:::::::::JOANA RUAS:::

ROTEIRO DE ALGUNS TEMAS AFRICANOS
elaborado por Joana Ruas a partir do seu romance

"A PELE DOS SÉCULOS" - INDEX

5ª Ficha
Os sortilégios das máscaras

«Convicta de que tudo estava já jogado e que ela não tardaria em ficar liquidada como Míriam, Sara ia discorrendo no que estaria a acontecer às suas donzelas. Depois, dominando o suspiro de alívio que lhe subia do peito, ao perceber que alguns dos  comandos africanos tinham voltado sem elas, sem sequer pestanejar, permaneceu numa imobilidade inexpressiva. Enquanto aguardava o golpe que ele iria  desferir contra ela, fechou o rosto, recolheu-o no mais profundo de si mesma como se se tivesse retirado para lugar algum conhecido, para o indefinido nada donde saem as máscaras. O seu rosto cavou-se descavando-se linha a linha, refluindo para ponto algum de um território humano. Ficou diante do homem pairando como um signo, um signo inscrito num caco de cabaça, como um mito. Sim, como o mito. A realidade desaparecera de perto do homem e ele viu-se na bruma transparente do país da magia. De lá ela avançava impetuosa para a distância do futuro, esmagando-o, ultrapassando-o na sua insignificância. Naquele esfumado momento ele não era senão um macaco gesticulando com uma arma na mão. E, de repente, a arma e a farda deixavam-no nu, tudo o que aprendera desfazia-se em poeira, achou-se desamparado de ciência diante da fera, da onça malhada de luz e sombra, da grande onça pintada. A farda e a metralhadora eram as grades de uma prisão maior. Sentiu-se enorme, ocupando o olho todo da onça, tudo o que ela via era ele naquele buraco onde ele estava prestes a sumir-se na obscuridade transparente. Como seria bom se fosse apenas um rato, um grão de areia. A fenda dos olhos se animava, como se os buracos se arredondassem para fora como o olho da louva-a-deus. O olhar apagado da máscara pusera-se a brilhar, verde naquele sítio de lado nenhum, onde tudo significava nada. A espinha fria, o frio subindo na espinha, aquele frio de quem se quer ver morto para tudo se acabar. As armas e as fardas já não faziam lei e caíra nele a pior das tristezas, aquela que acontece sem motivos, aquela que vem dos muitos esquecimentos nossos, que chega remudada como se fosse desconhecida, e acontece nos momentos temíveis para nos levar as forças todas juntas e deixar de nós um saco vazio que se não sustenta de pé.»

JOANA RUAS. Escritora portuguesa. Obras:

Na Guiné com o PAIGC, reportagem escrita nas zonas libertadas da Guiné em 1974, edição da autora, Lisboa, 1975;no jornal da Guiné-Bissau , Nô Pintcha, redige, em 1975, a página de literatura africana de língua portuguesa. Traduz textos inéditos de Amílcar Cabral escritos em língua francesa e recolhe na aldeia de Eticoga (ilha de Orangozinho, arquipélago dos Bijagós), a lenda da origem das saias de palha; Corpo Colonial, Centelha, Coimbra, 1981 (romance distinguido com uma menção honrosa pelo júri da APE; traduzido em búlgaro); Zona (ficção), edição da autora, Lisboa, 1984 (esgotado); O Claro Vento do Mar, Bertrand Editora, Lisboa, 1996; Amar a Uma só Voz ( Mariana Alcoforado nas Elegias de Duíno), Colóquio Rilke, organizado pelo Departamento de Estudos Germanísticos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa,  Edições Colibri, Lisboa, 1997 e publicado no nº 59 da  revista electrónica brasileira AGulha (www.revista.agulha.nom.br;  A Amante Judia de Stendhal (ensaio), revista O Escritor,  n.º 11/12, Lisboa, 1998; E Matilde  Dembowski ( ensaio sobre Stendhal), revista O Escritor, nº13/14, 1999 ; A Guerra Colonial e a Memória do Futuro, comunicação apresentada no Congresso Internacional sobre a Guerra Colonial, organizado pela Universidade Aberta, Lisboa, 2000; A Pele dos Séculos (romance), Editorial Caminho, Lisboa, 2001; tem publicação dispersa em prosa  por vários jornais e  suplementos literários. Participou  com comunicações nas Jornadas de Timor da Universidade do Porto sobre cultura timorense e sobre a Língua Portuguesa em Timor na S.L.P. A sua poesia encontra-se dispersa por publicações como NOVA 2 (1975), um magazine dirigido por Herberto Helder; o seu poema Primavera e Sono com música de Paulo Brandão foi incluído por  Jorge Peixinho no 5º Encontro de Música Contemporânea promovido pela Fundação Gulbenkian e mais tarde incluído no ciclo Um Século em Abismo — Poesia do Século XX realizado no C.A.M.;  recentemente  publicou poesia nas seguintes publicações : Antologia da Poesia Erótica, Universitária Editora; Cartas a Ninguém de Lisa Flores e Ingrid Bloser Martins, Vega ; Na Liberdade, antologia poética, Garça Editores; Mulher, uma antologia poética integrada na colecção Afectos da Editora Labirinto; Um Poema para Fiama, uma antologia publicada pela Editora Labirinto; excertos do seu romance inédito, A Batalha das Lágrimas foram publicados em Mealibra,  revista de Cultura do Centro Cultural do Alto Minho.Na revista Foro das Letras foi publicado o seu  Caderno de Viagem ao Recife.

 
 

 

 

 




 



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