Isabel Serra
Entre chuva e rosas

ENTRE CHUVA E ROSAS - INDEX

Rosas de um jardim
Fotografia de um bar
Um amor de croissant
Copos de cristal
Velhas fotografias
Amor pedagógico
Piqueniques na cidade
Um olhar diferente
Perfeição
Rompendo à chuva

UM OLHAR DIFERENTE

Em geral não gostava quando os homens olhavam para mim, mas o olhar do Manuel era diferente. Foi assim que reparei nele pela primeira vez. Era um olhar de um certo encantamento, de ternura misturada com alguma ironia, ou humor. Nos primeiros tempos em que andámos, e mesmo depois de casados, esse olhar encantava-me. Provocava-me amor, vontade, desejo e muitos outros sentimentos impossíveis de definir. Fazia-me sentir que eu era uma pessoa especial, amada, uma razão de encanto e de prazer. O olhar do Manuel fazia-me existir de forma diferente.

Cheguei a sonhar com esse olhar. Sonhava que estávamos frente a frente, num sítio que eu não sabia identificar mas bastante despido dos artefactos que em geral existem à nossa volta. Talvez fosse em frente ao mar. Só havia o olhar do Manuel, aquele olhar sedutor, terno, envolvente.

Depois, houve um dia em que o olhar me provocou irritação. Tínhamos discutido por qualquer motivo insignificante e o olhar do Manuel pareceu-me desadequado. Desde aí nunca mais deixei de sentir, de vez em quando, que esse olhar não tinha a medida apropriada às situações.

O deteriorar do nosso amor fez-me esquecer que gostava que ele olhasse para mim. A lembrança do seu olhar passou a ser esporádica, ocasionalmente despertada por um acontecimento exterior. Uma vez foi no cinema. Uma das personagens falou da forma de olhar de um apaixonado seu. Lembrei-me então do olhar do Manuel e corri para casa com vontade de o reviver. O Manuel não estava e, quando chegou, não consegui reproduzir o sentir de antigamente. Teria sido o olhar dele que mudou? Eu não era já capaz de o despertar? Ou seria eu que já não o conseguia ler?

A mudança do olhar foi um sintoma da separação que se avizinhava. Quando conheci o Álvaro reparei também no olhar dele. Agradou-me. Agora, quando ele chega a casa, vigio a sua forma de olhar. Vejo se ele está mal ou bem disposto. Consigo perceber como correu o dia. Procuro também aquela chamazinha que alimentou a nossa relação, nascida em condições tão difíceis. Quando a vejo sinto-me segura. Lá está o olhar a demonstrar que estamos bem, a provar que esta união ainda existe. O olhar do Álvaro é reconfortante, mas nada se compara ao olhar do Manuel nos nossos primeiros tempos.

Professora da Faculdade de Ciências de Lisboa. Membro do CICTSUL.
 
 

 

 

 




 



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