travesti - homem vestido de mulher) do súcubo, ele era visto pela vítima como masculino - um íncubo. Transformava-se de súcubo em íncubo e de íncubo em súcubo, provisoriamente, e assim mesmo transformava a vítima que enfraquecia e estiolava.

Em tempos que já lá vão, até mesmo os macacos e os espíritos animais (8) puderam ser acusados de súcubos e de íncubos, por julgar-se copularem com seres humanos adormecidos para lhes roubarem energia vital.

Notas
(1) Clifford Bishop (1996, trad. port. 1997, p. 93).

(2) Em lendas e mitos é frequente o número nove ser associado à magia de certas mulheres: nove morganas celtas, nove musas gregas, nove korrigen da Ilha Sagrada ou nove donzelas lunares que criaram os deuses escandinavos.

(3) Barbara Walker (1988, trad. port. 2002, p. 80).

(4) Joshua Trachtenberg (1984, p. 39; cit. por B. Walker, 1988, trad. port. 2002, p. 80).

(5) Clifford Bishop (1996, trad. port. 1997, p. 93).

(6) A Enciclopédia – Jornal Público (2004, vols. nº 11, p. 4623, e nº 19, p. 8004).

(7) Clifford Bishop (1996, trad. port. 1997, p. 93).

(8) Bishop, ibid, p. 15.

Judite Maria Zamith Cruz é doutorada em Psicologia pela Universidade do Minho, onde lecciona cursos de licenciatura e mestrado dedicados ao estudo do desenvolvimento humano e do auto-conhecimento do profissional de educação, desde 1996, é membro de instituições nacionais e internacionais dedicadas ao estudo e investigação da sobredotação, talento e criatividade e, em 1997, integrou equipa internacional e interdisciplinar, coordenada pela Professora Doutora Ana Luísa Janeira, nos domínios de ciência, tecnologia e sociedade - «Natureza, cultura e memória: Projectos transatlânticos». Colabora, desde 2000, no Instituto de Estudos da Criança, em projectos centrados na educação matemática; depois, na área da língua portuguesa e artes plásticas, como membro do Centro de Investigação «Literacia e Bem-Estar da Criança» (LIBEC) da Universidade do Minho .

Entre Janeiro e Julho de1982 foi professora de psicologia e de pedagogia em Escola de Formação de Professores do Ensino Básico de Torres Novas. De Junho a Setembro de 1982, assumiu o lugar de Assistente Estagiária na Universidade de Lisboa – Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação, de que se afastou para desempenhar funções de psicóloga clínica em cooperativa dedicada a crianças e jovens deficientes motores e mentais, em Lisboa – CRINABEL (1982-1985). De 1985 a 1988 foi professora do Ensino Secundário, em Braga, leccionando a disciplina de psicologia na Escola D. Maria II. De novo ocupou funções de psicóloga clínica em associação dedicada à educação de crianças e jovens deficientes auditivos (APECDA-Braga), entre 1988 e 1992. Em 1987, realizou trabalho como psicóloga no Hospital Distrital de Barcelos, de que se afastou em 1990 para efectuar curso de mestrado. Em 1992 ocupou o ligar de Assistente de metodologia de investigação, na Universidade do Minho, em Braga, onde é professora auxiliar.

 

 

 

 




 



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