Judite Maria Zamith Cruz

A PERSPECTIVA ARQUETÍPICA DA MENTE
O inconsciente colectivo de Carl Gustav Jung (Index)

4. O arquétipomãe e o psiquismo do próprio Jung

Na pintura de Puvis de Chavennes o arquétipo mãe ilustra-se em figura central, sentada e rodeada de crianças (1). A grande maioria dos homens idolatra a mãe biológica.

Assim sendo, a Mãe e a Mãe Natureza tornam-se símbolos de carinho, bondade, fertilidade e abundância no inconsciente masculino.

Nessa acepção, todo o pequeno jovem tem um anima maternal como se fosse a emoção personificada, antes mesmo de se lhe impor o valor sócio-cultural atribuído ao homem feito de pensamento lógico e racional.

Por contraste com a mãe ocidental, o amor indiano exprime-se com ternura e, simultaneamente, com voracidade. Esta dualidade está presente em cultos hindus. A Deusa Parvati personifica «a Bondade», Cáli «o bem e o mal», concomitantemente modelo de desejo e de terror.

A ligação à mãe é típica em Freud e também em Jung .

A esse propósito as recordações de Jung foram comunicadas por Aniela Jaffé que as ouviu do próprio Jung e as publicou em 1966 (2). Para ele, portanto, a sua mãe era o calorafectuoso, a conversação humorada e a figura corpulenta da autoridade temível.

Em um dos seus inúmeros sonhos, Jung (3) recordou que aos três anos acordou apavorado quando a mãe lhe disse no sonho: «Aquele é o papão!». Tinha sonhado com a imagem de um objecto fálico sentado num trono. Associá-lo-ia a Jesus, na medida em que ouvia invocar o seu nome.

Relativamente ao seu pai, Jung afirmava o seguinte (4): «Pai significava para mim digno de confiança (…) e incapaz». Discutiu sempre muito com o pai, padre protestante, que se lhe afigurava frágil por contraste com a mãe.

Desde pequeno que Jung foi um espiritualista e, contrariamente a Freud, não estabeleceu a ligação entre a satisfação de uma criança ao comer e o prazer com conotação sexual. Simplesmente o seio materno alimentava o bebé. O próprio complexo de Édipo seria, somente, um desejo de renovação espiritual, na ânsia de identificação à mãe ou ao pai, consoante o sexo da criança. Esta ambicionaria ser igual ao puro amado. Assim Jung conservava a sua anima maternal.
Notas

(1) David Fontana (1993, p. 16).

(2) Aniela Jaffé (1966; cit. em AA.VV., 1978, trad. port. 1979, pp. 106-131).

(3) Clifford Bishop (1996, trad. port. 1997, p. 108).

(4) Aniela Jaffé (1966; cit. em AA.VV., 1978, trad. port. 1979, p. 109).

Judite Maria Zamith Cruz é doutorada em Psicologia pela Universidade do Minho, onde lecciona cursos de licenciatura e mestrado dedicados ao estudo do desenvolvimento humano e do auto-conhecimento do profissional de educação, desde 1996, é membro de instituições nacionais e internacionais dedicadas ao estudo e investigação da sobredotação, talento e criatividade e, em 1997, integrou equipa internacional e interdisciplinar, coordenada pela Professora Doutora Ana Luísa Janeira, nos domínios de ciência, tecnologia e sociedade - «Natureza, cultura e memória: Projectos transatlânticos». Colabora, desde 2000, no Instituto de Estudos da Criança, em projectos centrados na educação matemática; depois, na área da língua portuguesa e artes plásticas, como membro do Centro de Investigação «Literacia e Bem-Estar da Criança» (LIBEC) da Universidade do Minho .

Entre Janeiro e Julho de1982 foi professora de psicologia e de pedagogia em Escola de Formação de Professores do Ensino Básico de Torres Novas. De Junho a Setembro de 1982, assumiu o lugar de Assistente Estagiária na Universidade de Lisboa – Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação, de que se afastou para desempenhar funções de psicóloga clínica em cooperativa dedicada a crianças e jovens deficientes motores e mentais, em Lisboa – CRINABEL (1982-1985). De 1985 a 1988 foi professora do Ensino Secundário, em Braga, leccionando a disciplina de psicologia na Escola D. Maria II. De novo ocupou funções de psicóloga clínica em associação dedicada à educação de crianças e jovens deficientes auditivos (APECDA-Braga), entre 1988 e 1992. Em 1987, realizou trabalho como psicóloga no Hospital Distrital de Barcelos, de que se afastou em 1990 para efectuar curso de mestrado. Em 1992 ocupou o ligar de Assistente de metodologia de investigação, na Universidade do Minho, em Braga, onde é professora auxiliar.

 

 

 

 




 



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