Joana Ruas lê a sua palestra na 8ª Bienal.
Foto TriploV
::::::::::::::::::::::JOANA RUAS:::::::::::::::::

Aproximar o  distante — Do Estranho ao familiar
Duas Experiências : Timor-Leste  e Guiné-Bissau

Palestra proferida na 8ª Bienal Internacional do Livro do Ceará. Fortaleza, 12-22 de Novembro de 2008

INDEX

a) A Herança dos Conquistadores

b) O duplo imperativo contraditório presente em dois contos: "Folhas Vermelhas" de William  Faulkner e "O Meu Tio o Iauaretê" de João Guimarães Rosa

c) Almamundo - uma  experiência com o povo de  Timor-Leste.
 
d) A Luta é a minha primavera - a minha experiência na Guiné-Bissau.

BIBLIOGRAFIA

A Herança dos Conquistadores

O encontro entre os navegantes portugueses e os habitantes destes territórios que o escrivão da Armada, Pêro Vaz de Caminha nos relatou através da Carta  (1) enviada a D.Manuel I sobre a nova do «achamento» do Brasil, em 1 de Maio de 1500, nesse instante  incoativo, o espírito  de aproximação que presidiu a esse contacto, desapareceu no fundo escuro em que ficaram apagados muitos Povos da Terra e onde está mergulhada a quase totalidade dos que sobreviveram à grande erosão humana provocada pelas conquistas europeias. Jacques Le Goff em O Maravilhoso e o Quotidiano no Ocidente Medieval (2), obra publicada em 1983, escreveu —  "Os homens que conceptualizaram as grandes descobertas geográficas incluíram os homens novos em dois conjuntos fundamentais: o da animalidade domesticável e o da animalidade selvagem, os primeiros destinados à conversão e ao trabalho, os segundos ao extermínio". Montaigne (1533/1592), evocara já nos seus Essais (3) as aldeias arrasadas, muitas nações exterminadas, muitos milhões de povos passados pelo fio da espada. Foi Montaigne quem introduziu na Literatura o primitivo vindo de longe. Gonzalo, o personagem de A Tempestade de Shakespeare e a sua república ideal foram tirados à letra da versão de Florio, do capítulo  Cannibales, donde saiu o anagrama Calibán (Canibal) com que Shakespeare baptizou o primitivo habitante da ilha, o bom selvagem, o homens das "terras novas " como lhe chamava Montaigne. Cimbelino, Conto de Inverno e A Tempestade, constituem a trilogia com a qual Shakespeare encerra a sua carreira dramática. Luis Astrana Marin, autor da versão castelhana das obras completas de Shakespeare, no estudo preliminar que fez d'A Tempestade (4), elucida-nos sobre a influência exercida na obra do dramaturgo inglês pelos contos Noches de Invierno de Antonio Eslava, publicados em 1609 em Madrid. Astrana Marin nota a analogia existente entre A Tempestade, obra concluída em 1611,  e uma das narrativas de Noches de Invierno, precisamente A História de Nicéforo e Dardano. Nesta narrativa, o ambiente é indiano (americano), passa-se numa ilha, os nomes são os de Sebástian e Miranda, nomes que Shakespeare retém e que constam também de uma das muitas "Relaciones" que circulavam em meados do século XVI sobre um acontecimento da conquista da América ocorrido em 1526. O que se passava nessas paragens longínquas era conhecido não só através das Relaciones enviadas pelos Jesuítas e mantidas secretas, mas também através dos marinheiros cujos relatos corriam velozmente entre uma população ávida de curiosidade por um mundo até então desconhecido dos europeus.

O mundo das conquistas não conhecia ainda nem a fecundidade do trabalho nem o valor da economia. Daí os massacres e as exacções que os conquistadores cometiam pela febre do ouro e da prata, nessas empresas que se pretendiam movidas pela dilatação da Fé. Era este o espírito inerente ao modo de estar e de agir  dos conquistadores, numa idade clássica em que não existe na ordem do saber nem vida, nem ciência da vida, nem produção, nem consequentemente, economia política. Na idade clássica, como nos elucida Michel Foucault em As Palavras e as Coisas (5), o solo da "economia" é a riqueza.

A antiga concepção do mundo dominada pela ideia da  Revelação, foi contudo abalada pela descoberta de uma humanidade exótica, cuja realidade  permaneceu oculta por uma rede de negações e idealizações do seu estado selvagem. No século XVIII não existiam nem o discurso etnológico nem o discurso antropológico. O pensamento de Buffon (1707-1788),  autor de Histoire Naturelle, publicada em 1749, revelar-se-ia particularmente fecundo para o progresso do universo das ciências humanas. Sobre a sua importância neste domínio, Michèle Duchet, na sua comunicação Monde Civilisé et Monde Sauvage au Siécle des Lumières (6) , afirma : "Quando a ideia de uma cadeia contínua dos seres e das espécies ordenava toda a vida segundo um projecto divino, Buffon separa o Homem de Deus e da criação, e essa recusa do antropocentrismo é precisamente o que lhe permite conceber uma antropologia, ciência do Homem e das suas actividades específicas — das suas "operações naturais" —  que fazem dele uma "classe à parte". O Homem em todo a parte sentindo, vivendo, agindo como Homem, tal é o objecto que Buffon se propõe estudar, separando radicalmente dois discursos até então confundidos, escrevendo um tratado sobre o Homem sem tratar ao mesmo tempo de Deus». Na senda de Buffon esteve Petrus Camper, na Holanda e Alexander von Humboldt na Alemanha. Os enciclopedistas , aliando o espírito de liberdade ao da universalidade da natureza humana asseguraram a convergência dos saberes positivos e de um humanismo moderno. No entanto, as leis universais das Luzes veiculadas pela Histoire des Deux Indes de Raynal, condenavam os ameríndios à  integração ou à morte. Para Foucault ,  a genealogia humanista não  nasceu no século XVIII mas sim em finais do século XIX. Em As Palavras e as Coisas  afirma "que antes do fim do século XVIII, o homem não existia" —  precisando, mais à frente: "O humanismo do Renascimento, o racionalismo dos clássicos puderam, é certo, dar um lugar privilegiado aos humanos na Ordem do Mundo, mas o que não puderam foi pensar o homem". De facto, quando os  primeiros etnólogos chegam ao terreno no início do século XIX,  encontram o mundo dito selvagem, fosse africano ou americano, em estado de desequilíbrio devido ao contacto pejorativo com exploradores, missionários ou simples comerciantes. Dois brasileiros exprimiram de forma radical  esse trágico extermínio:  Luís Guimarães Júnior (1845-1898),   ao evocar  Castro Alves,  o poeta  da Cachoeira de Paulo Afonso e que conhecera em 1869 na sua vida académica em Pernambuco, referiu-se-lhe como "a vasta necrópole dos povos extintos,  párias que atravessam as pompas das nossas vidas cobertos de lutos e de lágrimas». E nos anos cinquenta do século passado, Darcy Ribeiro (1922-1997), tendo contactado com os Urubu-Kaapor, com notável lucidez registou em Diários Índios (7) : «O certo é que não sabemos nos aproximar de outros povos sem destruí-los. A nossa civilização ocidental, cristã e europeia, tão destruidora e igualmente má para si própria, cria um tipo de sociedade que só tem podido viver e prosperar à custa de milhões de vidas escravizadas e anuladas».

Esse fundo escuro  para onde foi lançada a quase totalidade dos povos das terras descobertas, ocultava também aquele que, no dizer de Michel Foucault , constituía o "ser bruto esquecido desde o século XVI até que com Hölderlin, Mallarmé e Artaud, a literatura, através de uma espécie de contradiscurso se desprendeu, por um corte profundo, de linguagens alheias".

O mundo da criatividade é aberto e o espaço literário possui a inestimável qualidade da utopia e da reversibilidade. Hypérion, personagem de Hölderlin que dá o seu nome à  obra Hypérion ou O Ermita da Grécia, num estado psíquico de antecipação poética, ao sentir que no seu passado estaria a chave do seu futuro, desvenda-nos que há uma reversibilidade de sentido ou de direcção na história dos indivíduos. Rompendo  com esse passado de terror, para recuperar um sentido que tinha  com a acção dos homens sofrido uma distorção ou mesmo um desvio, os homens empenhados no progresso das ciências do homem, visaram, através de um novo contacto, criar a possibilidade do  restabelecimento do elo inicial  que o impacto das conquistas tinha corrompido e iniciar a caminhada da consciência no sentido da reconciliação do homem com o seu mundo concreto e espiritual .

No Brasil, já se havia iniciado, em 1694, a formação do povo brasileiro pois quando os Paulistas requereram  a administração directa dos Índios até aí entregue a eclesiásticos, o Padre António Vieira (8), dirigindo uma campanha contra os Paulistas necessitados de Índios para os trabalhos da mineração do oiro, reconhece aos Índios direitos idênticos aos dos Brancos, mas, contestando embora as pretensões paulistas,  reconhece que «é certo que as famílias dos portugueses e índios em S. Paulo estão tão ligadas hoje umas com as outras, que as mulheres e os filhos se criam mística e domesticamente, e a língua que nas ditas famílias se fala é a dos Índios, e a portuguesa a vão os meninos aprender à escola; e desunir tão natural ou tão naturalizada união, seria género de crueldade entre os que assim se criaram e há muitos anos vivem. Digo, pois, que todos os índios e índias que tiveram tal amor a seus chamados senhores, que queiram ficar com eles por sua livre vontade, o possam fazer sem outra alguma objecção mais que a do dito amor, que é o mais doce cativeiro e a liberdade mais livre».

Passada a vertigem cosmológica provocada pela descoberta do Novo Mundo, trava-se entre os letrados, sobretudo padres e filósofos, um   conflito entre a consciência aguda da alteridade e a sua impotência para a conceber de outra forma. Esse conflito surge na obra do poeta brasileiro José de Santa Rita Durão, autor de "Caramuru (9) , obra que tem como subtítulo "Poema Épico do Descobrimento da Bahia". Neste poema épico, José de Santa Rita Durão, conta como através do casamento de Diogo Álvares , português natural de Viana do Castelo e Paraguaçu, mãe das mães e origem no Brasil da família nobre da Casa da Torre de Garcia D’Avila. Catarina Paraguaçu é, pois,  o símbolo feminino da integração das raças que formaram o povo brasileiro. Índia  tupinambá, natural da região onde hoje é o estado da Bahia, segundo a certidão do baptismo  realizado em junho de 1528 em Saint-Malo na França e encontrada no Canadá, teria sido oferecida por seu pai, o cacique, como esposa ao náufrago português, Diogo Álvares que gozava de grande proeminência entre os Tupinambá da Bahia.  Adoptou o nome cristão de Catarina do Brasil. Segundo a notícia publicada no Correio da Bahia, quarta-feira, 27 de Janeiro de 1999,  trata-se da primeira família brasileira documentada, entrelaçada na geração de Garcia D'Avila com a índia Francisca Rodrigues e na sucessão de Jerônimo de Albuquerque com a filha da aldeia de Olinda, a índia Muira-UbiMaria do Espírito Santo Arcoverde. Seus sucessores vincularam-se à nobreza dos Pereiras e Marinhos, aos descendentes de Domingos Pires de Carvalho casado com Maria da Silva, à geração de Felipe Cavalcanti casado com Catarina de Albuquerque e com a descendência do casal José Pires de Carvalho - Tereza Vasconcellos Cavalcanti de Albuquerque Deus-Dará, dando origem a boa parte da população do Nordeste e a algumas das mais importantes famílias da Bahia e do Brasil, com prolongamentos até nas cortes europeias e, recentemente, na Casa Imperial Brasileira.

O homem barroco acreditava  que o mundo é regido por leis imutáveis, emanadas de um Deus e de uma ordem que são eternos. No  poema épico Caramuru, observamos o duo inseparável de que nos fala Gustavo René Hocke, ilustrativo de um desejo de impressionar pelo pavor, ao dar a dupla perspectiva da beleza e do horror: a beleza da natureza e das mulheres em contraste com a fereza dos costumes como foi o caso da antropofagia. José de Santa Rita Durão, nesta sua obra em que a poesia é, como lhe chamou Simónides de Keos, imagem que fala, descreve o mundo do poder e da ambição, numa arcádia assolada por guerras e em que os índios se substituem aos pastores das éclogas. Contudo, há neste poema de Santa Rita Durão, uma ressonância antropológica que se não nota nos demais poetas árcades, ao referir o pequeno artesanato doméstico de transformação da mandioca : «A puba e a tapioca que é todo o mimo e flor de mandioca

A devoção barroca pretendia glorificar o Criador através da sua criação, daí a tarefa humanista do inventário e da descrição do mundo. Neste poema, publicado em 1781, exemplo de mestiçagem cultural , talvez a primeira de que existe notícia no mundo das Letras, na descrição literária de um espaço novo, a paisagem torna-se cúmplice de uma  união fecunda em que o  retrato ideal da amada é o de uma  nova mulher, uma índia, dando-nos o  poeta, como pano de fundo,  o inventário de todo o mundo natural brasileiro, integrando os animais terrestres assim como o bestiário aquático e aéreo, as preciosidades  como as flores, as ervas aromáticas, as especiarias e os frutos e as descobertas barrocas do chocolate,  do tabaco e da baunilha  que causaram surpresa nos paladares europeus.

Tendo vivido durante mais de 20 anos em Itália, Frei José de Santa Rita Durão entrou em contacto com os Tratados do Amor de autores como Leão Hebreu  e  Bembo em que se propalava uma religiosidade difusa. Apoiado na crença de que   todo o amor é inspirado por Deus, o poeta manifesta-a no erotismo devoto com que  descreve o encontro entre  Paraguaçu e Diogo Álvares e os seus castos amores. Na poética barroca em que toda a diferença é uma semelhança, tal como  entre as flores há uma nova espécie de rosa, a que muda de cor quando o sol gira, assim também nos surge  o Outro e a mulher nova, como  estados paradoxais do mesmo,  não existindo diferença entre a índia Paraguaçu e uma dama europeia. O homem do Barroco sofria o paradoxo de querer conciliar a unidade e a pluralidade, a identidade e a diferença, interrogando-se sempre  em como o Mesmo se podia tornar em tantos e tão diversos seres.

Na  Língua Portuguesa, o corte profundo de que nos fala  Michel Foucault, apenas teve lugar a partir da independência literária do Brasil com  o indianismo dos românticos. A fundação da literatura nacional brasileira tinha necessidade de criar o seu próprio imaginário de molde a dinamizar as tensões sociais e interétnicas. Recordemos que em Portugal a censura oficial actuou nos séculos XVI, XVII e na primeira metade do século XVIII, através da Censura Inquisitorial e, a partir de 1768,  através da Real Mesa Censória criada pelo governo do Marquês de Pombal. A censura interveio na produção intelectual portuguesa quer no que se refere à palavra escrita como à da criação estética. As obras que reportaram a conquista ultramarina eram objecto de censura como aconteceu com  as Lendas da Índia de Gaspar Correia que apenas foi publicada em 1858, assim como  com as Crónicas de Damião de Góis. Quanto à versão de 1616 do  Diálogo do Soldado Prático de Diogo do Couto,  só foi publicada em 1790, enquanto A Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, terminada em 1580, esteve trinta e quatro anos inédita. Os primeiros documentos que nos falam de contactos pacíficos com os habitantes dos novos mundos são o Roteiro de Vasco da Gama e Carta do Achamento do Brasil em que  o indígena não é objecto de presa antes futuro sujeito de permuta. No entanto,  a Carta de Caminha permaneceu igualmente inédita por longo tempo, enquanto a História da Conquista da Índia pelos Portugueses de Fernão Lopes de Castanheda, foi retirada do mercado por reclamação dos nobres descontentes com o retrato deles esboçado pelo historiador. As obras de Voltaire, Rousseau e mesmo de Locke eram apreendidas e em 1791 a  Histoire des Deux Indes de Raynal que estava proibida, tendo dois livreiros franceses sido apanhados a venderem-na, foram presos (10). Esta apreensão deveu-se ao facto de uma   das maiores conspirações havidas em território brasileiro , a da Capitania de Vila Rica em 1790 que ficou conhecida como Inconfidência Mineira, pois Inconfidência era o nome que se dava às doutrinas políticas da liberdade democrática, ter sido considerada inspirada pelas luzes francesas.

Numa convergência entre literatura e história, a primeira geração romântica interessa-se pelo lugar do índio na História do Brasil. Gonçalves Dias (1823 -1864)  que em 1841 fez a sua estreia literária com um poema dedicado à coroação do Imperador D. Pedro II no Brasil, escreveu entre 1850 e 1853, O  Brasil e a Oceânia, uma obra que respondia ao programa elaborado por Pedro II em sessão do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, em que se pedia a comparação do estado dos Timores com o dos Índios do Brasil. Contudo, em carta dirigida em abril de 1850 a Alexandre Teófilo , o poeta confessa:«O trabalho que me deu o Imperador está também na massa dos possíveis; poucos estudos tenho feito sobre a Austrália, e parece-me mais cordato é ir de passeio ao Pará estudar de perto os nossos indígenas»(11). Este foi o início do trabalho de reconstrução de uma nacionalidade integradora de vários povos e raças distintas  a partir da correcção do passado e teve raízes literárias profundas pois em  1850, o poeta Gonçalves Dias, o chefe da literatura nacional como lhe chamou Machado de Assis, elabora então um Dicionário Tupi e publica os seus poemas indianistas sendo o mais famoso deles o poema  Juca Pirama. No Brasil, a preocupação com as Línguas, característica , na época romântica, do nacionalismo mais exaltado,  não abafou o legado do ecumenismo racional do século das Luzes. José de Alencar revela nos seus romances indianistas uma preocupação com a Língua dos povos índios pois para os românticos, a Língua surge como a encarnação do génio de um  povo. A integração dos vocábulos índios na sua linguagem escrita, significou tirar do nada e chamar á existência um mundo, e, tendo-o  trazido ao pensamento, criou para a consciência colectiva da nação um espaço pacificado pela interrelacionalidade. Cada Língua morta arrasta  consigo um universo físico e moral, já o enunciou João Guimarães Rosa em Uns Índios (Sua Fala): «toda língua são rastros de velho mistério». As Línguas indígenas  assim respeitadas, significavam a vontade de manter um património comum de compreensão, pois embora um dicionário registe o estado da língua num dado momento, como o afirmou Georges Gusdorf na sua obra, A Palavra (12): «uma língua não é uma adição mas um horizonte que se move». Influenciado pelo romantismo francês, o cearense José de Alencar publica  os romances indianistas Iracema, Ubirajara e O Guarani .  Quando termina o romance , em Agosto desse ano , em carta ao Dr. Jaguaribe , José de Alencar expõe a sua versão  sobre os  elementos do seu indianismo relevantes nesta obra :«O conhecimento da língua indígena é o melhor critério para a nacionalidade da literatura. Ele nos dá não só o verdadeiro estilo, como as imagens poéticas do selvagem, os modos de seu pensamento, as tendências de seu espírito, e até as menores particularidades de sua vida. É nessa fonte que deve beber o poeta brasileiro; é dela que há-de sair o verdadeiro poema nacional, tal como eu o imagino. Cometendo, portanto, o grande arrojo, aproveitei o ensejo de realizar as ideias que me flutuavam no espírito, e não eram ainda plano fixo; a reflexão consolidou-as e robusteceu.  Na parte escrita da obra foram elas vazadas em grande cópia. Se a investigação laboriosa das belezas nativas, feita sobre imperfeitos e espúrios dicionários, exauria o espírito, a satisfação de cultivar essas flores agrestes da poesia brasileira deleitava. Um dia, porém, fatigado da contínua e aturada meditação para descobrir a etimologia dalgum vocábulo, assaltou-me um receio. Todo este ímprobo trabalho que às vezes custava uma só palavra me seria levado em conta? Saberiam que esse escrópulo d’ouro fino tinha sido desentranhado da profunda camada, onde dorme uma raça extinta? Ou pensariam que fora achado na superfície e trazido ao vento da fácil inspiração?».

Percorreu-se pois um longo caminho no sentido de um novo contacto, e, indo nessa direcção, recordo-vos as Cartas do Sertão (13) que Nimuendajú escreveu ao pernambucano de Olinda, Carlos Estevão de Oliveira. Impregnado do espírito do primeiro romantismo que teve como berço a sua cidade natal, Iena, Nimuendajú, tal como os poetas românticos, sentiu no corpo e no coração que não há perfeição, isto é, satisfação de si, senão na união com os que nos rodeiam. Os primeiros românticos legaram-nos  a experiência do imaginário no longo caminho que vai do estranho ao familiar, patentes  nas obras de Novalis (1772-1801), E.T.A Hoffmann (1776-1822) e Frédéric de la Motte-Fouqué (1777-1843), ao  isolarem o que é simplesmente obscuro ou estranho do que é mau ou tenebroso. No Brasil, os  alemães dominaram o cenário da imigração por quase meio século e só a partir de 1870 é que o fluxo de imigrantes é oriundo de outras nações europeias. O casamento de Pedro I com a Arquiduquesa Leopoldina da casa de Habsburgo teve como consequência a expansão da cultura alemã até então inexistente  no Brasil. A Arquiduquesa Leopoldina fora criada em Viena que era na época o centro cultural do mundo. Na sua comitiva vieram além de Martius e Spix, pesquisadores, cientistas e artistas alemães.

Os estudos etnográficos, que ganharam espaço a partir de meados do século XIX, sendo uma chave científica nova para a compreensão dos povos índios, abalaram algumas das  noções do romantismo antigo. A observação  distanciada ou o saborear artístico no contacto com homens de outra cultura  e de uma outra raça que caracterizou a etnografia , essa objectividade imparcial própria do observador, foi, aqui no Brasil, substituída pela efusão  com Nimuendajú e, mais tarde, com Darcy Ribeiro que em contacto com os Índios restabeleceram e revigoraram esse elo perdido na história  da Humanidade.

No panteão dos deuses gregos figura Hermes, de asas nos pés e na cabeça, mensageiro dos deuses , deus da eloquência, do comércio e dos ladrões. Michel Serres que dá o nome  deste deus grego  a uma vasta obra, define-o no sentido que lhe davam os gregos, pois Hermes é o nome que davam à interpretação pois além de mensageiro era intérprete dos deuses :«Comunicar é viajar, traduzir, trocar: passar ao sítio do Outro, assumir a sua palavra como versão, menos subversiva que transversal, oblíqua, fazer comércio recíproco de objectos». Retomando o espírito de Pero Vaz de Caminha  que na célebre Carta escreveu: «ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem moças e bem gentis, com cabelos muito pretos e compridos pelas espáduas e as suas vergonhas tão altas, tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as muito olharmos, não tínhamos nenhuma vergonha» .E ainda «Além do rio, andavam muitos deles dançando e folgando, uns diante dos outros, sem se tomarem as mãos», numa das suas cartas, Nimuendajú (1883-1945), o príncipe dos etnólogos como lhe chama Darcy Ribeiro,  fala-nos dos banquinhos em forma de pássaro onde os pajés se sentavam. Ocorreu-me de imediato que o banquinho em forma de pássaro era uma das  mais transparentes  figuras simbólicas da  possibilidade dantesca de materialização do espírito  através da viagem  de uma esfera a outra, isto é, dotando-nos da capacidade de imaginar, de colher  imagens nessa imobilidade voadora ou nesse voo dentro da imobilidade. Entre os índios Parikur, compreendendo os seus mestiços creolizados, diz Nimuendajú:«anteontem e ontem assisti a uma dança em casa do pajé Lexan Yuyú (fotografado de frente e de lado, sentado no seu banquinho em forma de pássaro. Cachiri muito! Bebi um bocado e estava bom— bom mêmo. Mas o resultado foi que depois, quando o ar se encheu com o cheiro do cachiri misturado com o aroma do urucu fresco, quando os maracás tiniam nas pontas das varas compridas e o terreiro estremeceu ao ritmo da dança, me voltou tão vivamente a recordação daquele tempo quando eu fiquei homem entre os Guarani que não pude mais resistir: tirei os sapatos e entrei no meio» .Era o apelo da dança colectiva, o apelo que parte do coração para o corpo e deste para o coração maior do cosmos, para o coração mundo, num transe e num frémito que se tornou apanágio do povo brasileiro, na sua síntese feliz do europeu com o índio e o africano. Porque se conversa bem sentados, o banco da conversa, em forma de pássaro, configura uma imobilidade confiante na poder tónico das palavras que nos conduzem  ao outro lado do nosso mundo, perto da lenta vontade geral e de acordo com a lentidão do tempo até à luz e à paz. Conversar assim, é  proporcionar a trégua que conduz não a sonhos de ambição desmedida e  de domínio, mas à esperança leve  num futuro de paz.

Agradeço ao curador da Bienal do Ceará, o poeta e escritor Floriano Martins, o convite que me endereçou para participar nesta Bienal, dando-me assim uma oportunidade de saudar o povo brasileiro  e , numa viagem imóvel em que o tempo é abolido, conversar  sobre duas experiências sobre as quais assentou parte da minha criação romanesca numa terra de tantos antropólogos romancistas. Antropólogos como Darcy Ribeiro, que usando a moderna ciência da etnografia, fizeram sair mundos da nebulosa em que se achavam aos olhos dos civilizados os povos primitivos, trazendo uma nova dimensão ao sentimento contemporâneo do espaço e da linguagem, acrescentando à história do romance, como género literário, a dimensão do político, do sentimento e das diversas e diversificadas  formas de existência.

Além da obra antropológica, Darcy Ribeiro que partia para o desconhecido olhando-o pelos olhos dos Índios, publicou os romances "Maíra", "O Mulo", "Utopia Selvagem" e "Migo". Saúdo ainda nesta Bienal a memória da escritora Rachel de Queiroz (1910-2003), filha ilustre do Ceará e autora de  O Quinze e de Memorial de Maria de Moura. Agradeço ao nosso mediador, o poeta e ensaísta José Ángel Leyva, pela sua presença nesta palestra e por trazer consigo, não só a singularidade do seu percurso poético e ficcional  como  o imenso legado   da cultura  mexicana.

JOANA RUAS. Escritora portuguesa. Obras:

Na Guiné com o PAIGC, reportagem escrita nas zonas libertadas da Guiné em 1974, edição da autora, Lisboa, 1975;no jornal da Guiné-Bissau , Nô Pintcha, redige, em 1975, a página de literatura africana de língua portuguesa. Traduz textos inéditos de Amílcar Cabral escritos em língua francesa e recolhe na aldeia de Eticoga (ilha de Orangozinho, arquipélago dos Bijagós), a lenda da origem das saias de palha; Corpo Colonial, Centelha, Coimbra, 1981 (romance distinguido com uma menção honrosa pelo júri da APE; traduzido em búlgaro); Zona (ficção), edição da autora, Lisboa, 1984 (esgotado); O Claro Vento do Mar, Bertrand Editora, Lisboa, 1996; Amar a Uma só Voz ( Mariana Alcoforado nas Elegias de Duíno), Colóquio Rilke, organizado pelo Departamento de Estudos Germanísticos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa,  Edições Colibri, Lisboa, 1997 e publicado no nº 59 da  revista electrónica brasileira AGulha (www.revista.agulha.nom.br;  A Amante Judia de Stendhal (ensaio), revista O Escritor,  n.º 11/12, Lisboa, 1998; E Matilde  Dembowski ( ensaio sobre Stendhal), revista O Escritor, nº13/14, 1999 ; A Guerra Colonial e a Memória do Futuro, comunicação apresentada no Congresso Internacional sobre a Guerra Colonial, organizado pela Universidade Aberta, Lisboa, 2000; A Pele dos Séculos (romance), Editorial Caminho, Lisboa, 2001; tem publicação dispersa em prosa  por vários jornais e  suplementos literários. Participou  com comunicações nas Jornadas de Timor da Universidade do Porto sobre cultura timorense e sobre a Língua Portuguesa em Timor na S.L.P. A sua poesia encontra-se dispersa por publicações como NOVA 2 (1975), um magazine dirigido por Herberto Helder; o seu poema Primavera e Sono com música de Paulo Brandão foi incluído por  Jorge Peixinho no 5º Encontro de Música Contemporânea promovido pela Fundação Gulbenkian e mais tarde incluído no ciclo Um Século em Abismo — Poesia do Século XX realizado no C.A.M.;  recentemente  publicou poesia nas seguintes publicações : Antologia da Poesia Erótica, Universitária Editora; Cartas a Ninguém de Lisa Flores e Ingrid Bloser Martins, Vega ; Na Liberdade, antologia poética, Garça Editores; Mulher, uma antologia poética integrada na colecção Afectos da Editora Labirinto; Um Poema para Fiama, uma antologia publicada pela Editora Labirinto; excertos do seu romance inédito, A Batalha das Lágrimas foram publicados em Mealibra,  revista de Cultura do Centro Cultural do Alto Minho.Na revista Foro das Letras foi publicado o seu  Caderno de Viagem ao Recife.

 
 

 

 

 




 



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