Nova Série

 
 

 

 

 

 

Luís Dolhnikoff
Rap branco

Lágrimas são salgadas porque não há doçura na dor.

 

Pompeia também era assim.

Velha vila a salvo

à sombra morna

da montanha sólida

que por acaso

desabrochou a grande flor do caos.

 

Pequenas flores

de calor

bocetas são agridoces.

Não há doçura pura.

 

A pura aspereza da dor.

 

Telefone então para a farmácia:

tudo se entrega na cidade.

Cidade-delivery.

Cidade entregue.

 

Aberta sobre o inseto do planeta

a noite é uma grande flor negra.

Ao menos seus grãos de pólen

parecem estrelas.

 

Janelas acesas.

Vidas apagadas.

 

É melhor se render aos fatos

antes que eles atirem em você.

 

Bala abstrata

entranhada na carne

a dor

sangra no cérebro.

 

Em mar aberto

japoneses matam

os mais magníficos animais

que jamais existiram

soberbas baleias

para que logo se tornem

merda humana.

 

Tanta gente insana:

porque foram crianças

nas mãos de gente um tanto insana.

 

O que se quer

de uma mulher

é algum alívio para a dor

tantas vezes por ela excitada.

 

Where is God

when I´m making love?

 

As asperezas da crença

não aparam as rugosidades do caos.

 

Se o mundo não parece mais

poder ser mudado

mude-se a si mesmo.

Foi um chamado à cirurgia plástica.

 

Minha libido foi pro saco.

 

Não há mais como ser como Rimbaud

repudiar a poesia

e a Europa.

Pode-se repudiar a Europa

e a poesia

mas grande porcaria.

 

Não tenho nada contra a poesia contemporânea.

Se acaso achar algo nela, aviso.

 

Perigo.

Risco de explosão do não-sentido.

 

Nas esquinas, mendigos

fazem um malabarismo distraído

com as moedas e os dias

enquanto malabaristas mendigam

centavos de atenção.

 

A esponja do cérebro

não pode mais absorver

o dilúvio de loucura líquida.

 

Quando chove

a cidade alaga

seu caos seco.

 

A computação em nuvem é o melhor reflexo

da cultura-espuma.

 

A poesia contemporânea levou a obsolescência programada ao estado de arte.

 

A renúncia do papa não me interessa

mas a dos poetas.

 

"Fora da Igreja não há salvação".

Dentro também não

principalmente para menores.

 

"Nenhum livro é tão ruim

que dele nada se aproveite"

disse Santo Agostinho.

Naturalmente

ele não conhecia a poesia contemporânea.

 

Só há um mandamento:

"Não faça a ninguém

o que não quer que lhe façam".

Não exige Deus

mas decência.

 

A poesia brasileira vai muito pior que a Igreja.

 

O sexo é a melhor coisa do mundo depois das preliminares.

 

Flores sem caule

não se colhem com cortes

mas com sementes.

 

Laranjeiras têm flores brancas.

Tão brancas quanto a luz do sol

no branco solar da pele branca

como pétala de flor de laranjeira.

 

Xoxotas têm pétalas roxas.

 

Se não existe poesia abstrata

ela que trate de dizer coisa com coisa.

 

A líquida luz quente do sol

sobre o veludo frio da sombra.

 

Não há mais nada a dizer sobre o amor

além de que tudo

o que ainda seja dito

sobre o amor é bendito.

 

O embate não é

entre fé e razão

mas entre fé e lucidez.

 

O islã é uma religião de paz.

Para quem duvidar

há a guerra santa.

 

Há uma guerra civil sutil no país.

 

São Paulo não é uma cidade

mas uma esperança, uma espera e um desespero.

 

Suicidas vegetarianos usam herbicidas.

 

Flores caídas nas calçadas

nunca recolhidas.

 

O sal da saudade só se tempera

com o açúcar do tato.

 

O amor é o sexo abstrato.

O sexo não é o amor concreto.

O amor é concretamente líquido.

 

A internet é uma máquina de liquefazer a timidez dos idiotas.

 

Entre a liberdade e a igualdade

a esquerda escolhe a segunda

a direita, a primeira.

Uma prefere a ilusão

a outra, a mentira.

 

A prosa pode ser ruim

e ainda conter uma história bem contada.

Um poema ruim é uma conquista da física:

puro punhado de nada.

 

A tristeza é uma dor descarnada.

 

Não há mais contra o que se bater

ser beat, hippie, punk, dark

anarquivanguardicomunista:

o ácido da realidade

derrete tudo.

 

Atenção: chão escorregadio.

 

Atentos pombos pedestres

partem dos prédios-pombais

fazem o que têm de fazer

incluindo muita merda

e logo retornam.

 

 A cidade teme

até a doçura da chuva.

 

A chuva é o sêmen de Deus.

A Terra, sua boceta aberta.

 

Com 7 bilhões de humanos no planeta

a solidão

é o animal mais ameaçado de extinção.

 

O islã é a maior ameaça à paz dos muçulmanos.

 

Com 7 bilhões de humanos no planeta

a solidão

é o segundo animal que mais prolifera.

 

Madrugada. O silêncio da cidade é áspero.

 

O Brasil poderia ser um grande país

não fosse sua pequenez.

 

"Somos feitos da matéria dos sonhos" (Shakespeare).

A mesma dos pesadelos.

 

Se o inferno são os outros

o céu sou eu ou a solidão

que são, afinal, a mesma coisa

e igualmente infernal

 

Don't matter where you are

everybody gonna

need some kind of ventilator.

 

Algum que ventile a dor.

 

A poesia parou.

 

Se não há Deus

só a vida importa.

 

Bitches.

 

 

Luis Dolhnikoff

 

Nota: “Rap branco”, não porque feito por um branco, mas porque sem rimas sistemáticas. E “rap” porque criado para o público, com o público na alça de mira, ao contrário da poesia atual em geral, geralmente feita para nada e ninguém além do espelho barato da vaidade do poeta. Na direção e no sentido contrários, aqui foi utilizado o Twitter, para o qual as frases que compõem o poema foram originalmente criadas. Com três vantagens ou objetivos: o Twitter exige que as frases tenham um mínimo de interesse potencial; determina uma medida, uma “métrica”, em função do limite de 140 toques; e induz uma temática não descolada do mundo imediato. O material bruto da coleção de frases foi então recolhido e retrabalhado, sem que seu paralelismo, sua autonomia original, fossem totalmente apagados ou mesmo muito diluídos, pois a coerência, a integridade, a inteireza, não são mais deste mundo. Outro motivo para o uso do Twitter: a fragmentariedade congênita do futuro poema, impedido de nascença de apresentar qualquer ilusória e ociosa organicidade. Enfim, melhor talvez um rap branco do que um poema pálido.

Luís Dolhnikoff (São Paulo, 1961) estudou Medicina e Letras Clássicas na USP. É autor de Pãnico (poesia), São Paulo, Expressão, 1986, apresentação Paulo Leminski; Impressões digitais (poesia, 1990); Microcosmo (poesia, 1991), Os homens de ferro (contos, 1992), os três pela editora Olavobrás (São Paulo), que criou em 1989 com Marcelo Tápia, e de Lodo (poesia), São Paulo, Ateliê, 2009, além do livro infantil A menina que media as palavras (Mirabilia, 2008) e do inédito As rugosidades do caos (poesia, 2012). Tem poemas publicados em Atlas Almanak 88, São Paulo, Kraft, 1988, organização Arnaldo Antunes; Tsé=tsé 7/8 (número especial com 30 poetas brasileiros contemporâneos), Buenos Aires, outono 2000; Medusa 10, Curitiba, abr.-mai. 2000; “Moradas provisórias (antologia de poesia brasileira contemporânea)”, in Hipnerotomaquia, Cidade do México, Aldus, 2001, organização Josely V. Baptista; Folhinha, Folha de S. Paulo, 27/07/2002; e nas revistas Cult 61, SP, out. 2002; Sibila 3, SP, out. 2002; 18 IV, SP, Centro de Cultura Judaica, jun.-ago. 2003; Coyote 5, Londrina, outono 2003; Babel 6, Campinas, dez. 2003; Ciência & Cultura 56, SP, Imprensa Oficial, abri.-jun. 2004; Ratapallax 11, New York, spring 2004; Mandorla – New writing from Américas 8, Illinois, Illinois State University, 2005; Mnemozine 3 (revista online, www.cronopios.com.br/mnemozine, 2006), além dos sites www.sibila.com.br, www.jornaldepoesia.jor.br,www.germinaliteratura.com.br,
www.bestiario.com.br/maquinadomundo, www.cronopios.com.br e ablogando (ab-logando.blogspot.com). Integrou a exposição de poesia visual A Palavra Extrapolada, São Paulo, SESC Pompeia, ago.-set. 2003, curadoria Inês Raphaelian, e a mostra Desenhos, de Francisco Faria, ao lado de Josely V. Baptista, Curitiba, Museu Oscar Niemeyer, mar. 2005 / SP, Instituto Tomie Ohtake, set.-dez. 2005. Traduziu Arquíloco (Fragmentos, São Paulo, Expressão, 1987), Joyce (Poemas, São Paulo, Olavobrás, 1992, colaboração Marcelo Tápia), Auden, (Mais!, Folha de S. Paulo, 06/07/2003), Cervantes (Mais!, Folha de S. Paulo, 14/11/2004, colaboração Josely V. Baptista), Yeats (Etc, Curitiba, jan. 2005), William Carlos Williams (Sibila, www.sibila.com.br, 2011) e Ginsberg (Uivo, São Paulo, Globo, 2012). Entre 1991 e 1994, coorganizou, ao lado de Haroldo de Campos, o Bloomsday de São Paulo (homenagem anual a James Joyce). Como crítico literário, colaborou, a partir de 1997, com os jornais O Estado de S. Paulo, A Notícia, Diário Catarinense, Gazeta do Povo, Clarín e Folha de S. Paulo, além das revistas Sibila e Babel e dos sites Cronópios e Sibila. Recebeu, em 2005, uma Bolsa Vitae de Artes para desenvolver estudo crítico sobre a obra de Pedro Xisto. Entre 2003 e 2008, foi colaborador de política internacional, com destaque para as relações entre política e religião, da Revista 18, do Centro de Cultura Judaica de São Paulo.

luisdkf@uol.com.br
 

 

 

 




 



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