Isabel Serra
Entre chuva e rosas

ENTRE CHUVA E ROSAS - INDEX

Rosas de um jardim
Fotografia de um bar
Um amor de croissant
Copos de cristal
Velhas fotografias
Amor pedagógico
Piqueniques na cidade
Um olhar diferente
Perfeição
Rompendo à chuva

PERFEIÇÃO

Perfeição é a palavra que lhe vem à memória sempre que se lembra dele. Ainda criança, e depois adolescente, Margarida ficava a vê-lo trabalhar, sentada no muro da quinta da avó, as pernas penduradas a balouçar. O Joaquim fazia pequenos trabalhos de pedreiro, estucador, pintor e mais não sei o quê. Levava muito tempo, demasiado tempo, na opinião da avó. Mas fazia tudo com perfeição, os remates, os cantinhos, os acabamentos. Margarida fazia-lhe perguntas e ele ia-lhe explicando, exemplificando, sempre muito pausadamente. Ele foi a sua primeira paixão, embora na altura ela não o soubesse, ou não ousasse sequer pensar nesses termos. Mas agrava-lhe vê-lo trabalhar, não só por causa da perfeição mas também porque ele era bonito a manipular pás, martelos e pincéis.

Esse período dourado da infância acabou no dia em que, Margarida, já adolescente, a avó os encontrou no terraço. A jovem estava sentada no muro com as pernas a balouçar e ria-se perdidamente com alguma observação do Joaquim. Ele, por instantes, tinha parado de trabalhar e olhava-a a sorrir com os seus olhos azuis brilhantes e o seu cabelo revolto. Foi exactamente assim que a avó lhe descreveu a cena. Disse-lhe também que ela estava a ficar uma rapariga crescida, não podia pôr-se sentada num muro, diante de um rapaz da província, vestida de mini-saia e com as pernas a balouçar.

Margarida chorou perdidamente, primeiro com a avó e depois sozinha. Naquela altura chorou porque sentiu que era uma injustiça, pois não estavam a fazer nada de “mal”. Agora, que já passaram muitos anos, percebe que o que chorou foi a infância perdida. Chorou o não poder mais amar assim sem saber que amava. Chorou o ter que passar a olhar à volta antes de se sentar num muro, as pernas a baloiçar.

A sua vida nunca mais foi a mesma, depois desse dia, não só com o Joaquim mas também com outros rapazes, da província ou da cidade. Poucas vezes mais esteve com ele em grande proximidade física. Encontrou-o alguns anos depois numa estação de comboio mas quase não o reconheceu e não gosta de recordar esse encontro. Mas lembra-se sempre do Joaquim quando vê um amigo a cozinhar, com aquele método e aquela perfeição de que só os homens são capazes.

Professora da Faculdade de Ciências de Lisboa. Membro do CICTSUL.
 
 

 

 

 




 



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