JOANA RUAS::

Se preciso fosse, ao Mundo,  apresentar o meu País
De Jean-François Brièrre

Trad. de Joana Ruas

Se preciso fosse, ao Mundo,  apresentar o meu País

Eu diria a beleza, a doçura e a graça

Das suas manhãs melodiosas, e das suas tardes gloriosas

Eu diria o seu céu límpido, eu diria o seu ar doce

A disposição harmoniosa dos montes azulados;

As suaves ondulações das suas colinas próximas

A cintilante esmeralda dos canaviais ao sol

As cascatas deslizando entre pedras grossas:

Diáfanas cabeleiras entre dedos nodosos

E os sóis mergulhando em mares de turquesa..

Diria quais tochas vermelhas erguidas ao firmamento,

A beleza fulgurante das buganvílias ardentes

E este azul, e este verde, tão dourado, tão límpido

Que queríamos nos  braços apertar a paisagem.

Diria o lenço azul da mulher

Descendo a vereda com o cesto à cabeça

O ondulante balancear das suas robustas ancas

E a melopeia grave dos homens no campo,

E à noite o ranger do moinho sob a lua ,

Os fogos na montanha a meio caminho do céu;

O café que se colhe nos cumes altaneiros

O inebriante aroma das goiabas maduras...

Diria nas cidades, os torsos nus e bronzeados

Daqueles que, na rua sob um sol escaldante,

Não se deixam intimidar pelo mais pesado fardo;

E os remadores trazendo para o abrigo dos portos,

Quando cai a tarde, os barcos dançantes

Enquanto as ilhas ao largo, indolentes,

Deixam subir em fumo, ao fundo do crepúsculo

A lenta súplica dos fumeiros longínquos...

Mas afino a minha voz com um ardor mais aguerrido

Para dizer a valentia daqueles que o forjaram

Eu diria a lição que ao mundo assombrado

Deram aqueles de que se cria serem  apenas  escravos submissos.

Diria a altivez, diria o áspero orgulho,

Presentes que nos nossos berços achámos depostos

E o obstinado amor que trazemos em nós

Por uma liberdade três vezes sangrenta...

E a efervescência viva subindo nas nossas artérias

Quando ao fundo dos nossos bosques ouvimos à noite

O cónico tambor que os nossos remotos antepassados

Trouxeram até nós das margens da África

Mãe para a qual sem cessar voltamos os olhares...

 Se preciso fosse, ao mundo,  apresentar o meu País

Eu diria mais, eu diria talvez menos ainda.

Eu diria o teu bom coração, ó povo da nossa terra.

(Anthologie de la Nouvelle poésie nègre et malgache,
Presses Universitaires de France, Paris)

Jean-François Brièrre nasceu em Jérémie, no Haiti. Perseguido  pelo ditador Duvalier é acolhido no Senegal. Com o fim da ditadura regressa ao Haiti tendo morrido em Port-au-Prince na noite de 24 para 25 de dezembro de 1992.

JOANA RUAS. Escritora portuguesa. Obras:

Na Guiné com o PAIGC, reportagem escrita nas zonas libertadas da Guiné em 1974, edição da autora, Lisboa, 1975;no jornal da Guiné-Bissau , Nô Pintcha, redige, em 1975, a página de literatura africana de língua portuguesa. Traduz textos inéditos de Amílcar Cabral escritos em língua francesa e recolhe na aldeia de Eticoga (ilha de Orangozinho, arquipélago dos Bijagós), a lenda da origem das saias de palha; Corpo Colonial, Centelha, Coimbra, 1981 (romance distinguido com uma menção honrosa pelo júri da APE; traduzido em búlgaro); Zona (ficção), edição da autora, Lisboa, 1984 (esgotado); Colaborou no Suplemento Literário do Diário Popular e,  na página literária do Diário de Lisboa, foi publicado  um seu trabalho de análise crítica intitulado O Lado Esquerdo da Noite sobre o romance de Baptista Bastos, Viagem de um Pai e de um Filho pelas Ruas da Amargura; na Revista cultural Algar numa edição da Casa Museu Fernando Namora em Condeixa, apresentou   um estudo sobre o romance Fogo na Noite Escura de Fernando Namora; colaborou com textos na página de Letras e Artes, Alma Nova, do jornal O Mirante, no Notícias de Elvas, no União, Quarto Crescente, Jornal do Sporting com poemas inéditos e com um trabalho de análise crítica sobre a narrativa dramática de Norberto Ávila, As Viagens de Henrique Lusitano; O Claro Vento do Mar(romance)  Bertrand Editora, Lisboa, 1996; Amar a Uma só Voz ( Mariana Alcoforado nas Elegias de Duíno), Colóquio Rilke, organizado pelo Departamento de Estudos Germanísticos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa,  Edições Colibri, Lisboa, 1997 e publicado no nº 59 da  revista electrónica brasileira Agulha (www.revista.agulha.nom.br;  A Amante Judia de Stendhal (ensaio), revista O Escritor,  n.º 11/12, Lisboa, 1998; E Matilde  Dembowski ( ensaio sobre Stendhal), revista O Escritor, nº13/14, 1999 e revista electrónica (www.revista.agulha.nom.br e Triplov; A Guerra Colonial e a Memória do Futuro, comunicação apresentada no Congresso Internacional sobre a Guerra Colonial, organizado pela Universidade Aberta, Lisboa, 2000; A Pele dos Séculos (romance), Editorial Caminho, Lisboa, 2001;.Participou  com comunicações nas Jornadas de Timor da Universidade do Porto sobre cultura timorense e sobre a Língua Portuguesa em Timor na S.L.P. A sua poesia encontra-se dispersa por publicações como NOVA 2 (1975), um magazine dirigido por Herberto Helder; o seu poema Primavera e Sono com música de Paulo Brandão foi incluído por  Jorge Peixinho no 5º Encontro de Música Contemporânea promovido pela Fundação Gulbenkian e mais tarde incluído no ciclo Um Século em Abismo — Poesia do Século XX realizado no C.A.M.;  recentemente  publicou poesia nas seguintes publicações : Antologia da Poesia Erótica, Universitária Editora; Cartas a Ninguém de Lisa Flores e Ingrid Bloser Martins, Vega ; Na Liberdade, antologia poética, Garça Editores; Mulher, uma antologia poética integrada na colecção Afectos da Editora Labirinto; Um Poema para Fiama, uma antologia publicada pela Editora Labirinto; ; tem colaboração nas revistas  Mealibra,  revista de Cultura do Centro Cultural do Alto Minho e na  Foro das Letras revista da Associação Portuguesa de Escritores-Juristas  onde publicou Caderno de Viagem ao Recife . Na revista electrónica Triplov foi publicado um Roteiro sobre a sua obra, A Pele dos Séculos. Em 2008, a Editora Calendário publicou o seu romance histórico A Batalha das Lágrimas. Participou na 8ª Bienal  Internacional do Livro do Ceará onde proferiu uma palestra intitulada Aproximar o Distante, Do Estranho ao Familiar —  duas experiências: Timor-Leste e Guiné-Bissau.
 

 

 

 




 



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