Joëlle Ghazarian
Dossier organizado por Rui Mendes

 

Título: Cântico do crime

Autora: Joëlle Gazarian

Tradução: Júlio Henriques

Em uníssono com: Herberto Helder

Edição: quasi

1ª edição Setembro de 2007 

Entrevista
«Durante uma correspondência com Herberto Helder, disse-me ele, a certa altura, que eu estava prenhe de uma obra, que já não era com ele que me estava a corresponder. Acreditei. Foi nessa altura que acabei de ler a obra dele», disse hoje à Lusa a escritora, que reside há alguns anos em Portugal e é professora de Francês no Instituto Politécnico de Portalegre, apesar de ser a Antropologia a sua principal área de formação.

«Quando, nessa altura, deixei de lhe escrever, foram então jorrando passos em francês e passos em português, dele e meus, de um texto nascente, numa mistura orgânica, sem planificação. Quando terminei, enviei o manuscrito a Herberto Helder ainda nas duas línguas. Nunca teria publicado nada se ele não o tivesse desejad», frisou Joëlle Ghazarian, cujo livro apresenta, na primeira página, o fac-simile de uma carta manuscrita pelo poeta, datada de 2004. 

Nela, diz Herberto: «o seu livro foi uma das pouquíssimas exaltações que tive nos últimos - e já extensos - tempos. O livro é inteiramente seu. Se é verdade que você utiliza material meu, em bruto, cristaliza-o depois num sistema peremptoriamente seu (…) Não hesite nem um momento em publicá-lo».

A escritora precisou que a obra de Herberto Helder a «impregnou como um todo» e que «em uníssono quer dizer no mesmo som, no mesmo sopro, não necessariamente com o mesmo conteúdo«, acrescentando que foi «um encontro que aconteceu» e que «nada acontece por acaso».

O romance - explicou - é sobre «sair da morte para poder viver, encontrar o nome para fazer parte de uma nova tribo».

Se tivesse de convidar o público português à leitura de Cântico do Crime que não é um livro fácil, não é literatura “light”, a autora indicou que “diria que fazer funcionar a mente é como fazer funcionar os músculos”.

«[Diria] que isso permite também que uma pessoa se alimente melhor, criando defesas imunitárias. Quando não deixamos o cérebro deperecer ou o corpo definhar, as defesas imunitárias reconstroem-se. Quando usufruímos do tempo para saborear a substância das palavras que ignoramos e que conhecemos, é como se fizéssemos uma viagem, de que acabamos por ser os timoneiros, graças ao nosso esforço, redescobrindo assim que temos capacidades», argumentou.

Com duas obras anteriores publicadas em Portugal pela editora Fenda, Sakarina (1986) e Ó de Amoque (1995) - que teve uma edição posterior em França, em 1998 -, a autora franco-arménia sublinhou que «sem o 25 de Abril não teria podido ‘entrar’ em Portugal» e que foram várias as razões que a fizeram vir para este país.

«Nessa altura, os meus amigos portugueses, todos refugiados no estrangeiro, regressaram a Portugal e eu comecei por vir visitá-los; depois, aqui, fui notando coisas curiosas, entre as quais que agradava menos aos homens do que noutros países, devido à minha atitude desenvolta, e ao mesmo tempo achei os homens portugueses muito femininos; graças a isso, achei que era pacífico para mim viver aqui», sustentou.

«Viver noutro país nada tinha para mim de extraordinário - comentou -, vivi desde a infância em diversos países, vagabundei muito cedo. Também vagabundei em Portugal antes de cá viver. Desde 1985, altura em que fui começando a ficar, parece-me que me tornei como a personagem central de Erich Maria Remarque da ‘Noite de Lisboa’, podendo pensar que é esta a minha última terra».

Sobre a escolha de uma cidade alentejana para residir na sua «última terra», Joëlle Ghazarian disse: «Estou em Portalegre porque desejei conhecer o Alentejo por dentro, e também para conhecer o interior do interior. Por vontade de virar costas a um certo tipo de mundanidades, sem ter de passar o tempo a defender-me psicologicamente do peso da urbanidade».

Sempre escreveu, desde criança - indicou -, mas sem se preocupar «com publicações». «É praticamente uma das poucas coisas que encaro como minha identidade. Não preciso de ser reconhecida para o saber«, observou.

Quanto a referências, disse ter preferência pelo «que há de mais arcaico, a poesia, o teatro, a narrativa. Na literatura portuguesa há verdadeiras obras singulares. Além de Herberto Helder, gostaria, assim de forma sucinta, de referir Camilo Pessanha, Ruben A., Alberto Pimenta».

«Mas gostaria de referir que é também no teatro que em Portugal há obras de grande fôlego: citarei O Bando, a Comuna, a Cornucópia, entre outras companhias mais recentes. Aprecio muito os artistas plásticos que escrevem, em particular Alberto Giacometti. Outras referências importantes para mim são Antonin Artaud, Robert Walser, Henri Michaux», enumerou.

Na vida - prosseguiu -, «as minhas ‘referências’ são a festa enquanto vitalidade anárquica, a amizade como defesa contra a família, o silêncio como uma elevada forma de expressão e de escuta, e um grande desprezo pelo espírito de competição».

Como lema de vida, citou o de Santo Isidoro de Sevilha: «Estuda como se tivesses a eternidade à tua frente, vive como se fosses morrer amanhã» e um outro, de Nietzsche, que prefere: «Maturidade do homem: recobrar a seriedade que tinha em criança, ao brincar».

Lusa/SOL

Vídeo com entrevista em "Conversas no sofá": http://blip.tv/file/377357
Joëlle Ghazarian. Escritora franco-arménia residente em Portugal.
 

 

 

 




 



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