Isabel Serra
Entre chuva e rosas

ENTRE CHUVA E ROSAS - INDEX

Rosas de um jardim
Fotografia de um bar
Um amor de croissant
Copos de cristal
Velhas fotografias
Amor pedagógico
Piqueniques na cidade
Um olhar diferente
Perfeição
Rompendo à chuva

AMOR PEDAGÓGICO

Tinha dezoito anos quando aconteceu a minha primeira relação amorosa consistente. Apaixonei-me pelo Francisco que era seis anos mais velho do que eu. Ele ensinou-me, persistentemente, que a fidelidade não existe, é apenas uma forma de poder de umas pessoas sobre as outras. As principais vítimas desse poder são as mulheres, dizia ele. No nosso caso, eu era apenas vítima de enormes ciúmes das relações que ele estabelecia com outras mulheres. Mas a sua atitude comigo era tão pacientemente pedagógica que acabou por me convencer de que era normal gostar-se de várias pessoas ao mesmo tempo. Os outros homens não me interessavam mas, por convicção ideológica, e com a leveza da juventude, eu acreditava que tudo iria mudar um dia.

Acabou por acontecer. Cresci, amadureci, e acabei por me interessar por um colega que frequentava os mesmos locais que eu e que me fazia a corte de forma tão discreta que eu nunca tinha a certeza de nada. Sempre gostei que me namorassem assim. Detesto que os homens se comportam ostensivamente como predadores. Para mim, o encanto afirma-se lentamente, ao longo de encontros em que a ambiguidade só se desvanece num momento final, ou mesmo nunca.

No dia em que decidi que gostava do Luís, contei logo ao Francisco. Podia enfim corresponder à sua atitude de partilhar comigo as histórias de outros amores. Até hoje ainda não encontrei explicação para a sua reacção. Não quero acreditar na máxima de algumas mulheres, “é sempre assim que os homens reagem à infidelidade feminina”. O argumento principal que ele usou foi que a minha infidelidade era diferente da dele porque eu estava em vias de estabelecer uma “relação alternativa”. O bom senso, confirmado pela sabedoria da idade, diz-me que quando uma pessoa mantém duas relações amorosas, elas são sempre alternativas mas, ao mesmo tempo, não o são. Claro que na altura eu era muito inocente e não soube esgrimir argumentos com o Francisco. Depois de dias passados a discutir a questão acabámos por romper.

O gosto amargo dessa ruptura durou algum tempo, em que me interroguei sobre o significado das suas atitudes e das minhas, na questão do amor. Mas o legado mais importante da relação foi o ter percebido que se pode gostar de duas pessoas ao mesmo tempo, pelo menos de forma temporária, mesmo que seja difícil viver nessa situação. A capacidade pedagógica do Francisco, apoiada pela minha experiência, deu frutos que ainda hoje persistem.

Professora da Faculdade de Ciências de Lisboa. Membro do CICTSUL.
 
 

 

 

 




 



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