Isabel Serra
Entre chuva e rosas

ENTRE CHUVA E ROSAS - INDEX

Rosas de um jardim
Fotografia de um bar
Um amor de croissant
Copos de cristal
Velhas fotografias
Amor pedagógico
Piqueniques na cidade
Um olhar diferente
Perfeição
Rompendo à chuva

PIQUENIQUES NA CIDADE

Margarida sempre gostou de viver na rua. Quando, nas suas deambulações pela cidade, vê os operários cá fora a almoçar, olha-os com inveja, pensando que trocaria de boa vontade a sua cantina bafienta pelo exterior. Resolveu confessá-lo, um dia em que almoçava na cantina com o Luís, um colega.

- Mas podes fazê-lo, Margarida, é só uma questão de te dispores a isso. Trazes a tua marmita, ou a tua sanduíche, e sentas-te a comê-la num banco de jardim, ou no relvado aqui em frente. Claro que fazer a fogueira, ou dispor de uma tábua montada em tijolos, já é mais difícil. Mas se dispensares esses elementos de cenário podes reproduzir a situação do operário da construção civil que come no exterior. Ah, deves também precaver-te com um chapéu-de-chuva, ou então escolher bem os dias em que decides almoçar lá fora.

Embora tivesse ironizado, o Luís ficou curioso e a curiosidade por outra pessoa conduz frequentemente a uma aproximação. A relação entre ambos que, até aí, era civilizada e agradável mas asséptica, mudou completamente. Começaram por fazer, de vez em quando, piqueniques em substituição dos almoços de cantina. Levavam vinho e queijo e comiam em sítios da cidade que lhes parecessem interessantes.

Esses almoços constituíam um desafio para ambos. Tinham não só que escolher o vinho e o queijo, como também o local. Lisboa tem sítios inimagináveis para quem almoça sempre em cantinas ou restaurantes! E também era um desafio porque o Luís e a Margarida não sabiam o que é que significavam aqueles almoços. Estariam a ter uma relação amorosa?

Durante esse período Margarida divertia-se a procurar uma classificação para os encontros. “Digressão gastro-existencial, com laivos de namoro, à volta do queijo e do vinho”. “Alternativa saudável, romântica e panorâmica aos enfadonhos almoços na cantina”. “Animada tertúlia a dois num banco de jardim, acompanhada por queijo e vinho, em substituição de almoço no restaurante acompanhado por conversa monótona e repetitiva”. O Luís ria-se dos seus ditos e ajudava-a a procurar frases melhores. Conversavam também sobre muitas outras coisas e às vezes prolongavam a hora do almoço regressavam ao trabalho tarde, com um ar culpado e... sempre separados. O Luís era casado e queria manter a imagem de homem fiel.

O convívio de ambos era marcado pelas diferentes situações familiares. Enquanto Margarida era divorciada e vivia só com o filho, Luís tinha mulher e filhos e fazia questão de manter Margarida firmemente à distância. Embora ela não procurasse ultrapassar essa distância, acabou por se sentir afectada pela situação passou a evitar os piqueniques, arranjando os mais diversos pretextos. O Luís, naturalmente, apercebeu-se da sua atitude de fuga e um dia interpelou-a no corredor.
- Luís, é melhor não falarmos aqui dos piqueniques, não te esqueças da prudência.
- Tens razão −  respondeu ele − Porque é que não vamos almoçar amanhã num restaurante sossegado e então conversamos? Está combinado ao meio-dia?”
 A pergunta foi feita com aquele charme de que os homens são capazes quando pensam que uma mulher está a querer romper com eles. Margarida cedeu.

Foram almoçar juntos no dia seguinte, desta vez num restaurante. Sentiram-se estranhos, sentados a uma mesa, depois de tantos almoços sentados no chão ou em bancos de jardim. Esse contraste teve um efeito estimulante. Começaram a recordar alguns episódios vividos durante os piqueniques, riram-se e comoveram-se.

- É absurdo abdicarmos de momentos tão bons, não é Margarida?

- Dizes isso porque tens uma posição privilegiada nesta história. Depois dos piqueniques vais para casa e tens lá uma pessoa com quem partilhar a continuação da vida. Mas eu sinto-me frustrada. Tenho o meu filho, mas não é a mesma coisa do que um adulto. Também não me apetece ter mais ninguém porque te tenho a ti. Não sei viver com duas pessoas ao mesmo tempo, como fazem muitos homens.
- Já podias ter falado disso, Margarida, não posso adivinhar o que sentes! Parecias sempre tão bem disposta durante os nossos almoços!
- E estava de facto, enquanto eles duravam. Mas a boa disposição era substituída por tristeza e angústia, assim que ia para casa. Por vezes até para o meu filho eu ficava indisponível, depois de ir almoçar contigo. Se nunca falei do meu mal-estar foi porque me disseste que a tua vida era estável. Não quero ser causa de sofrimento dos outros. Ou seja, gosto muito de estar contigo mas não estou a aguentar viver assim.

O Luís ficou em silêncio durante uns minutos. Depois falou com uma voz meiga e pausada.

- Devias ter-me falado disso mais cedo. Não tinha a mínima ideia de que te perturbava. Muitas vezes pensei que encaravas esta relação de uma forma bastante superficial. Sei pouco da tua vida mas o que sei levou-me a pensar que preferes viver só com o teu filho. Algumas das tuas histórias parecem mostrar que tens dificuldade em entender-te com os homens. Pensei até que este nosso convívio era uma boa solução para a tua vida. Tens companhia masculina de vez em quando mas não tens que aturar um homem em tua casa. Reconheço que os homens são muito difíceis. É o que dizem muitas mulheres, entre as quais a minha.

- Quem encara esta relação de uma forma superficial és tu! Mas não és capaz de o reconhecer! Arranjaste então um álibi para a tua superficialidade - as histórias da minha vida! Deste-lhes a interpretação que mais te convinha para me manteres à distância.

Não há dúvida, Margarida estava a fazer uma cena, sentada à frente do Luís, quase em lágrimas, enquanto ele mantinha o habitual ar calmo e fleumático e lhe respondia calmamente.

- Surpreendes-me, Margarida. Sempre pensei que eras uma pessoa equilibrada que tinhas compreendido, na vida, a distinção entre o essencial e a fantasia. Tu e eu somos a fantasia de que toda a gente precisa para viver. O essencial é, pelo menos para mim, para além do meu trabalho, a minha casa com a minha mulher e os meus filhos. Não sei se tu também fazes essa separação. Mas, com o que tu me contas da tua vida, parece-me que se quiséssemos viver juntos, também tu terias que abdicar de coisas essenciais.

Margarida pensou que talvez ele tivesse razão, mas apesar disso continuava a sentir que a situação era injusta, uma injustiça difícil de explicar. Só lhe ocorreu dizer:

-Nunca mais faço piqueniques com ninguém.

- Espero bem que não Margarida, para mim a fidelidade é muito importante. É-me insuportável imaginar-te a reproduzir os nossos almoços com outra pessoa.

Enquanto Margarida, estupefacta com a resposta, recuperava, o Luís continuou a desenvolver a sua teoria sobre fidelidades e traições.

- Margarida, se tu analisares bem as tuas relações de amor e de amizade, verás que encontras essa noção de fidelidade de que falo. Toda a gente a possui, mesmo que não tenha consciência dela. Por exemplo, tenho amigos que vão ao futebol sempre com a mesma pessoa e só rompem essa regra em circunstâncias muito especiais. O meu filho mais novo vai ao cinema sempre com a mesma amiga, embora por vezes acompanhado com outros amigos. Mas há uma que está sempre presente. Já falámos sobre isso, porque acabei por reparar que era assim. Podes encontrar o mesmo fenómeno em quase todas as relações importantes. Sempre imaginei que me eras fiel nos piqueniques e eu posso garantir-te também uma fidelidade absoluta nesse campo. Se um dia rompermos, não farei piqueniques com mais ninguém, prometo-te.

Sim, ele estava a falar a sério, embora com uma ponta de ironia. Margarida acabou por rir.

- Também não estou a imaginar-te teres outra amiga como eu, que alinhe nestas parvoíces. As tuas amigas são com certeza muito formais, gostam de almoçar em restaurantes caros, vestidas e perfumadas a preceito.

- Vês, outra fidelidade -  respondeu ele a sorrir, sem parecer ofendido.

Acabaram o almoço a procurar “fidelidades”, frequentes e raras, nos casos amorosos de que conheciam e foi assim que Margarida adiou o rompimento com o Luís para outro dia. E o Luís conseguiu o que queria, embora o tenha feito sem parecer que estava a lutar por alguma coisa, guardando sempre a distância e a frieza que lhe são próprias.

Professora da Faculdade de Ciências de Lisboa. Membro do CICTSUL.
 
 

 

 

 




 



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