JOSÉ OLIVEIRA..

A simplicidade das coisas que não são

1

            Um ruge-ruge ciranda avenida abaixo. Parques subterrâneos, buzinas, travões e passagens para peões espalham frenesins, aromas e meneios cosmopolitas.

            Envoltos no bulício, os escritórios e consultórios do número 87 rosteiam sua melancolia centenária e nem o amarelo-torrado a trepar até ao quarto andar – parecendo empalidecer o azul celeste durante o dia ou fazendo-se chamejante ao sol-pôr – os tornam alvos de apetite humano.

            Seis da tarde. A porta de acesso ao primeiro andar, apressada, alivia funcionários, técnicos e últimos clientes, passando, distraída, de mão em mão. E mal se fecha por completo, puxada por um amortecedor que a aferrolha à caixilharia, logo se reabre, gemendo, uma vez, outra, outra e outra vez. Numa delas, empurrada pelo ombro de uma jovem que sai vasculhando, com ambas as mãos, a mala colocada a tiracolo.  

2

No passeio, a ânsia da procura detém-na e encurva-lhe os sentidos para a mala. Desacorrenta um compartimento interior e dele retira os óculos de sol que logo coloca. Continua o seu percurso, passeio abaixo, até à primeira paragem de transportes urbanos. Recosta-se sobre um dos postes metálicos que sustêm a cobertura e, com a mão direita em desassossego, reabre a mala. Fá-la descer até à base, dedilhando segredos e palpando dúvidas. Por instantes, imobiliza-se e, indiferente ao bulício, escuta o pulsar do instante – talvez tentasse esconder o rosto naquele pequeno resguardo de intimidade ou reencontrar-se por entre uma fotografia íntima, um objecto preso a um tempo ou aroma –, mas, num repente, retirou um lenço de papel e fê-lo emudecer as lágrimas que procuravam vencer as margens criadas pelas hastes dos óculos.

Um BMW 320d prateado, vagaroso, aproxima-se da paragem. Seu condutor, com a segurança dos quarenta anos, fixa-a, lê-lhe a atitude e leva, consigo, a imagem daquela jovem de cabelos abertos, tez morena e esbelta. 

Ao sentir a indiscrição do carro, arma a postura, exibindo o acto de retirar o passe. Volta-o para si. Passa o indicador direito sobre seu nome – Felisbela Santos Silva – como quem palpa a sua própria identidade.

3

O autocarro (Nº 45 – S. Victor) aproxima-se. Pára, oferecendo a porta da frente ao interior da paragem. Pela porta traseira saem meia dúzia de passageiros, pela dianteira entram dez, doze, não mais.

O motorista confirma pelo espelho interior a segurança dos passageiros. Fecha as portas. Prepara a marcha do veículo, mas logo a interrompe. Dois jovens lançavam as costas das mãos ao vidro da porta.

- Obrigado, senhor motorista. – Sublinha o primeiro.

O segundo, firmando-se com a mão esquerda à barra que se sobrepõe às escadas para aguentar os solavancos do autocarro, rodopia o suficiente para ficar de frente com os lugares, mantém o olhar pregado ao telemóvel e, lesto, com o polegar direito digita uma mensagem escrita. Sentaram-se. Este último mostra o texto digitado. Ambos riem largamente, baloiçando o instante no banco.

- Eh, meu. Gostei dessa: “ tho prexa d t vr, saudads d t bjar.” Fixe. Temos poeta. Tou mesmo a ver a Tininha a beijar o ecrã do telemóvel.

- Meu. Tás a ver. Tenho uma reputação a manter na escola.

- “ O mais romântico”. Com diploma passado após votação.

No último banco do autocarro, Felisbela sacudia quinze minutos de mais uma viagem de regresso ao quarto arrendado. Reclinou a cabeça sobre o vidro e, através daquele rectângulo fosco, observava a cidade passar pelo autocarro como quem se vê diante uma tela de cinema. Carros, luzes de reclamos, pessoas que correm no passeio, montras e bancas de jornais como que adquiriam uma velocidade real. Eram tempo, eram vida, eram o seu tempo e a sua vida. E aquele fim-de-dia bem poderia, também ele, integrar-se como imagem adâmica e ingénua, a lembrar os anúncios que rebolam nos ecrãs de TV – a bela jovem que sai do seu local de trabalho realizada – ou como espelho para sua paz interior.

Mas um relâmpago de verdade ziguezagueava-lhe com vozes, gestos, olhares e a imagem do consultório de oftalmologia onde trabalhava há quatro meses.

- Felisbela. Venha ao consultório – Ecoou, estridente, o intercomunicador.

Bateu à porta e, serena, de dentro, soou uma ordem de entrada. Viu-se, a passos tímidos, romper por entre aquele espaço salvaguardado da luz exterior, numa diagonal, a lusco-fusco, até à secretária.

- Felisbela. Como correu o dia?

- Bem, senhor doutor.

- Isto é que foi um dia de trabalho.

- É verdade, senhor doutor.

- É mesmo assim, tempo de férias. Já sabemos. – Levantou-se, puxou um cadeirão, colocado lateralmente em relação à secretária, fê-lo deslizar e, com o levantar de dedos, um recolher de mãos, um encolher de braços à sua posição mais vertical, passou-o a Felisbela. – Sente-se. Está confortável?

- Obrigada, senhor doutor. Estou bem. Obrigada.

- Felisbela, na sua aldeia também se diz que empregado gabado é trabalhador estragado?

- É verdade.

- Eu também não tenho o hábito de o fazer. Mas há uma primeira vez para tudo. Não é verdade? E confesso que por sua causa vou ter de quebrar uma regra.

- Por minha causa, senhor doutor. Não. Não quebre.

- Sinto-me na necessidade de confessar que este consultório, consigo, é outra coisa. É outro.

- Como assim?

- Ora como? Está melhor. Muito melhor. Estas coisas nem sempre se conseguem explicar. Mas veja, respira-se uma simplicidade, uma honestidade e uma proximidade entre pessoas que não existia. E você é que trouxe tudo isso.

- Não diga isso, senhor doutor. Não passo de uma empregada que recebe ordens e faz o que lhe mandam.

- Felisbela, o que eu quis deixar claro é que a sua maneira de ser é uma preciosidade. Você magnetiza as pessoas.

- Assim deixa-me atrapalhada. Tanto elogio. Senhor doutor …

- Ainda bem que apenas os elogios a atrapalham, Felisbela. Confesso-lhe que, a mim, assusta-me a ideia de, um dia destes, não ouvir o som dos seus passos ou não ver o sorriso com que me desperta todos os dias.

- Não diga isso.

- Comecei por dizer que não o costumo fazer.

- Não estou habituada a elogios.

- E eu não estou habituado a fazê-los. Mas os sentimentos não se escondem. Não podemos fugir deles. A vida ensina-nos isso. Não pensa assim?

- O senhor doutor conhece-me bem. O currículo que enviei é o espelho da minha vida. Quando o senhor doutor diz estas coisas, com essa segurança toda, fico sem saber onde quer chegar e o que tenho a ver com o que diz sentir.

- Felisbela, podemos gastar aqui todas as nossas palavras, mas não adiantaremos um segundo sequer à realidade. Nem a nós próprios. Importa a ousadia de um gesto. Um simples gesto. – Nisto, o médico sai da verticalidade que lhe sombreava o rosto, reclina-se apoiando mãos e tronco nos braços do cadeirão, já de olhar, respiração e rosto trémulo desvendado pela luz do candeeiro de mesa, encaminha seu rosto na procura de um beijo.

- Senhor doutor…

- Um beijo só. Depois não haverá nada a explicar.

O telefone toca uma primeira vez, mas ambos ignoram. Mas outro toque insiste, outro e outro. O médico, em sobressalto, retorce-se, olha o visor, procurando confirmar o número.

- Tenho de atender. – Toma o auscultador e escuta.

Felisbela, pé ante pé, afasta-se. À porta do consultório, sentiu que devia executar o voo das aves engaioladas. Sair, não interessa para onde nem de que modo. E saiu.

José Oliveira nasceu na cidade de Paris, França, em 1969. Mas, desde os sete anos reside na Póvoa de Lanhoso, em Portugal.

Publicou "Rumos", um livro de contos (Editora Labirinto, 2004). Participou também de antologias. "Histórias para um Natal" (Editora Labirinto, 2004) com o conto "Caminhos de Natal" e "Dias do Pai" (Editora Ave Rara, 2006) com o conto "À esquerda das horas, o tempo". Na secção "Oceanos", espaço dedicado a escritores lusófonos do Jornal “Rascunho” (Porto Alegre, Brasil) publicou em Junho de 2006 o conto “Caminhos de Natal”.

jose_pereira_oliveira@clix.pt

 
 

 

 

 




 



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