Judite Maria Zamith Cruz

A PERSPECTIVA ARQUETÍPICA DA MENTE
O inconsciente colectivo de Carl Gustav Jung (Index)

2.3. A «síndrome de Casanova»: uma persona ingrata

Um outro velho animus, Giovanni Giacomo Casanova (1725-1798), nasceu em Veneza - Itália numa época em que viveram imensos casanovas. Na região, não se trataria de uma personalidade ímpar ou inqualificável. Ele não seria propriamente o Don Juan, a personagem dramática atrás caracterizada. Era um figuraço real, vivo e escritor. Casanova tinha o título de Cavaleiro de Seingalt.

Ao escrever as suas Memoires com uma caneta de pena, ele tornou-se O Casanova. Em doze longos volumes, anotou os seus pequenos problemas com mulheres a quem enviava uma flor, um pente ou qualquer outro objecto simbólico do seu amor prometido.

Acrescentou em Memoires, expressões inesquecíveis (1): «Amei-as (plural) até à loucura... mas mais do que elas, amei a minha liberdade». Um crítico da sua vastíssima obra referiu que «cada palavra sua é uma revelação, cada pensamento um livro» (2). Nenhum editor quis publicar o texto da sua vida.

Casanova nunca se casou. Foi associado a uma «vida de perversão», de perpétua ilusão de mulheres incautas e à ausência de laço familiar ou responsabilidade com a sua prole.

A sua vida pode ser esboçada com os seguintes cambiantes risíveis (3) por nós enfatizados:

Aquele era mesmo um tempo conturbado. Duelos e mais duelos... Oh! Veneza de sonho! Veneza era uma cidade de divertimentos e prazeres. Havia imensos lugares de recreação e de combate.

Casanova crescera em uma atmosfera de festas. As animações ocorriam todos os Sábados e Sextas-Feiras.

Mas ele tinha que trabalhar. Não lhe fora permitido viver sem regras e sem obrigações.

Ainda jovem, colocaram-no em um Seminário – São Cipriano, de onde viria a ser expulso.

Na instituição leu Homero no original. Depois, começou a recitar, de quando em vez, uma ou outra poesia de Quinto Horácio Flaco: As Epístolas, As Odes, As Sátiras… Estudava no seminário, inclusive, a disciplina moderna de Química.

O pior foi ter uma conduta escandalosa. Essa foi a justificação para a sua expulsão, aos 17 anos, do recolhimento imposto.

Que fazer? Aventurar-se. Durante os 39 anos seguintes, viu o mundo. Correu quase tanto como Marco Pólo (1254-1324)? Não saiu da Europa, possivelmente. Também poderia procurar algo diferente de Marco Polo, seu histórico conterrâneo. Sem dúvida que jogou com muitos haveres e ganhou. Não seria para si a vida entendida como um jogo? Ele esbanjou fortunas, jogou riquezas nas mesas de jogo.

Um cardeal reparou nele, em Roma. Poderia ser severamente punido!

Abandonou de noite a capital e partiu rumo à sua terra de sonho - Veneza. Tornou-se aí mesmo violinista. Se a terra o abraçou, também o mandou para as prisões do Palácio dos Doges quando menos se esperaria, por cinco longos anos. Fugiu de forma espectacular da masmorra.

Para onde ir a seguir? Paris certamente lhe daria novas oportunidades. Assim foi criar a primeira lotaria e batalhar às portas da cidade.

Os reis pediam-lhe conselhos e gostavam da sua companhia. As damas marcaram-lhe casamento. Casanova conheceu até o rei da Prússia e Catarina II da Rússia, mais velha 4 anos do que ele.

No final da vida, assumiu ter seduzido 122 mulheres de todos os níveis económicos e de todas as classes sociais. Ele não conseguira assumir relações íntimas e estáveis. Deduz-se que Casanova podia conquistar quem quisesse, com dificuldade mínima. Uma flor, um pente…

Chamou-se a esse tipo de homens «casanovas» ou pessoas com a «síndrome de Casanova». Vivem de amores efémeros. Porquê? Porque temem o tédio? Claro que ninguém gosta de enfado e fastio! Apreciamos a singular inexperiência (4), idealizada por Milan Kundera.

Com as suas práticas de vida, oscasanovas ascendem socialmente aos olhos dos seus anfitriões e benfeitores, buscando o bem-estar. Procuram alcançar uma vitalidade prolongada. Casanova viveu até aos 73 anos numa época histórica de pestes e matanças.

De acordo com os motivos revelados a psicólogos por casanovas actuais, eles próprios são imaturos. Casanova alcançou maturidade emocional? Seria narcisista? Em termos comuns, seria egoísta, preocupado consigo? Cínico? Não pensava nos outros que sofriam por amá-lo? Ambivalente? O desejo sexual por ele imanado era como um presente…

E pagou Casanova pelos seus actos? Já perto dos 60 anos, trabalhou para a Inquisição de Veneza denunciando a conduta moral de outros. Casanova escreveu o seguinte sobre o que os seus olhos já nem poderiam ver nem crer (5): «É esta mania do luxo, esta devassidão das mulheres, esta nova e horrível liberdade do comércio do amor que, apesar da inegável necessidade de uma vida familiar estável, provoca o constante incremento da situação de podridão desta cidade.».

Quem diria que se viria a tornar um moralista? Com a idade pode ter-se imposto em Casanova uma formação reactiva (6) um mecanismo de defesa elucidado por Freud - o escrúpulo moralista, a ternura excessiva, a piedade inadequada com animais…

O isolado Castelo de Dux foi o local escolhido para os últimos anos de Casanova. Bem instalado, ele teria uma biblioteca de província longe do bulício das cidades de arruaceiros e vigaristas. Um conde austríaco, Von Waldstein, deu-lhe essa graça de poder viver em paz.
Notas

(1) AA.VV. (1990, p. 233).

(2) AA.VV., ibid, p. 233.

(3) AA.VV., ibid, p. 233.

(4) No livro de Milan Kundera, A Arte do Romance (1987, trad. port. 1988), a inexperiência é referida como uma qualidade humana caracterizada pela vivência constante de algo como se fosse a primeira vez: Nunca poderemos recomeçar uma outra vida com as experiências da vida anterior (p. 154). Para Kundera, é como se entrássemos numa nova experiência, desconhecendo-a. Posteriormente escreveu A Insustentável Leveza do Ser onde difunde a mesma ideia ligada à ausência de possibilidade de repetição do passado – nega a viabilidade do eterno retorno.

(5) AA.VV. (1990, p. 233).

(6) Uma formação reactiva (Laplanche & Pontalis, 1967, trad. port. 1970, pp. 258-261) consiste em uma pessoa adquirir uma atitude ou hábito psicológico de sentido oposto a um desejo recalcado e constituído em reacção contra esse desejo (o pudor a opor-se a tendências exibicionistas). Pode tratar-se de um comportamento particular (o pudor, a limpeza exagerada…) ou de uma característica de personalidade (rigidez forçada e compulsiva, na «neurose obsessivo-compulsiva»). Nessa condição, as recriminações e as virtudes podem ser levadas a pontos extremos (p. 259).

Judite Maria Zamith Cruz é doutorada em Psicologia pela Universidade do Minho, onde lecciona cursos de licenciatura e mestrado dedicados ao estudo do desenvolvimento humano e do auto-conhecimento do profissional de educação, desde 1996, é membro de instituições nacionais e internacionais dedicadas ao estudo e investigação da sobredotação, talento e criatividade e, em 1997, integrou equipa internacional e interdisciplinar, coordenada pela Professora Doutora Ana Luísa Janeira, nos domínios de ciência, tecnologia e sociedade - «Natureza, cultura e memória: Projectos transatlânticos». Colabora, desde 2000, no Instituto de Estudos da Criança, em projectos centrados na educação matemática; depois, na área da língua portuguesa e artes plásticas, como membro do Centro de Investigação «Literacia e Bem-Estar da Criança» (LIBEC) da Universidade do Minho .

Entre Janeiro e Julho de1982 foi professora de psicologia e de pedagogia em Escola de Formação de Professores do Ensino Básico de Torres Novas. De Junho a Setembro de 1982, assumiu o lugar de Assistente Estagiária na Universidade de Lisboa – Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação, de que se afastou para desempenhar funções de psicóloga clínica em cooperativa dedicada a crianças e jovens deficientes motores e mentais, em Lisboa – CRINABEL (1982-1985). De 1985 a 1988 foi professora do Ensino Secundário, em Braga, leccionando a disciplina de psicologia na Escola D. Maria II. De novo ocupou funções de psicóloga clínica em associação dedicada à educação de crianças e jovens deficientes auditivos (APECDA-Braga), entre 1988 e 1992. Em 1987, realizou trabalho como psicóloga no Hospital Distrital de Barcelos, de que se afastou em 1990 para efectuar curso de mestrado. Em 1992 ocupou o ligar de Assistente de metodologia de investigação, na Universidade do Minho, em Braga, onde é professora auxiliar.

 

 

 

 




 



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