JOSÉ OLIVEIRA....
Caminhos de Natal

Um homem trepava o velho empedrado cansado e gasto. Buscava a primeira encosta de monte.

Artur, de rosto ruborizado, ao vê-lo do seu terreiro sobranceiro ao caminho, pára a sua lide com a lenha. Repousa uma das mãos sobre o cabo do machado e começa a medir-lhe os intentos, ao mesmo tempo que, com outra, confirma o boné na cabeça.

- Ei, Quim!

Distraído pelo tilintar de picos de toda a sorte e tamanho enfileirados com martelos num balde, Quim continuava o seu curso alheio às vidas que, como sombras de árvores, se vergavam sobre seu trilho.

- Ei, Quim! Inda vais ganhar pró bacalhau hoje? – e reforçou, encarando-o com ar satisfeito - Olha que hoje é dia pra estar ó lume, num é dia de trabalho.

- É . Até logo!

Dia de Natal. E como em tantos natais, a aldeia era a harmonia na sua meninice: horizontes fechados, em mistério, por neblinas, fazendo-a voltar-se para si própria; fumos agarrados aos telhados o dia inteiro, evaporando suores de sua própria vida; corpos de mulheres estendendo-se, sorridentes, pelos campos com cestos de erva à cabeça; troncos de carvalho e oliveira rendidos perante a força de braço de homens sem idade e a alegria da criançada debruçada sobre potes de formigos e aletria ainda a fervilharem nas lareiras.

Tal como toda a aldeia, ambos retomaram seu horizonte como quem se deixa levar por instintos ancestrais. Artur encosta o machado aos joelhos, cospe a mão direita, a esquerda e espalha, entre os dedos, salpicos de ânimo; ergue o machado até ao seu aprumo máximo e desprende-o certeiro como um raio sobre mais uma metade de tronco.

- Tónio, ó António, traz o carrinho de mão e leva-me a lenha pra casa que a noite num tarda! – pedia ao seu mais novo que sacudira um olhar para fora de porta.

- Tá bem pai. Só vou acabar este desenho. - desdobra um velho papel de mercearia para o pai e dirigindo-lhe um olhar condoído –  É só um bocadinho!

- Já sabes. É pra ti, pá.

Instantes depois, António, com a alegria própria dos seus doze anos, chega com o carrinho de mão e começa a enchê-lo de lenha.

- Pai, que anda a fazer o Se Joaquim?

- Ah, cá pra mim, anda a preparar dois esteios pró Se João da Ribeira.

- Sabe, outro dia, quando andava co gado, vi-o a falar prás pedras e dizia quase a cantar: “anda cá lindinha que tu és minha”!

- É o que ele tem. E um home tem de se agarrar ó que tem, senão num vive.
Sem demora, António empilhou aquela carga e regressa ainda mais espicaçado pela curiosidade.

- E ele num tem família?

- Tem uma irmã!

- Mas eu nunca a vi aqui?

- Olha, porque é casada, tem filhos e tá na França.

- Por que é que num casou, pai. Era feio?

- Não. Olha, veio de uma guerra que houve há muito tempo, da Índia, e depois foi prá França. Levou a mãe que tava praí sozinha, mas um dia, quando chegou do trabalho, encontrou-a morta. Tinha sido atropelada, assim, à porta de casa.

- Foi quando veio pra cá? 

- É. Mas fugido porque matou quem lhe tirou a mãe. – João fica cabisbaixo – Bá, leva esse carrinho que depois conto-te o resto. – e o petiz voltou a regressar com  toda a sua prontidão.

- Sabes, tu um dia vais perceber isto, um home quando mata tamém morre porque percebe que acabou de marcar caminho có morte. É por isso que ele anda praí desleixado, bêbado e sempre de cigarro na boca. Se calhar quer que o vinho, os cigarros ou a porra o matem depressa.

- Coitado! E o Natal ? Onde o vai passar?

- Como passa todos os dias. Fica praí a trabalhar até tarde, não ouves as marteladas, e depois vai pra casa; bebe uma aguardente e deita-se.

António reservou-se para o silêncio. Sentou-se no meio muro que rodopiava sobre o terreiro e, voltado para o caminho, escutava atento aquele dialogar férreo de Joaquim com a pedra como quem escuta a voz da neblina.

A escuridão arava seu próprio semblante e António definhava o tempo, ralando, com os seus deditos distraídos, o musgo arrancado da parede. Já Artur havia recebido ordens da mulher para chamar o rapaz, mas ao vê-lo, assim, voltado para o caminho, entendeu-o.

- Deixa mulher. Ele vem já.

O batucar de picos e martelos terminou. Instantes depois, Joaquim descia, escondido pela escuridão, aquela sábia calçada.

- Ó Se Joaquim, inda vai agora?

- É. E tu num vais pra dentro? – disse baixo e sem parar o velho pedreiro, continuando a fuga de si próprio.

- Tava à sua espera.

Joaquim parou e elevou os olhos para o garoto.

- Este frio faz-te mal, foge pró lume.

- Tenho pra si isto. É o meu carrinho de bois.

- E tu é que o fizeste?

- Fui, cum tempo. O meu avô ensinou-me. Tem tudo como se fosse de verdade: rodas no eixo, pigarro, fogueiros de lenha e umas caniças pra pôr.

- E tu vais-me dar o que deu tanto trabalho?

- Vou! Eu tenho tempo. Adiante, faço outro pra mim.

Joaquim libertou-se do balde por instantes. Recolheu a oferta. Soltou um sorriso escondido.

- Sabes que é a minha primeira prenda de Natal?!

Agarrou o balde com a mão esquerda e desceu oferecendo, com a outra, aquele brilho de criança à noite.

 

 

 

 




 



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